Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Encanto e Paladar
Á Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1912 – 30 de Outubro de 1987
Encanto e Paladar

Tínhamos chegado havia pouco.
Estávamos ávidos de conhecer o ambiente novo que nos envolvia.
A estrada que nos conduzia do aeroporto até ao hotel, apresentara-se-nos, ao longo dos 25km, orlada de “beladonas” em flor.

Noutras estações do ano, haveríamos de a admirar com as azáleas, os jarros, os agapantos, as hortênsias, as roseiras bravas, a sucederem-se ou a confundirem as suas aflorações no mesmo percurso.

As pessoas com quem por dever de cargo tínhamos que contactar, esmeravam-se no esforço de nos mostrar cada recanto da sua bela ilha.

Já fôramos com um “montanheiro” por caminhos de negra “bagacina”, onde as hortênsias florescem em azul, explorar grutas (com entradas encobertas por azevinho e mato) percorridas por correntes subterrâneas de águas geladas e transparentes.

Já havíamos descido ao fundo de chaminés de vulcões extintos, ao “Algar do Carvão” onde a água goteja das paredes irregulares, pelos relevos das lavas solidificadas, salpicando fetos de folhagens verdes de finíssimos recortes, que ficam a estremecer como arrepiados, enquanto dos fundos vem o eco dos pingos que se perdem nas águas dos lagos tinindo como musica de cristais, criando beleza e mistério que falam de começo e fim de mundos.

Sei lá que de coisas mais já viramos e pressentíramos naqueles vales desertos onde a terra referve como papas ao lume, cheira a enxofre e se faz, enterrando-o no chão, (embrulhado em panos) o melhor cozido de carne e couves que se possa imaginar…

Pois naquele dia, rumamos pelo interior ao outro lado da ilha, à freguesia de “Biscoitos” onde abundam casas de lazer junto às “calhetas”, (piscinas naturais que o mar cava na rocha e cuja água renova constantemente).

A paisagem era variada. Sucediam-se a zonas de aspecto lunar com vacas a pastar pachorrentas nas encostas dos vulcões extintos, matas densas de criptoméirias esbeltas, bosques de loureiros e trepadeiras, rocas de velha, hortênsias e fetos.

Cheirava a terra fértil, a musgo e humidade.
Havia, silencio. A luz coada pelas folhas do arvoredo alto, criava a religiosidade contemplativa e sombria de uma catedral.
Reparei então que as nossas presenças assustavam a passarada e os melros, que por lá abundam cruzavam-se à nossa frente, muito negros e brilhantes, quase rente ao chão, em voos furtivos, de moita para moita, com os bicos amarelos e grossos luzindo, e um barulhinho de asas a ranger.

Maravilhada, comentei: - tanto melro!
Que lindo!
Então com o ar entretido de quem lhes conhecia “outro gosto”, a minha companheira de passeio comentou:
--“Os castanhos fazem melhor canja”.

De então para cá, de vez em quando, furtivamente – como um melro esvoaçando na sombra dos bosques – perpassa no meu espírito esta recordação que invariavelmente me faz pensar e sorrir.
Maria José Rijo

