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UM CASO

Domingo, 31.07.11

Á lÁ Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1956 – 2 de Setembro de 1988

UM CASO

 

No final do noticiário, ali na horinha de jantar, o locutor de serviço fez um
pequeno intróito, para prender bem as atenções dos ouvintes, sobre o que
apresentou como: - “Um caso”.

E foi! – Foi um caso lastimavel , porque a indigência moral exibida,

a quase infantil inconsciência, emboída do seu quê de vaidade  e narcisismo,

permitiram classificar facilmente o pobre ser humano, que se considerou a si próprio  como –

um machão ou um “gigolo”.

 

Penso que se trata realmente de um caso, mas, de um caso de doença, de desequilibrio
mental, ou qualquer outro que não merecia da RTP aquele tom de anedota inócua que se conta à
mesa, na frente das crianças no fim do Jantar.

Penso que ninguêm ficou mais enriquecido, beneficiado, ou feliz por ver que casos
destes – que infelizmente são possíveis – se podem considerar tão interessantes
e de tão útil divulgação, que a própria televisão, não resista ao sencionalismo
de os noticiar de forma tão “leve”.

Penso ainda, que a televisão se torna com este tipo de coisas, ela própria, também
“Um caso”.

Um caso que faz, pensar se será sua missão entrevistar um tarado sexual,
forçando-o, com um ar de simpática cumplicidade, a revelar frente às câmaras,
pormenores das suas práticas, como se fosse vital para os ouvintes conhecer em
minucia tais aberrações – ou apoiá-las.

Em resumo:

Um locutor fez o anuncio, uma locutora conduziu a entrevista e, um país inteiro
“registou”, com espanto, a maneira como estas coisas podem acontecer.

Foi realmente  UM CASO. Um caso que dá aso a
que se pergunte com inquietação se a televisão faz caso dos sentimentos de pudor e recato –

que graças a Deus – ainda se cultivam e defendem em muitas
familias portuguesas – que nascem, vivem, trabalham e morrem sem que, para se
considerarem felizes, precisam de utilizar tão moderno à vontade.

É que casos - como o deste triste caso – quando por dever, para prevenir ou defender
outros, manda a razão que se exponham publicamente, tem que ser tratados com a
piedade e o cuidado que as desgraças exigem, e não como quem fala de heróis.

 

Há entrevistas que falam tão mal de quem as dá como de quem as solicita ou
consente.

 

Maria José Rijo     

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publicado por Maria José Rijo às 00:06





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