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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

Maria José Rijo

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Pensamentos de Mª José

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Ponto de Partida - IV Emissão

.IV EMISSÃO PONTO DE PARTIDA

 

Quando outro dia falei sobre a rua de S. Francisco fiquei com pena de não referir

que aprendi com Eurico Gama

(através dos livros que por gentileza me ofereceu) e que são parte da importante

obra que escreveu sobre Elvas) que a rua de S. Francisco desde 1413 em que

ainda era Rua de Arrabalde até aos nossos dias teve os seguintes nomes:

( que passo  a citar : - do Cano, do Bom Sangue , de João
Fangueiro, de André Lopes Garro, de Porta de S. Francisco, de Porta do Bispo,
de Valadares ou de António Valadares, de Francisco Zagalo, de S. Francisco, dos
Fangueiros, a Corredoura, de Vitorino de Almada e só em 1952 voltou a ser de S.
Francisco. )

 

Histórias que Eurico, desenterrou do pó de séculos, investigando tenazmente em

anos e anos de trabalho esforçado (todos quantos os da sua vida adulta) embora,

quantas vezes remando contra marés de indiferença e mesquinhez – guiado apenas

pelos ventos favoráveis do sonho expresso no seu Ex-libris – Morra o homem fique a fama!

 

E porque falei de S. Francisco parece-me certo, voltar a citar Florbela
Espanca
a quem me tenho referido com frequência pois que, também ela no

soneto “ In Memoriam” esse canto ou pranto ( ou tudo junto )  do amor fraternal

que a ligava  a seu irmão o aviador Apeles Espanca que
morreu novo num acidente de aviação ( ou nele se suicidou como se suspeita )
!!! Também Florbela havia de voluntariamente chamar a morte, para si,
desesperada, na madrugada do seu 36 aniversário, em Matosinhos.

Parece-me certo voltar a citar Florbela, dizia eu com o seu

 

“In Memoriam”:

 

Na cidade de Assis, “ il Polvorello

Santo, três vezes Santo, andou pregando

Que sol, a terra, a flor o rocio brando,

Da pobreza, o tristíssimo flagelo,

 

Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,

Tudo era nosso irmão! -- E assim sonhando,

Pelas estradas da Umbria foi forjando

Da cadeia do amor o maior elo!

 

“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água… “

 Ah! Povorello! Em
mim, essa lição

Perdeu-se como vela em mar de mágoa

 

Batida por furiosos vendavais!

-- Eu fui na vida a irmã de um só Irmão,

 E já não sou irmã
de ninguém mais!

 

Assim falou ela a S. Francisco o Santo três vezes Santo que nos deixou dessa transparente
Santidade a sua bela oração de Paz.

 

Oração de São Francisco

 

Senhor

Fazei de mim o instrumento da vossa Paz

onde há ódio deixai-me semear o amor

onde há injúria o perdão

onde há duvida a fé

onde há desespero a esperança

onde há escuridão a luz

onde há tristeza a alegria.

Divino Mestre

permiti que eu procure nos outros

não a consolação mas sim consolá-los

não a compreensão mas sim compreendê-los

não o seu amor mas sim amá-los

porque é dando que recebemos

perdoando que somos
perdoados

morrendo que nascemos para o eterno amor.

 

S. Francisco de Assis

 

Como se vê uma oração pode também ser um poema e um poema pode ser uma oração.

Como também uma cantiga pode ser um poema ou uma lenda quase sempre o é também.

Se pensarmos que ainda hoje se cantam lenga-lengas, melopeias ritmadas para retirar barcos

do mar para a praia ou para os pôr a navegar – (em locais onde o primitivismo ainda impera)

se o lembrarmos podemos imaginar como esses costumes serão herança de outras
heranças que se perdem pelos séculos passados dentro, até aos primeiros homens
que fizeram os primeiros barcos e ensaiaram os primeiros dos primeiros, os
primitivos movimentos de danças de regozijo por o terem conseguido ou os cantos
e os lamentos por recear não alcançar os seus intentos:
ainda hoje é vulgar

para uma tarefa pesada – feita em conjunto -- como por exemplo descarregar
sacos pesados de cereais, ou cimento... Ver as pessoas que os seguram e os
suportam balanceá-los até encontrar o impulso certo que facilite a sua carga ou
descarga ensaiando o esforço a compasso duma exclamação que se arrasta ou
apressa conforme o trabalho a executar ...

É o “ala arriba” dos pescadores da Nazaré, é o “1,2,... 1,2”
do marcar passo dos soldados, é a cantilena com que as crianças se embalam para
aprender a tabuada: “2x1=2, 2x2=4” – Sei lá...

Desta necessidade de acompanhar, de acentuar os anseios, a alegria e a dor com
movimentos do corpo – (Pensemos num exemplo actual (os jogadores de futebol aos
pulos, aos saltos na alegria, se meterem um golo ou! atirados para o chão,
arrepelando os cabelos e esmurrando a relva em desespero – se o sofrerem).

-- Pois de necessidades mais intensas de expressão terá nascido a dança, o canto e com
eles a poesia (isto grosso modo – claro!)

 

Todas as coisas tiveram um princípio por remoto que seja – é lógico!

 

Os farrapos de lendas que chegaram aos nossos dias – foram talvez histórias

verdadeiras passadas de boca em boca – nos tempos em que ler e escrever era

prenda e privilégio de raros e quase só se cultivava no recolhimento dos conventos e mosteiros.

(Nesse tempo) as notícias e as críticas eram contadas por jograis, menestréis e chocarreiros

em melopeias e baladas e pagavam-lhes para o fazerem. Narravam talvez as histórias

que estão na origem de lengalengas e lendas que chegaram aos nossos dias – intactas umas,
esfarrapadas, fragmentadas, outras.

Dos meus tempos de menina quando andava à escola numa pequena aldeia do Baixo
Alentejo – tenho lembrança de algumas que me faziam sonhos e arrepios. Delas
sei muito pouco, mas vou dizer (a propósito quero aqui fazer um parêntesis) –
se alguém que me escuta souber estas lendas ou souber outras, ou orações
antigas, que diga por favor para a rádio Elvas porque a suas casas as iremos
recolher – ou, que para cá as mandem por escrito.

Era bom fazer programas sobre esse assunto, e até, trazer as pessoas que por
ventura as saibam para que as contem elas próprias.

Vamos
tentar? Obrigado.

 

Recordo pois A lenda da Idalina que estava presa na torre à míngua de pão
e água, lembram-se?

Era qualquer coisa
assim:

Assomou-se a Idalina

À Janela que a torre tinha

Assomou-se a sua irmã

Á janela da cozinha

Oh, irmã que Deus me deu

dá-me uma gotinha de água

que esta sede já me aperta

este corpo e esta alma

 

E a outra era a de D. Silvana, em que se pedia a cabeça de alguém, já nem sei de quem...

numa doirada bacia:  … E a certo passo contava assim:

 

Tocam os sinos da torre

 Ai, meu Deus, quem
morreria

Responde o filho de colo

Que inda falar nem sabia

Morreu D. Silvana pelo mal que fazia

Descasar os bem casados coisa

Que Deus não queria...

 

Eram contos tristes á cerca de mulheres sacrificadas, fechadas em torres
e conventos por recusarem noivos que os pais escolhiam ou histórias de reis e

fidalgos
poderosos que mandavam cortar cabeças de súbditos para satisfazerem caprichos
de amores novos... coisas doutras eras...

Vestígios destes costumes chegaram aos nossos dias com cantilenas de cegos e

mendigos que depois de entoarem (quase sempre desafinadas
canções com versos de pé quebrado em que desfiavam histórias de crimes,
monstros, vinganças cruéis ou desgraças que tais... pediam dinheiro estendendo
o chapéu á assistência mais ou menos interessada.

Vem daí a expressão (penso eu) “ Mete a viola no saco” que se usa quando se

quer mandar calar alguém que nos aborrece –
ou virá de lá mais longe – da era dos bobos e jograis? – Não sei!

Sei que receio ouvi-la eu, se pensam que estou a fugir do meu ponto de partida – a Poesia!

Mas não! Estou falando dela a meu jeito que de outra forma não posso.
Convencida que estou de que não são precisas rimas para dar guarida à poesia.

E, ao contrário cito:  ás vezes a poesia escapa-se do verso rimado
como o pescoço rebenta o botão do colarinho que sufoca para respirar fundo e a
gosto
.
A poesia ás vezes mora, fica presa a quase nada.

            Estou a pensar numa pequena lápide
incrustada na rocha á beira dum rio nascente na Serra da Estrela.

            Recordo que a primeira vez que a li
tive uma comoção como se tem ao ver alguém que se julga perdido ou morto e de
repente, como uma aparição, nos surge são e a salvo.

            Uma daquelas alegrias inesperadas
que nos põe a rir e a chorar ao mesmo tempo, porque nos põe em paz, porque,

 nos renova a fé nos homens

 

Lá alto na Serra da Estrela á beira
duma fonte – donde jorra um fiozinho de água muito fria e transparente – alguém
gravou Mondeguinhonascente do rio Mondego.

Só isto! – Só isto e basta para se pensar:

Oh, meu Deus! – São os mesmos homens que matam, odeiam e fazem guerras –

que se enternecem assim à vista dum veiozinho de água que brota da terra e o mimam

 desta maneira!  (o Mondego é sabido é o nosso maior rio
nascido em Portugal – dos poucos que é só nosso – mas, lá na Estrela ao vê-lo
pequenino foi olhado com a alma de joelhos como se olha num presépio e, como se
lhe pegasse ao colo porque o via nascer – carinhosamente o Homem – baptizou-o:

Mondeguinho.   Mora aqui a Poesia.

 

Ainda que outros por lá passem e deixem garrafas vazias, latas, plásticos sujos – lixos—

poluição. Ainda assim esta história é verdadeira. Aconteceu lá na Serra onde mora a Poesia.

 

Quando o meu vizinho Chico Rasquilha há um ano me pediu estes programas, 

estas conversas informais e me apontou como tema principal poetas do Alentejo –  

eu logo lhe disse que poderia partir daí mas não garantia aonde iria parar... 

ele achou bem deixar-me livre e assim hoje... até já fomos parar á Serra!

     Mas... vamos regressar para pararmos um
pouco quase ao pé da nossa porta, para chamar aqui à lembrança um grande poeta
que não era Alentejano, é verdade, mas era professor em Estremoz quando morreu,
em 1952, no dia 7 de Fevereiro sem ter sequer trinta anos.

Chamava-se Sebastião da Gama. Da sua curta existência (marcada desde
menino pela ameaça que infelizmente se cumpriu duma morte prematura) ameaça que
ele conhecia, ficou-nos um rasto de bondade franciscana, de amor pela natureza
aprendido na sua Arrábida – a sua “Serra Mãe”, um rasto de beleza e de talento
sem par. É de Sebastião da Gama o poema que vou ler:

O Segredo é amar:

                                  

Fosse mais bela a vida e mais sincera…

Como eu lhe quero, mesmo assim!

Tanto lhe dei de mim

que já é menos acre do que fora.

 

Ah! bem me parece que o Amor melhora

quanto a graça de Deus não fez bonito.

Há lá coisa mais linda que um grito

quando foi o Amor que o pôs cá fora!...

 

Deixa ser o meu gesto uma grinalda

Nos teus cabelos, Vida!

Deixa que o meu olhar enflore teus olhos.

 

Adeus, adeus teus dedos ásperos!

Adeus teu rictus doloroso!                               

- Vida, quem é a minha namorada?

 

Também é de Sebastião da Gama esta página datada de
21 de Janeiro de 1952, escrita portanto, menos de um mês, antes da sua morte!

Encarcerar a asa

 

Encarcerar a asa é encarcerar a alma. Isso sim. É que há
muita asa que não pensa; Asas que não sintam, é que não.

Mas eu não preciso de símbolo para me negar a ver os
pássaros na gaiola. Basta-me ser fraterno.

Para que vivemos no Mundo há tanto
tempo se não sabemos ainda que os bichos são criaturas com alma até os das
fábulas, quando calha…Ora pensem lá um bocadinho no “Leão Moribundo”É um leão
mesmo ou é principalmente um leão.        

Quantas vezes se esquecem os fabulistas de que era de homens que queriam falar!

Asa encarcerada, não. Nem asa de pássaro, nem asa de
grilo Uma fê-lo o Senhor e disse-lhe – “Voa!”        

 Á outra: “Canta!”A nenhuma (nem a nós deu a ordem, claro está) que se metesse
numa gaiola. No entanto é a gaiola domicílio muito habitual do pássaro e do
grilo. Ao grilo prenderam-no as crianças sob o sorriso dos pais. Ao pássaro os
pais sob o sorriso dos filhos.

Má escola esta. Principalmente porque se diz depois:”Que
bem canta! que bem que canta!”Nem se chega a aprender a diferença que vai do
canto ao choro. Pois um pássaro encarcerado ou um grilo, canta lá!?...Os
pássaros cantam é nas linhas do telefone, nas árvores, na beira dos telhados…Os
grilos é na toca, ou ao pé da serralha. Na gaiola choram. É o fado dos ferros.

Mas os que abriram a grade não entendem! Se eles abriram
a grade!...

E vá de não perceber que o fato preto do grilo já é
outro, já não é o seu fato de trazer: o grilo agora está de preto, porque está
de luto. De luto por si mesmo.

Os meus vizinhos têm um bicho numa gaiola. Um
pintassilgo. Pois se eu andasse zangado com a Vida, que não ando (apesar de
tanto mal que me tem feito, há tantas coisas boas que a Vida dá, e me dá!) era
por causa do pintassilgo que me reconciliaria com ela. Com ela e com os homens
- Se eu andasse de mal com os homens…Era ao lusco-fusco. Frio como só cá no meu
Estremozinho. Batem á porta, vou ver. Uma velhinha.

“Ó Senhor o pintassilgo é seu? É para o recolher que o
animal apanha muito frio.”

Ó! Velhinha Santa, velhinha dos livros! Naturalmente, se
tivesses á mão a gaiola soltavas o pintassilgo. Mas o que pudeste fazer é tão
grande!

Não sabes duas letras, provavelmente. E ainda se persiste
no erro que a grande desgraça é não saber ler. Qual coisa!A grande desgraça é
não saber que os pássaros têm frio.

 

Estremoz, 25 de Janeiro de 1952

 

Sei que não
preciso de dizer que da primeira á última linha deste texto, cantou viva a
poesia de que era feita a alma de Sebastião da Gama.

 

Maria José Rijo

 

Ponto de Partida - III Emissão

III Emissão Ponto de Partida

 

Aqui estou de novo e, desta vez, para vos fazer um convite.

Venham!

Venham comigo à rua de S. Francisco mas... através da sensibilidade, da palavra – da poesia de Casimiro da Piedade Abreu.

 

RUA DE SÃO FRANCISCO

 

Eu nasci numa rua, como todas as outras ruas

com casas, com os decantados vizinhos e com

alguma poesia.

A rua de S. Francisco tem qualquer coisa

de mágico para quem lhe desce a calçada.

Acaba, de súbito, na muralha negra, com uma

mancha muito branca no sopé.

Essa “branca” foi casa de São Francisco. Agora,

é residência de um sapateiro.

À porta escalavrada lembra as invernias que

lhe lamberam o novo. Um cenário deveras

interessante !

Os “A la Minute” escolhem-na para fundo das

suas poses. Soldados do quartel vizinho,

encostam-se nele e deixam-se fotografar.

A rapaziada refugia-se no fundo da rua.

Ali seus divertimentos são mais extensos...

Passado um pequeno arco, à direita do

sapateiro, entra-se num pateozinho com

um urinol fedorento a um canto e uma

poterna na muralha a deitar para um jardim.

Ali, joga-se a bola.

Nos dias de grande movimento, quando há

feira lá fora, ou domingo no jardim, o

jogo é rasteiro e sem força.

Pela rua vai, então, o clamor da ciganada.

Entram e saem. As padarias vendem o trigo

amassado. Os dinheiros trocam-se e o olhar

come o pão que os dentes só, mais logo,

mastigam.

Ainda muito antes que o sol desponte, na

minha velha rua de S. Francisco acotovelam-se

os pensamentos mal despertos. Sonham-se os

ditos. Há luta no pátio situado para além do

arco que está no fim da rua, à esquerda.

A bola cai no urinol: há que a pôr a secar!

O sapateiro abre a porta escalavrada da sua

loja.  Olha a freguesia do pé descalço.

Vai à banca. Sai um cigano com pão da

primeira fornada. Tem fome nos olhos.

Miúdos começam a ensaiar o “estender

lamentos” ; são ciganos espanhóis e nacionais;

misérias vizinhas e de longes terras ...

Em São Francisco...

Ciganos sobem a rua,

Trazem jornadas nos olhos...

Entoam canções fantasmas

Que entram, por nós, aos baldões...

E ouve-se: -- São portugueses?

Malandros! Gente Perdida!...

Nossos irmãos espanhóis?

Canalhas!... A mesma cantiga

 

Sobem a rua a correr

Ou saem das padarias

Onde o pão esteve a nascer.

É tanta a fome nos olhos

Dessas misérias vizinhas!...

 

... Na rua de São Francisco

Calam-se as alegrias;

Bulem, antes, agonias,

Rezas a aparecerem sinais.

 

E a legião das feiras

Cruza a calçada ardente

 

(O mundo está pendente

duma tenda e dum suspiro,

Em cenário de lenda, caiado,

No sopé duma muralha

Dum burgo abandonado...

... Onde ciganos e lendas

armaram as suas tendas!

           

... Onde morre, em cada beco,

um eco estrangulado

E um sabor a pecado

Fica, nos lábios, colado.

 

Riem-se as velhas calçadas

dos queixumes das mulheres.

Ladeiras correm encostas

sem ninguém o perceber ...

Muralhas fazem cinturas

E o ar fica de fora...

--- Uma lenda em cada pedra;

Um sonho em cada enxerga

Um romance; uma saudade;

Uma canção; uma reza!)

 

Eu sei que essa legião

Luta à conquista do pão.

Oiço pragas e adivinho

Casas a venderem vinho.

Canções correm telhados

Até que os ecos, cansados,

Perdem a voz e recolhem

A alma que os sonhou...

 

Bamboleiam-se ciganas;

Corpos tisnados ao léu,

Lá nessa tenda do céu!

 

Ciganos trazem jornadas

Nos seus corpos escorridos,

Cajados firmes nas mãos

Superstições nos sentidos

 

E o Sol que parte a calçada

Não tem quem lhe diga nada!

 

Casimiro vivia na rua de S. Francisco numa casa, quase fronteira a essa outra onde viveu Domingos Lavadinho – a quem este poema foi dedicado.

Casimiro fixaria a poesia da vida da nossa cidade com os costumes de então, apreendendo-a e particularizando-a no olhar de amor feito do conhecimento profundo que tinha da sua rua. A rua da casa de seus Pais, a rua onde brincou, onde cresceu com seus irmãos e, onde sonhou os seus caminhos de Homem.

Domingos Lavadinho – a meu ver – foi também poeta d’Elvas porque fez da sua vida um poema de amor a esta sua terra que serviu devotamente.

Nunca é demais que Elvas o recorde...

Para Casimiro Abreu há 27 ou 28 anos era assim a rua de S. Francisco. Hoje lá longe em África assim o recordará.

 

E... para si?... Para si que nem sequer tem 20 anos; ou tem 30 ou pouco mais? Como é a Cidade? Como é a sua rua? Como é a rua de S. Francisco?

 

É só o atropelo das pessoas apressadas? São os encontros frutuitos? Os passeios ao acaso; os namorados pelos cantos, a algazarra dos garotos da escola, os estudantes de blue geans? – Os enxames de espanhóis? – Não de meninos (dos que fala o poeta maltrapilhos, pedinchões, que os tempos cruciantes da guerra civil forjaram...)

Não! – Antes pelo contrário pois agora são os espanhóis prósperos que nos visitam (e que quase como na cantiga do Sebastião barrigudo de há trinta anos) compram tudo... tudo... Tudo!...

 

Já pensou que é isto e mais as camionetas que atravancam as ruas e nos espalmam contra as paredes quase como nos desenhos animados... e mais os automóveis que passam loucos e os que passam prudentes e as motoretas

 

despudoradas como varejeiras incomodas de guinadas imprevisíveis e mais os mini – mercados e os super (qualquer coisa) e os maxi (não sei quê) e a policromia da bonecada de barro sarapintada e as flores artificiais de papeis e de plásticos que espreitam por tudo quanto é loja, de travessa ou esquina, ou praceta, por escura que seja! Enfim! Tudo que constrói o nosso dia a dia de agora – que dá – ou dará – ao poeta de hoje – as pontas do fio com que tece a poesia da cidade de hoje – ao falar de qualquer rua do centro, ou seja ela a de Alcamim – Olivença – Chilões – ou São Francisco.

Ruas tão diferenciadas das ruas castas, retiradas, recolhidas como “Espirito Santo” – Parreiras – Beatas – esses postais vivos – brasonados pelo povo com os símbolos heráldicos do amor eterno – as flores.

 

Porém – para quem possa olhar para mais longe no passado – a lembrança avivará com saudade – o que os novos já só ou ainda poderão saber se lerem por exemplo Eurico Gama (esse outro poeta do Amor a Elvas) esse ferrenho estudioso que quase perguntava a cada pedra da calçada – o que sabes da minha terra? Quem viste passar aqui? – E desenterrava a verdade e ressuscitava a história... Com a ternura de elvense atento que foi – e que ilustre e afamado se tornou – por amor – amor a esta sua terra – a esta nossa – Elvas.

 

Aos que recordam mais longe no passado, dizia eu, ouviremos então falar no caramelo branquinho, feito de açúcar que se comprava no Bolacheiro – ali na rua de S. Lourenço e se ia saborear derretendo-o na boca com a água fresquinha da cisterna ao fundo da rua de São Francisco.

 Ouviremos falar dos passeios de trem e chars-a-bancs das famílias abastadas.

 Dos almocreves regressando à cidade à noitinha – das cocheiras hoje “ promovidas” a lojas e a garagem – de onde nesses tempos no silêncio das ruas mal iluminadas (do mundo encerrado por detrás das portas fechadas, como diz o Poeta) – se escapavam os ruídos inconfundíveis das patas dos cavalos acompanhados do resfolgar de conforto que fruíam presos frente à manjedoira farta.

Evocaremos também os cordões de povo endomingado saindo e entrando pela poterna do Jardim em dias e noites de arraiais de S. Mateus...

E recordaremos as saias cantadas – ao som das pandeiretas que as camponesas manejam com tanta alegria.

 

Não chores não vale a pena

Também vais ao S. Mateus

As meias são emprestadas

Os sapatos não são teus

 

 

O Senhor da Piedade

Tem 24 janelas

Quem me dera ser pombinha

Para poisar numa delas

 

Que sábio Poeta é o Povo!

 

Com que graça, discreta e fina ironia refere a mingua do seu quotidiano, e, como encontra a solução jocosa para a superar e, sabiamente, rir de si próprio ao mesmo tempo que mostra que sabe perfeitamente que a festa é de todos sem excepção.

É assim como quem diz:

 

se nada mais tens, tens-te a ti mesmo e continuas a ser filha de Deus e filha desta terra, tudo te pode faltar – tudo menos – a oportunidade que te é reconhecida de ir à festa – que só será festa porque de todos e para todos – como é a festa da vida! – Pela graça de Deus!

 

Julgo que não é possível dizer mais e melhor apenas em quatro versos.

 

E a outra quadra? Alguém que a ouça não sabe de que cor é a pombinha?

Alguém terá dúvidas de que a pombinha é branca? É branca! E não podia nunca ser de outra cor.

É sempre branca da cor da pureza, o anseio de mais alto – o anseio de Paz que pulsa na alma da gente.

Quanta candura nesta avidez de mais além que um simples suspiro às vezes encerra – Quem me dera!!!

Talvez fosse essa também a sede de Mário de Sá Carneiro– (um Poeta que não é alentejano, nasceu em Lisboa em 1890 e suicidou-se em Paris, em 1916) quando escrevia em:

 

Um pouco mais de sol – eu era brasa

Um pouco mais de azul – eu era além

Para atingir faltou-me um golpe de asa

Se ao menos eu permanecesse aquém

 

Talvez fosse esta a forma poética elaborada, a maneira genial pode dizer-se que o poeta encontrou na sua elegante linguagem para o grito ancestral – que como um atavismo – todo o ser humano herda ao nascer – o sonho de mais alto, de maior pureza, este:

 

Quem me dera ser pombinha

Para poisar mais além

 

 Talvez! – Quem sabe! Tenha o mesmo peso de frustração deste maravilhoso lamento de fatalidade

 

Um pouco mais de sol – eu era brasa

Um pouco mais de azul – eu era além

 

Quem sabe!?...

Mas voltemos à Rua de São Francisco – que foi nosso ponto de partida de hoje.

Voltemos para lembrar que a verdade passada e a presente – fazem juntas a verdade de sempre – a história – a vida da cidade com seus costumes, suas casas, suas praças, seus becos e suas ruas... neste caso a rua de São Francisco que termina na muralha – frente ao sítio onde muitos anos morou um sapateiro que ocupou o lugar que foi da casa de S. Francisco.

 

É um remate feliz para uma rua cheia de história e isso e mais ainda – é como que um aceno de Beleza – criada por Rui Nogueira e Maria do Rosário de Melo e Sousa.

Maria do Rosário foi uma verdadeira apaixonada por ElvasMaria do Rosário lutava, defendia, pugnava por tudo quanto embelezasse, engrandecesse esta sua terra – esta nossa terra. Daí – que de mão dada com Rui Nogueira à sua maneira elegante a tenham marcado com toda a poesia das suas almas fazendo colocar e emoldurar com viçosa hera os belos nichos que acrescentam tanta beleza a dois pedaços de velha muralha.

É como quem assina uma carta inteira dirigida a Elvas confidenciando-lhe: Amo-te!

É de Maria do Rosário que a meu ver foi mais poeta ainda na maneira de ser e estar na vida do que em obra escrita realizada, este soneto que obteve o 1º prémio nos Jogos Florais Luso Espanhóis (S. Mateus 1945)

                          

 Deus é mais Forte

Demora o teu olhar preso no meu

quando o meu corpo, inerte, sobre o leito,

for farrapo inútil e desfeito

que a morte há-de arrastar, como um troféu!

 

Beleza…graça… tudo se perdeu!

Convulsamente …a arfar… o meu pobre peito

regressará ao nada de que é feito,

Pois que “NADA”-  repara! - és tu...sou eu!

 

Aperta a minha mão húmida e fria

nesse supremo instante de agonia…

…e não conseguirás roubar-me à morte!

 

…Não te revoltes! Ajoelha… e reza!

…Aceita o teu destino com firmeza…

...porque Deus, meu amor, é o Mais Forte!!!...

 

Este soneto que agora – á distância – se nos afigura quase profético... deixo-o como uma saudade em sua memória.

E... já vai longa a conversa. Hoje ficamos só quase pela nossa terra! – Gostava que me tivessem escutado. Gostava!

Gostava de vos convencer que poesia não é pieguice, fraqueza de ninguém, doença ou loucura mansa...

Poesia é também uma maneira de estar na vida, a sua maneira – talvez – quando aí na rua das Parreiras, num beco, ou na rua das Beatas enfeita a sua porta criando beleza com o asseio e o apuro do seu poial e das ombreiras caiadas com desvelo mas... disso falaremos doutra vez se Deus quiser...

 

Maria José Rijo

Ponto de Partida - II Emissão

II Emissão

 

 

            Se bem me lembro (como diria Nemésio) eu começara a falar da sua

“ ODE AO MAR “ quando o tempo de que disponho para vender o meu peixe se extinguiu.

                       ODE AO MAR

 

Vejo-me só, de pelo e pele, numa ilha negra.

Meus irmãos homens desertaram

Com os documentos em regra

Nos barcos que me roubaram.

 

Sim, porque eu era o Rei da ilha em questão...

 

Aí nascera.

Lá, uma vaga dera

Uma pancada rara

(A vaga minha madrinha),

Não sei com que força ou vara:

Sei que a pancada vinha

Direita ao meu coração,

Que ainda hoje a reproduz.

 

Minha Mãe deu-me de mamar.

Santo nome de Jesus!

Eu vinha sujo da viagem;

Vinha na ponta da vara

(Que a vaga lá brandiu

Com sua ampla coragem

Em minha Mãe, cara a cara)

Como um bichinho do mar,

Uma coisinha de nada

Que a vaga arrancou, cobriu

E trouxe, a vaga do mar.

 

Nas praias me criei

Dos peixes e das lotas,

Comendo o podre e o fresco,

Ensinado das gaivotas,

Que são o meu parentesco.

 

Aí me criei e recriei;

Aí – conchas, tons, nudezes e mergulhos.

Metiam na pele do Rei

                       

Pedrinhas de sal e porcarias

Para ele levar os meus orgulhos:

E eu – sujo, sujo, todos os dias.

 

Nítido, azul até à exactidão de uns olhos,

Ou verde como uma boca desgostosa,

O mar enchia-me de amor;

Eu descia, directo, a ele que em mim subia,

E tomava-me até aos olhos

E dava-me a sua rosa –

A sua grande rosa de sal e de amor...

 

Amplo, cheio, sufocado,

Vestido de um azul viril que me bebia,

Dentro do mar fui proclamado

Rei, e ali logo embalsamado

Por causa da dúvida que havia.

Ah! Súbditos fiéis que viestes!

Peixes de cor tremendo em círculo e coroando-me!

Sereias levando-me as veias para cabelos!

E o baobá de coral, lá do reino de Orestes,

Puxado pelos Seis Tritões do Cabedelo!

 

Movimento do mar que te coaste por mim!

Sabor do mar que estalaste a tua língua em mim!

Salgadas extensões imperiais que eu herdo!

Gota que atravessaste o Atlântico Norte

Só para luzir no meu mamilo esquerdo!

Aresta e rolo sem impulso

Que tudo isso me atiraste

E que, menino, em mim cresceste e em mim pegaste

Levantando-me a pulso,

Oh mar!

Água súbita, rente e transparente nexo

Urdido por aqueles peixinhos por criar,

Que, vendo-me de papo ao ar, sóbrio em minhas colunas,

Vinham picar-me o sexo!

 

(Oferendas leais, meu mar, delicadas como estas,

Mestre, tinham de ser tuas filhas e alunas).

E assim os madeiros rolados,

Cheios de furos e de festas –

Brutalidades flutuantes,

                       

Utilidades manifestas –

Cobertos de lágrimas e bicos duros

De tetas antigas e funestas

De certas sereias honestas...

E nós impuros! E nós impuros!

 

Mar, amplo como o Aro de ti mesmo,

Estirado como aquele que dá com a nuca no chão,

Alto como o respingo inviolável,

Profundo, doce e arável

Como terra de pão!

 

Mestre de angústia, mar! Como uma pedra no peito

(E só água!);

Mestre de coragem – diante a terra, ali direito!

(E tudo isto, com água!);

Mestre de limpeza – o sujo de todos os vestígios

Que vai, com o peito exposto e de cristal cortado,

Desafiando os prestígios,

Provocando os prodígios

E atirando às vezes por desprezo à terra um afogado!

 

E depois – mar parado... neutro... fosco...

Uma tenaz qualquer, de pedra – e eis a bacia;

Aí está íntimo connosco.

 

Ali é pobre: até se via

O seu espumante andrajo

Na triste pedra em que o batia.

 

Ali o conheço e o viajo,

Eu, Rei da Ilha Negra, o das águas tocadas

O coroado de peixes

Que vêem sobre ele à uma,

E que te pede a ti, Pai Mar, que o deixes

Viver na imitação da tua espuma.

 

 Mas... e o que tem o mar a ver com o Alentejo?

Bem pouco é verdade, visto que só ali para os lados de Sines, Zambujeira, Almograve ou S. Teotónio o espreita...

Mas... este poema – esta força maravilhosa, este conhecimento profundo – doloroso até se bem que extasiado tem muito a ver com o que procuro mostrar. Cada poeta é um interprete da realidade que o cerca, que o constrange e o liberta, que lhe gera como que uma nova dimensão de ser.

 

 Depois de escutar um poema como este, quem tem duvidas de que a voz de Vitorino Nemésio tem a marca das gerações e gerações que já viveram e das que hão-de viver a deslumbrada angustia de ser ilhéu – ser ilhéu açoreano dizia após o terramoto João Bosco Mota Amaral

 

“é saber dormir com a cabeça em cima de vulcões”. É com esta força de atavismo que Vitorino Nemésio – o mestre – o escritor universalista – canta o seu horizonte de berço – o mar

 

Profundo doce e arável

Como terra de pão

Ou em contraste atirando

As vezes, por desespero

Á terra um afogado.

 

É com a mesma força ancestral que Florbela Espanca – no seu jeito sensual e telúrico canta o Alentejo.

Recordamo-la um pouco em Esfinge:

                                  

Sou filha da charneca erma e selvagem:

Os giestais, por entre os rosmaninhos,

Abrindo os olhos de oiro, plos caminhos,

Desta minh’alma ardente são a imagem.

 

E... retorno a Vitorino Nemésio em o “ Bicho Armonioso“ quando diz:

 

Esta vontade de cantar que pulsa no pessegueiro

E cria no poeta o indício de alguns versos

Que antes de serem voz hão-de doer primeiro!

 “ Que antes de serem voz

    Hão-de doer primeiro! “

 

           É essa a chave – é esse o segredo!

 

         Veio-me agora à lembrança um poeta da nossa Elvas – um poeta dos nossos dias, que muitos conhecemos – senão como poeta, pelo menos, como pessoa – Casimiro da Piedade Abreu.

Meio sonhador, meio boémio, meio louco ás vezes – mas com talento, talento que ele talvez tenha malbaratado mas, que estava latente em poemas como este que dedicou a Domingos Lavadinho – e de que citaremos hoje apenas a introdução:

A Rua de São Francisco(do Livro O quarto dos Santinhos:

                            

Eu nasci numa como todas as outras ruas:

com casas, com os decantados vizinhos e

com alguma Poesia.

                             

A Rua de S. Francisco tem qualquer coisa de mágico para quem lhe desce a calçada. Acaba, de súbito, na muralha negra, com uma mancha muito branca nos sopés. Essa “branca” foi casa de São Francisco. Agora, é residência de um sapateiro.

 

            Prometo que para a semana voltaremos à Rua de S. Francisco do Poeta Casimiro Abreu. - Está bem?

            Que eu saiba, ninguém olhou com amor mais amassado em conhecimento para esta rua onde todos paramos – tantas vezes – (no semáforo, quando vermelho) pelo menos...

       Mais ninguém!... Talvez não...

            Quando nos Açores visitei S. Miguel “ Santo nome de Jesus “ (como por lá se diz tanto ao nosso jeito!) – que alegria tive em rever a Mãe deste poeta e de a escutar na lucidez dos seus quase noventa anos falar-me dos seus filhos. Ausências que mareavam de saudade os seus ainda bonitos olhos verdes.

“ Estou sempre a responsar os meus filhos! (confidenciou-me) e, a meu pedido ditou devagarinho para que eu pudesse apontar esta poética e bela oração popular:

 

Eu te responso!

Com as armas de Cristo andes armado!

Com o leite da Virgem andes borrifado!

O sangue de Cristo tragas no teu corpo.

 Não hás-de ser ferido – nem morto!

Nem mal tratado!

Nem mordido de bicho, nem cão danado!

Por caminhos e estradas andarás

Os maus nunca verás

e os bons encontrarás.

Responso-te a Santo António e S. Francisco

e ás cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo

Amém.

 

            Quando nos despedimos eu trazia de cor o seu lindo e belo rosto de pele branca e expressão doce (quase sem rugas) e o sabor a pó de arroz (moda do seu tempo) que também me deixam os beijos de minha mãe e... dentro de mim rodopiavam dois versinhos simples dum poema que Álvaro Abreu (também seu filho) escreveu quando rapaz louvando a cidade de Elvas.

 

 Minha dama doutros tempos

 Minha linda dama antiga!

 

E... as imagens confundiam-se...

 A Senhora D. Joaquina já não mais responsará seus filhos – mas quem ler os livros de Casimiro Abreu aí a reencontra – por exemplo:

                       

Minha Mãe e a sua fé

A fé mais pura que eu vi

Rezavam coisas tão belas

Que lá fora, essas procelas

Se apagam para mim!

 

Que, poesia é sem duvida também, uma dimensão de vida.

Quando regressei de S. Miguel à Terceira li para o poeta “Padre Coelho de Sousa” este responso à porta da sua igreja em dia de “ benção de bodos” – se puder, um dia, hei-de contar o que isto é – Ele pediu-me:

 Dê-me uma cópia. Gostava de falar sobre isto aos meus paroquianos. 

É uma mistura tocante de fé e superstição. (comentou) 

 

Entretanto o tempo passou. Veio o terramoto que poupou a sua igreja de S. Sebastião – de estrutura gótica – mas lhe fez chão raso da casa e lixo dos milhares de livros da sua biblioteca. Não lhe cheguei a dar o responso.

(Talvez lho mande ainda...)

            Responso-o agora daqui para que continue a escrever novos e bons poemas como este:

Primavera

           

 Vi-te correr.

 Passaste.

E nem olhaste quem te olhava

 

Espumas de noivar velavam o teu rosto.

Trazias em promessa um laranjal em flor

Na tua fronte.

 

Rasgavas o horizonte em nuvens cor-de-rosa,

E as tuas mãos

Sonhavam ramalhetes de alecrim

Que me dão deste mundo, nunca, a mim.

                                  

Ah! Primavera! Primavera!

Manhã de Abril …passaste.

Vi-te correr…Abelha num jardim.

E nem olhaste quem te olhava.

Adeus! Adeus até jamais ter fim.

 

E assim se entrelaçam recordações que se encadeiam e são PONTOS DE PARTIDA de umas para outras.

 

Maria José Rijo

 

Ponto de Partida - I Emissão

I Emissão

                   

            Qualquer coisa – um quase nada - é - tantas vezes ponto de partida para um sonho novo, um trabalho diferente, um projecto, uma esperança, um remorso até!

        Qualquer coisa, ou quase nada, é - ás vezes, quantas vezes, ponto de partida para evocar uma paisagem, uma frase, um amigo, um momento vivido - um poema...

         ... Que fale de poesia me pediram.

         Que sei eu de poesia que todos não saibam.

         Não tenho trunfos na manga – não sou mágico - não posso fazer milagres, nem me posso escudar em diplomas que me autorizem a saber seja o que for.

         Mesmo assim, não me escuso.

         Aceito o “Ponto de partida”.

.

             Nada – nadinha mesmo - sabia de Poesia, a velha Carolina e, quando numa noite quente de fins de Abril o perfume das glicínias inundava o meu quarto - ela - que descansava o corpo moído de pobrezas e fadigas duma vida inteira - sentada no tapete como bicho fiel - ela, que só podia recordar abandonos, canseiras de apanhos de azeitonas, de mondas  e de ceifas, tarefas humildes e penosas, raivas e desesperos - ela que de alegrias - a que mais lembrava era nunca lhe ter faltado trabalho para matar o corpo, (como confessava). Com os seus pequenos e espertos olhos azuis semicerrados de gozo murmurou na sua voz cantada - sorvendo o ar com avidez beata:

    “ Há-de ser por isso que chamam-lhe ” delicinia” nã é Senhora?”

    E, perante o meu silêncio comovido e atento – concluiu:

    “ mêmo p’rós  pobres cum`a  mim viver é bonito!”

         Sem rima – sem métrica – sem preocupações de correcções morfológicas ou sintácticas. Só por um nada – uma coisa vulgar – sem importância.

        Será que não tem importância?!

        Só pelo aroma duma glicínia em flor - da boca desdentada duma velha, curtida pelo trabalho - como da boca duma criança que nada se sabe e tudo pode esperar - um poema de amor à vida.

        Chamava-se Carolina Malheiros, era analfabeta, nascera em Alter e repousa no cemitério de Elvas.

       É pois com um instintivo amor à vida – como o dela, com a mesma coragem de quem não sabe – mas sente - que faço desta bela  recordação que evoco em  sua memória o meu Ponto de Partida para falar de poesia.

       De resto – versos são como música - ficam-nos no ouvido aqueles que nos deleitam!

Não sei a quem atribuir a paternidade deste pensamento – nem sequer sei, também, quem foi o autor da bela quadra popular que retenho na memória:

 

Uma quadra é conseguir

Em quatro versos somente

Dizer o nosso sentir

No sentir de toda a gente

 

          Ficou-me no ouvido – como a outros fica a nota alegre dum assobio, o refrão da cantiga que alguém trauteou à sua beira, o choro da criança que se escutou por detrás  da porta fechada, um olhar de namorado... Um sorriso.

            Coisas pequenas – pequenos nadas que tocam a nossa sensibilidade e a afagam, a ferem, a despertam e se agarram a nós como versos soltos dum poema. Tudo quanto nos cerca, aliás, mais ou menos faz parte de nós. Fica em nós.

            Comigo até é engraçado. Sobressalto-me de dia e acordo de noite se o relógio pára, de tal modo o seu pulsar faz parte do meu ambiente. E, todos - elvenses pelo nascimento ou pelo coração, quantos pequenos nadas do dia a dia da nossa cidade temos  amalgamados em nós? Senão vejamos:

         Quantos não sentimos ainda um arrepio de mal-estar ao olhar a Igreja do Senhor Jesus da Piedade privada da companhia dos plátanos que roçavam os sinos e certamente molhavam raízes na pia de água benta. (não me canso de o pensar!)

 

 É tudo como a saúde – sabe-se quanto vale quando se perde!

 

      ... E, se de repente nos faltassem as glicínias debruadas em lilás, na alvorada da Primavera - por tudo quanto resta ainda de muro de horta, portais de quintal ou varanda antiga.

      E... se se apagasse o florir quase incandescente das velhas olaias do jardim por esse tempo?

      No entanto quantos de nós olhamos de verdade, defendemos de verdade as nossas árvores de cada dia - as árvores da nossa terra? E, elas aí estão - florindo para nós, respirando para nós - dando sombra para nós- inteiramente confiadas à nossa responsabilidade, ao nosso amor.

      Ao desrespeito - aos maus tratos tantas vezes - quando os românticos de pacotilha ou os inconscientes, de canivete em punho lhes esfaqueiam os troncos para gravar datas inúteis, corações, atentando contra as suas vidas como os fadistas de viela no Bairro Alto faziam às amantes dementados pelo vinho no tempo da Severa. Irracionalmente!

 

      E, não me perguntem o que tem isto a ver com poesia.

      Por muito pouca importância que se ligue à Poesia, ninguém desconhece o muito que a Poesia se liga à vida.

       Chamo aqui à lembrança de todos a presença de Florbela Espanca que nos diz em soneto:

 

 

          São mortos os que nunca acreditaram

          Que esta vida é somente uma passagem,

          Um atalho sombrio, uma paisagem

          Onde os nossos sentidos se poisaram.

 

          São mortos os que nunca alevantaram

          De entre escombros a Torre de Menagem

          Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,

         E os que não riram, e os que não choraram.

         Que Deus faça de mim, quando eu morrer,

         Quando eu partir para o País da Luz,

         A sombra calma de um entardecer,

 

         Tombando em doces pregas de mortalha,

         Sobre o teu corpo heróico posto em cruz,

         Na solidão dum campo de batalha!

        

        Penso que só uma Alentejana – um poeta do Alentejo podia captar esta força e ao mesmo tempo encontrar esta suavidade que a faz escrever: a sombra calma dum entardecer tombando em doces pregas de mortalha...

 

         Da mesma matriz é filha a inspiração que a fez fixar em árvores do Alentejo.

 

                  A planície é um brasido… e, torturadas,

                      As árvores sangrentas, revoltadas,

                      Gritam a Deus a benção duma fonte!

                   

             Só quem soube viver com toda a força da sua alma a impiedade do nosso Verão ao ponto de sentir terra abrasada se assume depois como tarde que entorna sobre a paisagem este olhar de misericórdia que concede a paz e o descanso a sombra calma do entardecer tombando em doces pregas de mortalha.

Só quem soube viver com toda a força da sua alma a impiedade do nosso verão, ao ponto de se sentir terra abrasada - se assume depois como tarde que entorna sobre a paisagem este olhar de misericórdia que concede a paz e o descanso:

E a sombra calma do entardecer quando António Sardinha o poeta Alentejano de Monforte

              Escreveu na sua:

 

      

Vesperal

 Se eu te pintasse, posta na tardinha,

 Pintava-te num fundo cor de olaia,

 -Na mão suspensa, nessa mão que é minha,

 O lenço fino acompanhando a saia!

                       

 Vejo-te assim, ó asa de andorinha,

 Em ar de infanta que perdeu a aia,

 Envolta numa luz que te acarinha,

 -Na luz que desfalece e que desmaia!

                       

 Com teu encanto os dias me adamasques,

 Linda menina ingénua de Velasquez

 A flutuar num mar de seda e renda.

                       

 Deixa cair dos lábios de medronho

 A perfumada voz do nosso sonho,

 Mas tão baixinho que só eu entenda!

 

           Não se vê, não se palpa que foi através do Amor que dedicava a Elvas, sua terra de eleição – que foi através da vivência íntima do homem sensível, do escritor atento que era com tudo quanto o cercava, e nos cerca que esse poema pode acontecer?

            Julgo poder afirmar que foi respirando o perfume das glicínias e dos lilases da sua Quinta do Bispo “ que foi a refrescar-se à sombra da Nora alta ou do majestoso plátano, que toda Elvas conhece...

          Que foi sentindo como é gostosa a cor das olaias em flor...

            Que foi tendo o próprio sangue carregado de tudo isto que é parte da nossa vida e é Elvas de parte inteira e – só assim – que lhe aconteceu falar do enlevo que sentira por sua mulher – como sendo ela parte deste todo – a cidade – a paisagem ambiente – a sua luz e, nela enquadrar o delicado encanto que a sua mulher o prendia como se de tudo ela própria fosse encarnação e fruto.

            Afinal – como Florbela (do nosso Alentejo) – também ele falou do sentir de toda a gente da nossa Elvas através do seu sentir.

            E, não me venham dizer que são coisas minhas...

Lá dos Açores de onde há pouco regressei os poetas falam de mar, de gaivotas, de búzios de praias...

            É essa a realidade que os perpassa.

 

             Almeida Firmino – açoriano de raiz já em 76 (in Tailandia) na sua “ilha sem voz” escrevia a certo passo:

                                   Vamos levantar os muros

                                          Que os sismos derrubaram

                                          E silenciar o desespero

                                          Dos camponeses que ficaram.

 

Luísa Mesquita(in Mar Incerto) – 1977, dizia assim:

 

Tudo em mim são espumas, ilha e areias negras,

sargaços e redes estendidas secando ao sol…                            

Tudo em mim são conchas e marés vivas,

salgueiros chorando vergados à beira do mar…

                       

Tudo em mim são ressacas e vagas altas,

canaviais na costa e barcos no porto…

                       

Tudo em mim são reflexos de luz nas águas,

vento largo levantando marolas na rocha…

 

tudo em mim são ancoras, cordas e velas,

mastros, navios saindo  e barqueiros remando...

 

Tudo em mim são flores do mar, peixes e ondas,

corais, grutas, recifes, naufrágios e mar...

 

Tudo em mim são sereias cavalos marinhos e búzios,

brisas frescas, atirando sal nas tuas vidraças...

 

nascida do fundo do mar, ao mar voltarei…

E lá nos longes do da eternidade

tudo em mim será, como agora, mar e mar…

           

Não me venham agora negar esta evidência...

Pois que até Nemésio – já longe dos Açores e enfronhado de todo na vida do Continente mergulhava

nas suas raízes ao escrever poesia e a água do mar escorria-lhe pela mão espargindo os seus versos...

veja-se:

 ODE  AO MAR --- que começa assim:

 

 Vejo-me só, de pêlo e pele, numa ilha negra.

 Meus irmãos homens desertaram

 Com os documentos em regra

 Narcos que me roubaram.

                       

 Sim, porque eu era o Rei da ilha em questão...

 

 Aí nascera.

 Lá, uma vaga dera

 Uma pancada rara

 (A vaga minha madrinha),

  Não sei com que força ou vara:

 Sei que a pancada vinha

 Direita ao meu coração,

 Que ainda hoje a reproduz.

 

  Outro dia que calhe havemos de voltar aos Açores, havemos de ler este poema todo e será daí

o nosso Ponto de Partida...

                       

     Maria José Rijo

Ponto de Partida - 2

 

Índice

Programa de Poesia

…Ponto de Partida…

 

Autores consultados

 

        Emissão – 1

                -- Florbela Espanca

                -- António Sardinha

                -- Almeida Firmino

                -- Luísa Mesquita

                -- Vitorino Nemésio

 

        Emissão – 2

                -- Vitorino Nemésio

                -- João Bosco Mota Amaral

                -- Florbela Espanca

                -- Casimiro da Piedade Abreu

                -- Álvaro Abreu

                -- Padre Coelho de Sousa

 

Emissão – 3

                -- Casimiro da Piedade Abreu

                -- Eurico Gama

                -- Mário de Sá Carneiro

                -- Maria do Rosário de Melo e Sousa

                -- Rui Nogueira

 

        Emissão – 4

                -- Eurico Gama

                -- Florbela Espanca

                -- S. Francisco de Assis

                -- a Lenda da Idalina

                -- D. Silvana

                -- Sebastião da Gama

 

        Emissão – 5

                -- Quadras populares

                -- Sebastião da Gama

                -- Balada da Infância

 

        Emissão – 6

                -- Conde de Monsaraz

               

        Emissão – 7

                -- José Duro

                -- José Régio

 

Emissão - 8

                -- Francisco Bugalho

                -- Armindo Rodrigues

 

        Emissão - 9

                -- Bernardim Ribeiro

                -- Cristóvão Falcão

                -- Garcia de Resende

                -- Camões

 

        Emissão - 10

                -- António Sardinha

                -- Almada Negreiros

                -- Henri Matisse

                -- Rilke

 

 

        Programa de Poesia – Ponto de Partida

    -- Emissor de Elvas

      Autora – Maria José Rijo

      Ano – 1992

.

 

V - Aniversario do Blog

.

 

.

PAGINA DE DIÁRIO  VI

..

Este blog, que a minha querida Paulinha criou, completa hoje cinco anos.

Ora acontece que logo ao fazer-lhe a minha primeira visita, vi, com surpresa e agrado que, por acaso, isso acontecera na data, sempre presente da partida para outra dimensão de um poeta cuja obra conheci através de dois grandes amigos, seus e meus, também escritores de nome - Matilde Rosa Araújo( com o seu Palhacinho Verde entre as cem obras portuguesas do séculoXX) e, João Falcato autor de Fogo no Mar – reportagem da tragédia que viveu a bordo do paquete Melo - que serviu de tema à tese de doutoramento de Matilde e, que, espero, ainda venha a ser reconhecido como importante contributo  na literatura neo-realista

Mas…cada opinião vale o que vale e a minha é apenas motivo desta conversa.

Ora, pretendia eu explicar que, dadas estas circunstâncias, me pareceu justo e oportuno celebrar a efeméride homenageando, o que nunca por demais será feito, a memória de: Sebastião da Gama.

Já agora, a talho de foice, conto que a última carta que recebi de Joana Luísa, sua viúva, traz no canto esquerdo do envelope, no remetente a seguir ao seu nome um parêntese que diz: - “com saudades do Alentejo” e, só depois a direcção, que já não é: Largo do Espírito Santo 2,2º

(Da nossa casa o Alentejo é verde

É atirar os olhos: são searas,

São olivais, são hortas…)

Foi de Estremoz, onde escreveu:” Encarcerar a Asa “-

(“E vá de não perceber que o fato preto do grilo já é outro, já não é o seu fato de trazer: o grilo agora está de preto, porque está de luto. De luto por si mesmo” - que Sebastião saiu para não voltar.

Este texto tem a data de 25/1/52 – a outra é 7/2/52

 

Um abraço grato - Maria José

 

 

 

 

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