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A verdade dos mitos...

Terça-feira, 19.10.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1861 –  7 de Novembro  1986

A VERDADE DOS MITOS…

 

Uma das minhas histórias preferidas, quando era criança, contava a vida de uma princesa, que em todos os momentos de pavor que tinha que suportar, ao atravessar a floresta de cobre, de prata e de ferro – sempre defendida por horríveis dragões que vomitavam chamas – se via “ in extremix” – salva miraculosamente, porque nascera com uma estrelinha na testa.

 

Nas histórias antigas, as meninas princesas boas, eram de beleza idílica e bondade sem mácula e sofriam tratos de polé pela inveja de madrastas, que eram sempre feias e más, pavorosas como sustos! Como as histórias eram tecidas de terrores, maldades e generosidades de dimensões impensáveis, ficava-se a saber que todas estas coisas eram mais antigas no mundo do que as próprias histórias, já que eram estas que as narravam.

 

Claro que nestes contos do maravilhoso, os milagres, quero dizer, os acontecimentos fora do comum, sucediam aos bons e aos maus. Assim as lágrimas podiam ser pérolas, quando vertidas pelos bons, enquanto os maus choravam sapos e caganitas de ratos.

Também no fim das embrulhadas os maus eram punidos duramente, enquanto os bons recebiam recompensas mirabolantes… eram cobertas de pedrarias, príncipes ou princesas para consortes, e quer eles, também exemplos insuperáveis de virtudes, beleza, juventude, graça… aliás era um estado de graça que ficavam depois a viver para sempre…

 

Não sei muito bem porquê, e se o suspeito calo por não ter a certeza - aqueles contos fantásticos que sempre tinham sentido e intenção acodem-me muitas vezes ao espírito.

 

Vejo as florestas de cobre em cada árvore que o Outono despe, com o sol a incendiar o tons de laranja das folhas que esvoaçam e também…

Vejo as florestas de ferro em cada pinheiro ou eucalipto queimado, ainda de pé e já sem mais esperança de verdes renovados…

Vejo a prata no brilho de cada copa florida de branco quando os frutos são ainda promessas…

Sei, sabemos, como são comovedoras e belas – verdadeiras pérolas – as lágrimas de ternura, e como são revoltantes, asquerosos como feios repteis ou fétidos ratos os sentimentos maus.

No entanto, nas histórias reais também o bom e o mau – fadas e bruxas - de cuja mistura todos somos feitos se degladiam  dentro de cada um. E, se ninguém encontra, quando passa a mão pela testa, a tal estrelinha que dá imunidade e garante o bem, o prémio, o conforto depois de qualquer légua de mau caminho, ou luta terrível com perigoso dragão -  não porque a estrelinha não exista – ela é o ideal porque se orienta cada vida, para a qual se aponta o sentido de cada existência .

 

Por isso, à última hora, “in extremis”, quase sempre se salvava a princesa idilicamente bela porque era a imagem daquilo que se propunha defender, o Bem e a justiça, pelos quais lutava com decisão e coragem. Eis que, compreendido ou não, cada um tem que lutar e sofrer pela “estrelinha” que o guia porque “in extremis”, a fé o salvará.

 

Maria José Rijo

 

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