Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Subtilezas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.740 – 19-Dezembro de 2003
Conversas Soltas
Chove.
O céu está cinzento, e as vizinhas casas caiadas da paisagem que me cerca e já de cor conheço, estão lavadas, repassadas da água que já escorre dos beirais, em catadupa.
Não vale alongar o olhar. Não vale a pena.

A dois passos de distância o horizonte está fechado, opressivo, como se a escuridão tivesse engolido o resto do mundo lá por detrás...
Até as nesgas de verde da erva nascente, que por esta época de Natal cobrem o chão, de tão empapuçadas em lama não têm mais o seu ar comovente de relvinha tenra de presépio.

Só palavras pesadas de sentido me ocorrem – preto, negro, negrume...
Preto, negro, negrume, palavras pesadas, tristes, quase aziagas como presságios maus, como a carranca deste dia húmido e escuro.

Onde andará o sol, a luz, que faz a alegria da cor?
Onde andará o sorriso do tempo, onde andarão as nuvens fugazes, esvoaçantes, loucas, que percorrem os céus vaporosas como sonhos fluidos, belos e vagos como tudo o que fascina, embriaga e não se domina jamais...
Para onde se terá mudado o mundo de azuis, essa escala monocromática, que faz o esplendor do azul na paleta do céu?

Porque terá a luz tanto que ver com a alegria, e porque se ligará tanto à tristeza, a sombra, o escuro, o negrume.
Como se tristeza e dor não fossem possíveis em dias jubilosos...
Que diferença haverá entre negro e negrume, fico a pensar, e dou comigo a achar que negrume é mais do que negro. Senão no tom pelo menos no significado de volume e vastidão que transmitem.
E, branco? – Branco, não tem cor. Mas, se for alvo já é branco com luz, ou não será?

Porém, se se disser: branco de jaspe, já é frio, cortante como gelo, embora seja ainda branco.
É que jaspe é pedra. Já pode sugerir o túmulo. A morte.
Pensa-lo, já arrepia.

Prefiro o branco da cal.
Esse, tem o cheiro da limpeza. Esse, põe as casas a alvejar, tem o calor do sangue que no trabalho, alimenta a vida da gente, que por intuição ou instinto, até, procura a beleza na simplicidade castiça dos costumes herdados.
Porém é também com uma pá de cal que os corpos descem à terra.
Como tudo pode ser contraditório.
Perco-me por entre as subtilezas da nossa língua. Perco-me , mas delicio-me.

Em dias soalheiros, minha Mãe ao acordar-nos, sempre dizia: está um dia de rosas!
Levantem-se!
E, já se sabia que era um dia radioso, era o verdadeiro dia novo em que os instantes se sucediam como se em cada um deles o dia estivesse a renascer belo, luminoso, por estrear, em folha!
Já se o dia era de chuva, lhe chamavam copiosa... Também as palavras têm destinos distintos. Pois se copioso é farto, é abundante, porque é a chuva copiosa – sendo muita – mas é esplendoroso o sol, se nos inunda!

As palavras são um inesgotável manancial de assunto e de mistério, com elas me distrai, e entretanto a chuva parou.
Engraçado é que eu queria contar, e por pouco, já me esquecia a história do menino francês que andando a aprender português resolveu certo dia anunciar que ele e a família iam “ quebrar” para Lisboa, e perante o riso dos circunstantes fez questão de provar que partir e quebrar eram sinónimos...e, até tinha razão... só que ainda lhe escapavam as subtilezas – em que é pródiga – a nossa língua.
Maria José Rijo

