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Página de diário – 4

Sábado, 04.06.11

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Muitas vezes dou comigo a falar para mim como se na verdade aquela outra para quem falo e, com quem até discuto, caminhasse a meu lado.

Sei, por saber de experiência de vida, que já não sou capaz de me empoleirar em bancos, mudar as lâmpadas dos candeeiros do tecto e muitas outras tarefas tão rotineiras e insignificantes que só identifico, agora, porque me estão interditas. São aquelas coisas que não se contam porque não têm história, não enobrecem, não distinguem, são tão, tão, vulgares, tão apagadas quanto necessárias, que passam sem que se vejam, e só a incapacidade de as executar, as faz identificar.

Só por emergência voltarei a conduzir. O trânsito nas ruas antigas é às vezes uma aventura e a consciência das limitações que, noutras áreas se me impõem leva-me a fazer escolhas por prudente antecipação.

Quando me é necessário “subir ao povoado” uso um táxi e, no  regresso, a descer, gozo o caminho pedra a pedra, árvore, por árvore, com passos miúdos, lembrando os meus tempos de namoro a caminho do jardim e as olaias de cuja ausência, o chão guarda as cicatrizes. Faltam tantas! Paro e fecho os olhos procurando reviver emoções a cuja lembrança me acolho como a um porto solitário mas, são o lastro da minha estrutura como gente. Rezo de saudade pela bela pimenteira que durante mais de cinquenta anos roçava as folhas pelas nossas cabeças quando ao passar naquele caminho…

Venho sempre na esteira da alegria que sentia ao meter a chave na porta chamando por quem me esperava.

 

 

 

Às vezes, nesse gozo íntimo de lembrar coisas felizes, choro. Então insulto-me: - tonta! Nunca mais hás-de ter juízo. Para quê lágrimas!

Chorar faz mal aos olhos…e, ninguém volta ao passado ainda que o carregue consigo.

Então, suspiro fundo, e deixo que a cor e os cheiros me invadam os sentidos. O trajecto é breve, a estrada com o seu imparável movimento traz-me para a realidade

Carrego no botão, o trânsito pára e eu ganho a “outra margem”num passo acelerado como se o tempo me perseguisse.

Sinto-me cansada.

Admoesto-me! – Quem te manda andar a mexer “nos guardados”! – Quem?!

Resolvo atravessar o jardim para serenar.

A floração das olaias está no auge.

Ergo os olhos agradecendo a bebedeira de beleza e cor que me oferecem.

Cada dia é um dia e há momentos gloriosos.

Se os que mandam tivessem tempo para escutar o próprio coração as cidades cresceriam sem ofender o passado como os troncos das árvores que engrossam sobre si próprios. Mas as árvores não conhecem dinheiro, não fazem negócios, nem lutam por poder...

Apenas apontam para o céu.

O meu passo é seguro, mas dentro de mim a minha alma cambaleia entre o amor e a dor de viver…

É bom ter o nosso canto.

                                      

MariaJosé Rijo

Fevereiro de 2011

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publicado por Maria José Rijo às 10:00





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