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Reformas...

Terça-feira, 30.03.10

Á LÁ Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1778 – 22 de Março de 1985

Reformas aos Senhores deputados…

 

Depois da recente aprovação do decreto que concede aos Senhores deputados – além de fartos aumentos nos seus proveitos mensais, prémios de presença e ajudas de custo – seria oportuno para a Assembleia da Republica, mais decretos com força de lei.

- Que “São Bento” passasse a designar-se de: “São Tomé”!

 

Seguiria assim a lógica desse Santo, quando diz que: é preciso ver para crer!

- Estabelecer um ano de propedêutico para toda a classe politica antes de começar o exercício efectivo desta “nova carreira profissional”!

Seriam maldade, ou grosseria, formas de repúdio – não reconhecer que à dignidade de certos cargos se deve, por convenção social, atribuir meios que permitam determinadas aparências e procedimentos.

Convenhamos que é verdade.

Porém – a pergunta que aflora ao bom senso do povo – em casos como este – é lógico: - Será que é curial (usemos termos de Assembleia) neste momento, usar os dinheiros públicos aumentando as regalias (que temem apenas pela aparente dignidade do cargo) quando a grande maioria de um povo, escassamente consegue salvaguardar uns restos de aparente dignidade humana?

- O que se poderá pensar da família que trazendo os filhos mal calçados e mal alimentados, tenha os pais a viver em regalada abastança – só porque – conhece gente rica e quer imitá-la?

Faz-se assim, ao nível do senso comum, com um exemplo comum, o paralelo com a relação de justiça que há entre a classe politica e o povo português.

Num país quando ao  fim de oito anos são pagos – como extra – (já que não excluem logicamente lucros de posições particulares que, muito justamente, não se põem em jogo por aceitação de cargos políticos) – Os Senhores Deputados vão auferir reformas! Reformas, cujos montantes, mesmo ao fim de 30 ou 40 anos de labor, estão absolutamente fora do horizonte possível do vulgar trabalhador que põe em funcionamento todas as estruturas de suporte da vida de um País! – Que credibilidade podem ter as afirmações e as promessas que emanam a toda a hora de tão altas entidades?

Daí que um ano de propedêutico vivido por cada Senhor Deputado, na intimidade dum casal de reformados, de pensionistas ou de quem viva com o salário mínimo – daria à classe politica a oportunidade de ver – para crer! (como é)!

Talvez que, com as ironias de punhos de renda, com as subtilezas dialécticas com que – entre pares – os afortunados tribunos se cumprimentam e se procuram mutuamente deslumbrar!

Talvez que, acabado o “playback” – vibrasse o frémito da verdade da Vida e da Morte – confrontadas como nas touradas findas as cortesias…

Talvez que ninguém mais quisesse ser responsável por deixar que amanhecessem outros dias em que se prestigia a dignidade da aparência do cargo – em detrimento da dignidade da pessoa humana.

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 01:32

Um perfil... um sapato ... um par de botas !

Domingo, 28.03.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1776 – 8 de Março de 1985

Um perfil – um sapato – um par de botas !

 

Bocage, disse de si próprio, com crueza e amarga lucidez, olhando-se de frente:

“Magro, de olhos azuis, carão moreno 

Bem servido de pés, meão n’altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno”

Bocage conhecia-se e denunciava-se:

“Prazeres, sócios meus e meus tiranos.”…

Bocage reconhecia:

“Não forçam corações as divindades,

Fado amigo não há, nem fado escuro:

Fados são as paixões, são as vontades”

Da sua obra genial – o talento – forjou-lhe “o perfil” que vai resistindo ao tempo, como resistiu à má sorte que em vida o perfilhou.

Parece assim, que o perfil, se recorta a partir da dimensão humana, do valor e do mérito de cada pessoa.

Desenhar primeiro o perfil e querer em seguida preenche-lo, é como que: - querer criar um personagem de ficção.

Entre viver e representar (ainda que de forma bem convincente) vai a distância que separa o: ser  de – o parecer…

Mesmo o príncipe da Gata Borralheira, quando mandou que todas as donzelas do reino experimentassem o sapatinho encantado sabia que: - a mais linda princesa que jamais fantasiar se pudera, nos mais ousados sonhos – existia.

Até nós sabíamos!

Todos nos lembramos de a ter visto no baile graças aos mágicos sortilégios da fada madrinha.

… Mas, as fadas, já não exercem. Os anos de inocência estão cada vez mais curtos e, como tal, já ninguém espera soluções de maravilhoso ou fantástico para o que quer que seja.

Até as abóboras já têm o preço dos coches “desses tempos” e, portanto, não são necessárias varinhas de condão para as transformar no que valem: - Ouro.

Dadas estas reais circunstâncias, parecia mais certo que em vez de se procurar “um perfil” se procurasse gente que nos olhasse de frente definindo-se com a lucidez crua do Poeta:

   

Nós veríamos então quem teria “perfil” para nos ajudar a libertar da má sorte que nos perfilhou.

Alguém (que não se pinte bonito e com tons suaves de pura ficção) – alguém recto, duro talvez – mas inspirado – que acredite que mais alto do que os vícios e corrupção tem que brilhar para a história dos tempos a força de alma do povo que espera e merece ter futuro!

Traçar primeiro o perfil – tem seus perigos. Pois, como o sapatinho de cetim da princesa só servirá à pessoa criada e a mais ninguém…

 

É como o minucioso recorte para o líder do novo partido!

Tão justo! – Tão exacto! – Tão à medida! – Que já nem se sabe qual é a tarefa mais penosa – se meter os pés em tão cingida e bem moldada forma – se descalçar esse mesmo par de botas…

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 02:06

A minha Amiga Maria

Quinta-feira, 25.03.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.770 – 25 de Janeiro – 1985

A minha amiga

 

A minha amiga Maria veio da Bélgica para visitar a velha Mãe. Foi uma “coraçonada” – não aguentou a saudade e veio.

Ela é emigrante e a mãe tem 85 anos. De vez em quando larga tudo e todos e aparece aí.

Cumprida a finalidade de peregrinação – fez a via-sacra – da saudade. Bateu de porta em porta em procura de um abraço, a lágrima, a palavra, o sinal de agrado que lhe provassem a amizade retribuída que sente e oferece.

--“ Cá não se vive bem! – Dá pena! Mas – por lá também já não é como era!”

Maria partiu de cá há longos anos, com o seu homem e uma boa ninhada de crianças.

Os tempos correram como rio caudaloso…

As raparigas belas, fortes, trabalhadeiras – já casaram.

-- “Com portugueses – Graças a Deus!” – Os filhos já namoram e já ganham para se governar. Vão ficar por lá. Um embeiçou-se por uma espanhola, o outro por uma francesa.

Maria quer regressar. “Puxa-a mãe” – puxa-a a saudade.

Maria quer regressar. “Puxa-a a saudade” – puxa-a a saudade.

Puxam-na os costumes, as tradições: - cantares ao som de roncas em Natais rapados de farturas mas, fartos de esperança… São Mateus de fé com luzes e tendas cheias de coisas brilhantes, bonitas, que só de vista podia – então – conhecer…

Pergunta por todos. Todos quantos serviram. Directa, sem complexos, sem maneirismos nem fingimentos.

- “As senhoras precisavam do meu trabalho, eu do vosso dinheiro”.

    “Não me esqueço de quem me estimou!”

-- E, quer saber! - este? Aquele? – O outro?

Regozija-se com os êxitos de uns, sofre com os fracassos, as tradições da sorte acontecidas a outros.

-- Pergunta angustiada – “O que poderá fazer?”. Comove-se como quando fala dos netos.

Faz projectos: “no Verão venho 3 meses! Vou lá ajudar!”

-- “Servi os pais por precisão minha, vou servir os filhos por precisão deles” – Graças a Deus posso fazer isso”!

-- Conclui naturalmente…

Tem casa em Espanha, que o marido é espanhol.

-- “Vai ficar a viver em Badajoz?”

-- Responde à minha pergunta: - “pois vou Senhora! – Mas venho, na carrinha, todas as semanas buscar água para beber, a “Giri Váz” – que aqui a nossa terra é que é os nossos amores”.

-- “Lá, a gente, às vezes junta-se só para falar disto de cá!... – Lembramos tudo: - o bom e o mau!”

-- “Senão! – senão, não se aguenta – mesmo comendo e bebendo do bom e do melhor!”

É assim a minha amiga Maria!

Maria – entre as Marias – que de manga arregaçada meteram os braços fortes a amassar o pão dos seus, criando riqueza e conforto em países distantes… - que bom, que voltes por amor à terra – encontrando o pão da alma – no consolo de pisar o chão da tua infância de criança pobre – e bebendo a água fresca da fonte de “Giri Váz” – passeio de lazer e regalo que aprendeste pela mão de pais e avós!...

Maria – entre as Marias, força e alma dum povo – que enquanto andar assim vivo nos corações tem direito a um lugar na história e na geografia do mundo.

 

Pátria sagrada de povo

Que emigrado – ganha-pão

Estás repartida – mas viva

Se te bate o coração!

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:09

Caminhos

Segunda-feira, 22.03.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1771 – 1 de Fevereiro de 1985

CAMINHOS

 

Numa família qualquer, quando nasce uma criança – todos acorrem a debruçar-se sobre o berço e, como as fadas boas dos velhos contos lhe auguram as maiores venturas.

Assim, cada um, ao desejar para a criança que por amor lhe pertence o – “o melhor” – está quase sempre consciente ou inconsciente, desejando ver nela realizado o secreto ideal de felicidade – que lhe foi impossível a si próprio viver.

Também fisicamente a história se repete um pouco: - Cada um procura no recém-nascido qualquer pequeno indício ou vestígio de semelhança consigo ou outros familiares.

       

Não é raro que o menino ou a menina nos sejam descritos como tendo: - o pé da Mãe – a mão do Pai – a boca do avô – as orelhas da Avó e o sorriso, o nariz ou o cabelo de qualquer outro próximo parente.

Se bem pensarmos – teremos que dar conta que descrevemos um ser estranho (qual manta de retalhos!) feito de bocados velhos, já nossos conhecidos – em lugar da “criaturinha em botão” – que acaba de aparecer na dependência do nosso amor e protecção.

Cada pessoa é – como é!

Nasce uma vez e morre uma vez!

O percurso da vida que faz – por muito semelhante que se deseja a este, ou àquele modelo – terá sempre a marca do individuo que a percorrer…

Ninguém vive ou morre em lugar de ninguém!

Como cada árvore, cada um dará os frutos das potenciais sementes que trouxer em si.

E todos nós somos capazes de fazer milagres para oferecer um sorriso que seja a uma criança que nasceu doente; nós que inventamos a coragem e a força para recriar os gestos e paciência que são precisos em cada dia para ajudar a superar deficiências… - nós… temos certa dificuldade em aceitar que aqueles que nasceram escorreitos – escolheram destinos totalmente diferentes do que sonhamos para eles.

Se somos capazes de ser heróicos frente à adversidade porque não sabemos ser humildes frente à verdade?

Porque não seremos espontâneos a ajudar os nossos a ser felizes nos caminhos possíveis das próprias escolhas, se elas não colidirem com o Bem e a Justiça.

Porque estaremos sempre a enfiar-lhes as roupagens das nossas ambições?

 Por muito novas que estejam (em folha, até por as não termos usado) talvez apenas “mascarem” em lugar de “vestir” – quem por ser de agora – sonha amanhã! – E não ontem…

É isto, que me surpreende, também me fascina e dá que pensar…

 

Se a verdade – por espelho

Onde o meu olhar contemplo…

Educar – será – Amar,

Ensinar pelo exemplo…

 

Maria José Rijo

 

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:18

Dia de Anos

Domingo, 21.03.10

Dolores

que pelo menos durante mais

cinquenta anos

no inicio de cada

Primavera

os amores da sua vida

lhe cantem os

PARABÉNS

.

Beijinhos

Maria José e Paula

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publicado por Maria José Rijo às 00:10

Então como é ?!

Quinta-feira, 18.03.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1769 – 18 de Janeiro de 1985

Então, como é??

 

Frontalmente perguntamos à EDP:

-- Então como é?

- - Como é que, sem aviso – sem mais nem menos – se corta a luz da casa de alguém? Como?

É que se houvesse o cuidado, o mínimo de respeito que é devido a qualquer pessoa – só pelo simples facto de ser gente – (quanto ainda vitima potencial de organizações com processos de conduta tão arbitrários…) – muito atropelo se poderia evitar.

Se a pessoa visada fosse prevenida da sentença que a ameaça, ainda se poderia remediar a falta ou verificar o erro.

-- Mas, assim?

Francamente toca as raias do burlesco ou do humor negro! – Ou torna apenas evidente como pode ser descuidado um serviço público que se sabe impune a quantos desleixos, injustiças ou prepotentes abusos, queira exercer sobre os desprotegidos mas inexoráveis consumidores – dos bens que esse serviço controla!

Quem não sabia – tome nota! – Tome nota e acautele-se porque: - por engano, sem aviso, se corta o fornecimento de energia eléctrica a casa de qualquer cidadão, por muito cumpridor e bom pagador, que seja.

-- Então não há lei, ou preceito legal, ou pelo menos – moral - que impeça que estes cortes sejam feitos sem conhecimento dos utentes de tais serviços?

-- Então se para receber – seja o que for – dinheiro, encomendas, etc, etc… - é preciso – e, muito bem - que pessoa se identifique  - pode-se assim – sem mais, nem menos privar de um bem imprescindível (que tão caro se paga) – sem se verificar que não há erro de direcção?

-- Sem identificação?!!

-- Então como é?

A forma irregular como se procede à leitura dos contadores e á cobrança não excede já as mais arrojadas fantasias, sobre má gestão e desprezo pelo consumidor?

Pelo que se vê, faltava ainda instituir esta requintada pratica de cortar a luz casas só porque:

… “Deve ser mais ou menos por aqui que mora fulano ou beltrano?

-- E quem paga os alimentos estragados? – os incómodos, os vexames, os prejuízos matérias e morais?

-- Quem?

-- Será que nos dão alguma coisa de graça?

-- Então: - onde está a graça de nos privarem do que pagamos – sem critério e sem respeito e sem identificação?!!

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 16:52

Em nome de quem se cala...

Terça-feira, 16.03.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1757 – 26 de Outubro de 1984

Em nome de quem se cala!

 

Quando vinha a sair da enfermaria das mulheres reparei na única cama à esquerda, que não tinha ninguém por perto, estando ocupada.

Instintivamente aproximei-me e perguntei com simpatia: Então?! – Sozinha?

- Com um sorriso de agrado veio o esclarecimento:

- “A camioneta é cara. A minha gente esteve cá ontem, só poderão, talvez voltar amanhã se Deus quiser.”

Falámos um pouquinho, como se fôramos amigas de longa data, embora acabássemos de nos encontrar.

Ao despedir-me, num tom de afectuosa brincadeira, fui dizendo: este beijo é em nome das pessoas que lhe querem bem, não podem estar aqui, e por certo a estarão lembrando agora, como a Senhora a eles.

Trocamos votos de bons desejos e separou-nos a vida que por uns instantes cruzara os nossos caminhos.

Agora, volta e meia, retorna à minha lembrança a insistente recordação da voz dessa minha irmã mulher…

“A camioneta é cara… mas amanhã…”

Um anseio modesto. Um anseio justo e, mesmo assim, um sonho…

A resignada consciência de que tem uma economia débil.

Um utente ao acaso, do nosso hospital.

Alguém que sabe, por herdado atavismo, talvez, que entre o ideal e o possível a distância, por vezes, é insuperável.

Alguém, de entre os milhares de pessoas que vivem reforçando em cada dia a certeza de que se o ideal é inatingível – é, no mínimo recomendável, que se conserve – se melhor não pudermos – o bem que temos.

Acredito que esta evidencia se furte aos olhares ministeriais (não por miopia ou deformação de lentes) mas, voando alto, como voam constantemente, deverão ter da terra onde a clientela desses hospitais labuta, a noção um tanto idílica de um “planeta azul”. Porém, quem palmilha com as solas dos sapatos, gastos e cambados, os caminhos esburacados dum quotidiano assas difícil…

Quem tem das camionetas roceiras, que param de lugarejo em lugarejo – a ideia de conforto que outros só conseguem colher, como “V.I.P.es” na classe de luxo de aviões reluzentes – é que sabe quanto vale, do meio duma enfermaria, ver sorrir-lhe, logo da porta na escassa hora de visitas – a presença acanhada do marido, da mãe… dos filhos – ainda que nos olhos a angustia espreite e a camioneta tenha “comido” o dinheiro da ceia.

É urgente que aqueles a quem a vida deu a vantagem de posições de comando, não pensem que pobreza é figura de retórica, ou que dela tenham a imagem da célebre redacção do menino rico:

“Pobres são: os que têm pobres vivendas, criados pobres, jardineiros pobres e carros antigos…”

É urgente fazer sentir que pobres são os que: “Não têm” para viver durante “um, mês”, tanto, quanto qualquer Senhor ministro tem de ajudas de custo “por dia” – por exemplo!

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:11

Amarga Lucidez

Sábado, 13.03.10

.

 

Persistente e sagaz, em duro assédio
tenta-me a Vida, para que a viva, em cada instante
Atenta, contra o meu tédio - provoca-me
espicaça-me
e, entre o medo e o desejo
querendo
querendo em desespero
finjo não querer
sem me negar
não me dou -disfarço - afloro o beijo
e assim, perco e morre o cobiçado ensejo
.
Maria José Rijo

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 12:28

Com água no bico

Segunda-feira, 08.03.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1754 – 5 de Outubro 1984

Com água no bico

 

- “Faze o bem – não olhes a quem”

Quem não sabe e acredita neste aforismo popular?

- “Quem semeia ventos – colhe tempestades”

Outra verdade indesmentível – que toda a gente conhece.

- “Trabalha e cria – terás alegria”

- “Não vá o sapateiro além da chinela” !

- “Estende-te à medida do lençol” – ou – “à medida do teu pano”

 

Sei lá! Sei lá, que mundo de conceitos da ciência de viver, o povo, resumiu de forma mais ou menos poética em pequenas frases de decorar, e mais fáceis ainda, de entender, como mensagens de sabedoria empírica que se foi destilando na experiência de séculos.

Os ditados populares surgem-nos assim como uma espécie de “enciclopédia verbal” que de geração em geração, se foi herdando e enriquecendo e, que, apesar de todas as alterações que o tempo introduziu na vivência das pessoas – não perderam força e significado – talvez porque são descendentes directos de dois conceitos eternos de vida – o Bem e o Mal.

Porém, um dos rifões que sei – talvez para criar a excepção necessária para a confirmar – ainda a escapar-se um pouco da regra – reza assim:

- “Com o teu amo não jogues as peras!”

Tanto quanto entendo, isto significa que os poderosos, os que detêm o mando, têm sempre razão e que, por tal, deverão sempre deixar-se ganhar.

Julgo que foi por achar este pensamento ultrapassado que a ideia de democracia germinou para ensinar regras novas para o jogo. Agora, já poderá dizer-se:

- joga as peras com o teu amo.

Joga e luta para ganhar se a razão estiver do teu lado.

Ora, nos velhos adágios populares sempre se recomenda:

- “Remenda o teu pano que chegará ao ano! Torna a remendar que tornará a chegar”…

- “Quem guarda acha”! – “Quem poupa tem”… - e, por aí fora, tudo é prevenção e cautela na sabedoria popular e só – em saúde – se recomenda: - "Vão-se os anéis, fiquem os dedos!" e ainda porque:“Pai impertinente faz o filho desobediente”! .

Fica-nos a certeza de que séculos e séculos de experiencia acumulada garantem esta verdade:

      

“Voz do Povo – Voz de Deus

Quem tem cuidados não dorme”

Também o povo garante

- Se “isto leva água no bico”?

Quem for tolo que se espante!

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:16

Elvas com alguma rima e ... muito amor

Sábado, 06.03.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1750 – 31 de Agosto de 1984

Elvas com alguma rima e… muito amor

 

Evocar Elvas – nobre cidade antiga.

Tentar recreá-la, cantando-a de memória.

Tem muito que se lhe diga!

É como num mural pintar a sua história!

 

- Quantos verdes sombra de Oliveira - acastanhados do chão!

- Quantos tons quentes do florir  as Olaias, para dar o “toque” de alegria, que o povo cria – quando canta e dança as saias!

- Quantas referências ao Senhor Jesus da Piedade (onde a fé dá mais sementes do que o trigo duma herdade!)

E, para que ressaltasse do fundo de tom grave, antigo, toda a história viva da cidade como cabeça assomada a um postigo!

- Para que ficasse gravada em quem escuta, como fica o canto, a lenda, a voz…

- Para ficar presente como está o Aqueduto que veio de outros séculos até nós… - - Haveria de ser capaz – ser capaz e saber – de pintar as manhãs frias de mercado com o “brinhol” a inchar no azeite a ferver…

- Os cafés sorvidos de pé – o cigarro “cuspinhado”, o cheiro a aguardente nas falas do hortelão que esfrega, a amornar com o bafo, os dedos enregelados de uma e outra mão!...

- Para falar de Elvas a quem não conhece, quantas histórias de contrabando, roxas, sombrias com tiros noite dentro, fugas, medos, preces, que assombram a paz do correr dos dias…

 E, os heroísmos de outrora? Auroras de redenção? O 14 de Janeiro – celebrado num padrão!

- E as cores vivas das crenças – o tirar dos chapéus, os silêncios ajoelhados em comungada devoção quando, para anunciar um novo S. Mateus, os pendões passam à noitinha.

- As pernoitas dentro dos carros e carrinhas acampados no parque dos Olivais!

- E as mulheres, pelas manhãs, caras lavadas, o cabelo ao vento, solto e penteado, junto aos chafarizes entre ditos e risadas!

- E as refeições de garrafão ao lado, sentados ao ar livre pelo chão, com o gosto de viver, no trabalho amealhado, e agora – por merecido – saboreado, bebido em cada trago – mastigado com o pão!

- E onde encontraria os tons queimados dos trigais já ceifados e maduros?

- E os matizes, os cinzentos patinados, dos fortes, igrejas, muralhas, pedras, muros? (que mudam com a hora, o dia, o mês?!).

- E o jardim militar? – Cheirando a buxo e o laranjal.

- Quem seria capaz de tudo pintar a uma vez?

- E como poderia ficar neste mural desde o passado brumoso aos nossos dias que engrandeceu Elvas, quem a ama e faz viver?

- Por ser incapaz – qualquer desistiria e a sua mágoa ficaria a escorrer mansa e doce, como o Guadiana quando de “A Ajuda” o vamos ver…

- Ah! Mas se falar desta bela cidade alentejana a quem nela vive ou a tem no coração!

- Basta um piscar de olhos com cumplicidade…

- Um abanar de cabeça recheado de intenção…

 

E como António Sardinha – com simplicidade dizer: - “Esta Elvas! “Esta Elvas!” – Oh, então! Uma lágrima – um silêncio – um suspiro risonho porão Elvas inteira e viva à nossa frente evocada em Amor como num sonho.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:33


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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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  • O sonho da Joca
  • A menina de Trapo
  • A avó conta 1 historia
  • Conto - Margarida - 1
  • Conto-Margaridavaicontente
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