Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Ponto de Partida - I Emissão
I Emissão
Qualquer coisa – um quase nada - é - tantas vezes ponto de partida para um sonho novo, um trabalho diferente, um projecto, uma esperança, um remorso até!
Qualquer coisa, ou quase nada, é - ás vezes, quantas vezes, ponto de partida para evocar uma paisagem, uma frase, um amigo, um momento vivido - um poema...
... Que fale de poesia me pediram.
Que sei eu de poesia que todos não saibam.
Não tenho trunfos na manga – não sou mágico - não posso fazer milagres, nem me posso escudar em diplomas que me autorizem a saber seja o que for.
Mesmo assim, não me escuso.
Aceito o “Ponto de partida”.
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Nada – nadinha mesmo - sabia de Poesia, a velha Carolina e, quando numa noite quente de fins de Abril o perfume das glicínias inundava o meu quarto - ela - que descansava o corpo moído de pobrezas e fadigas duma vida inteira - sentada no tapete como bicho fiel - ela, que só podia recordar abandonos, canseiras de apanhos de azeitonas, de mondas e de ceifas, tarefas humildes e penosas, raivas e desesperos - ela que de alegrias - a que mais lembrava era nunca lhe ter faltado trabalho para matar o corpo, (como confessava). Com os seus pequenos e espertos olhos azuis semicerrados de gozo murmurou na sua voz cantada - sorvendo o ar com avidez beata:
“ Há-de ser por isso que chamam-lhe ” delicinia” nã é Senhora?”
E, perante o meu silêncio comovido e atento – concluiu:
“ mêmo p’rós pobres cum`a mim viver é bonito!”
Sem rima – sem métrica – sem preocupações de correcções morfológicas ou sintácticas. Só por um nada – uma coisa vulgar – sem importância.
Será que não tem importância?!
Só pelo aroma duma glicínia em flor - da boca desdentada duma velha, curtida pelo trabalho - como da boca duma criança que nada se sabe e tudo pode esperar - um poema de amor à vida.
Chamava-se Carolina Malheiros, era analfabeta, nascera em Alter e repousa no cemitério de Elvas.
É pois com um instintivo amor à vida – como o dela, com a mesma coragem de quem não sabe – mas sente - que faço desta bela recordação que evoco em sua memória o meu Ponto de Partida para falar de poesia.
De resto – versos são como música - ficam-nos no ouvido aqueles que nos deleitam!
Não sei a quem atribuir a paternidade deste pensamento – nem sequer sei, também, quem foi o autor da bela quadra popular que retenho na memória:
Uma quadra é conseguir
Em quatro versos somente
Dizer o nosso sentir
No sentir de toda a gente
Ficou-me no ouvido – como a outros fica a nota alegre dum assobio, o refrão da cantiga que alguém trauteou à sua beira, o choro da criança que se escutou por detrás da porta fechada, um olhar de namorado... Um sorriso.
Coisas pequenas – pequenos nadas que tocam a nossa sensibilidade e a afagam, a ferem, a despertam e se agarram a nós como versos soltos dum poema. Tudo quanto nos cerca, aliás, mais ou menos faz parte de nós. Fica em nós.
Comigo até é engraçado. Sobressalto-me de dia e acordo de noite se o relógio pára, de tal modo o seu pulsar faz parte do meu ambiente. E, todos - elvenses pelo nascimento ou pelo coração, quantos pequenos nadas do dia a dia da nossa cidade temos amalgamados em nós? Senão vejamos:
Quantos não sentimos ainda um arrepio de mal-estar ao olhar a Igreja do Senhor Jesus da Piedade privada da companhia dos plátanos que roçavam os sinos e certamente molhavam raízes na pia de água benta. (não me canso de o pensar!)
É tudo como a saúde – sabe-se quanto vale quando se perde!
... E, se de repente nos faltassem as glicínias debruadas em lilás, na alvorada da Primavera - por tudo quanto resta ainda de muro de horta, portais de quintal ou varanda antiga.
E... se se apagasse o florir quase incandescente das velhas olaias do jardim por esse tempo?
No entanto quantos de nós olhamos de verdade, defendemos de verdade as nossas árvores de cada dia - as árvores da nossa terra? E, elas aí estão - florindo para nós, respirando para nós - dando sombra para nós- inteiramente confiadas à nossa responsabilidade, ao nosso amor.
Ao desrespeito - aos maus tratos tantas vezes - quando os românticos de pacotilha ou os inconscientes, de canivete em punho lhes esfaqueiam os troncos para gravar datas inúteis, corações, atentando contra as suas vidas como os fadistas de viela no Bairro Alto faziam às amantes dementados pelo vinho no tempo da Severa. Irracionalmente!
E, não me perguntem o que tem isto a ver com poesia.
Por muito pouca importância que se ligue à Poesia, ninguém desconhece o muito que a Poesia se liga à vida.
Chamo aqui à lembrança de todos a presença de Florbela Espanca que nos diz em soneto:

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é somente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se poisaram.
São mortos os que nunca alevantaram
De entre escombros a Torre de Menagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram, e os que não choraram.
Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o País da Luz,
A sombra calma de um entardecer,
Tombando em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico posto em cruz,
Na solidão dum campo de batalha!
Penso que só uma Alentejana – um poeta do Alentejo podia captar esta força e ao mesmo tempo encontrar esta suavidade que a faz escrever: a sombra calma dum entardecer tombando em doces pregas de mortalha...
Da mesma matriz é filha a inspiração que a fez fixar em árvores do Alentejo.
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

Só quem soube viver com toda a força da sua alma a impiedade do nosso Verão ao ponto de sentir terra abrasada se assume depois como tarde que entorna sobre a paisagem este olhar de misericórdia que concede a paz e o descanso a sombra calma do entardecer tombando em doces pregas de mortalha.
Só quem soube viver com toda a força da sua alma a impiedade do nosso verão, ao ponto de se sentir terra abrasada - se assume depois como tarde que entorna sobre a paisagem este olhar de misericórdia que concede a paz e o descanso:
E a sombra calma do entardecer quando António Sardinha o poeta Alentejano de Monforte
Escreveu na sua:
Vesperal
Se eu te pintasse, posta na tardinha,
Pintava-te num fundo cor de olaia,
-Na mão suspensa, nessa mão que é minha,
O lenço fino acompanhando a saia!
Vejo-te assim, ó asa de andorinha,
Em ar de infanta que perdeu a aia,
Envolta numa luz que te acarinha,
-Na luz que desfalece e que desmaia!
Com teu encanto os dias me adamasques,
Linda menina ingénua de Velasquez
A flutuar num mar de seda e renda.
Deixa cair dos lábios de medronho
A perfumada voz do nosso sonho,
Mas tão baixinho que só eu entenda!
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Não se vê, não se palpa que foi através do Amor que dedicava a Elvas, sua terra de eleição – que foi através da vivência íntima do homem sensível, do escritor atento que era com tudo quanto o cercava, e nos cerca que esse poema pode acontecer?
Julgo poder afirmar que foi respirando o perfume das glicínias e dos lilases da sua Quinta do Bispo “ que foi a refrescar-se à sombra da Nora alta ou do majestoso plátano, que toda Elvas conhece...
Que foi sentindo como é gostosa a cor das olaias em flor...
Que foi tendo o próprio sangue carregado de tudo isto que é parte da nossa vida e é Elvas de parte inteira e – só assim – que lhe aconteceu falar do enlevo que sentira por sua mulher – como sendo ela parte deste todo – a cidade – a paisagem ambiente – a sua luz e, nela enquadrar o delicado encanto que a sua mulher o prendia como se de tudo ela própria fosse encarnação e fruto.
Afinal – como Florbela (do nosso Alentejo) – também ele falou do sentir de toda a gente da nossa Elvas através do seu sentir.
E, não me venham dizer que são coisas minhas...
Lá dos Açores de onde há pouco regressei os poetas falam de mar, de gaivotas, de búzios de praias...
É essa a realidade que os perpassa.

Almeida Firmino – açoriano de raiz já em 76 (in Tailandia) na sua “ilha sem voz” escrevia a certo passo:
Vamos levantar os muros
Que os sismos derrubaram
E silenciar o desespero
Dos camponeses que ficaram.
Luísa Mesquita(in Mar Incerto) – 1977, dizia assim:
Tudo em mim são espumas, ilha e areias negras,
sargaços e redes estendidas secando ao sol…
Tudo em mim são conchas e marés vivas,
salgueiros chorando vergados à beira do mar…
Tudo em mim são ressacas e vagas altas,
canaviais na costa e barcos no porto…
Tudo em mim são reflexos de luz nas águas,
vento largo levantando marolas na rocha…
tudo em mim são ancoras, cordas e velas,
mastros, navios saindo e barqueiros remando...
Tudo em mim são flores do mar, peixes e ondas,
corais, grutas, recifes, naufrágios e mar...
Tudo em mim são sereias cavalos marinhos e búzios,
brisas frescas, atirando sal nas tuas vidraças...
nascida do fundo do mar, ao mar voltarei…
E lá nos longes do da eternidade
tudo em mim será, como agora, mar e mar…
Não me venham agora negar esta evidência...
Pois que até Nemésio – já longe dos Açores e enfronhado de todo na vida do Continente mergulhava
nas suas raízes ao escrever poesia e a água do mar escorria-lhe pela mão espargindo os seus versos...
veja-se:
ODE AO MAR --- que começa assim:
Vejo-me só, de pêlo e pele, numa ilha negra.
Meus irmãos homens desertaram
Com os documentos em regra
Narcos que me roubaram.
Sim, porque eu era o Rei da ilha em questão...
Aí nascera.
Lá, uma vaga dera
Uma pancada rara
(A vaga minha madrinha),
Não sei com que força ou vara:
Sei que a pancada vinha
Direita ao meu coração,
Que ainda hoje a reproduz.
Outro dia que calhe havemos de voltar aos Açores, havemos de ler este poema todo e será daí
o nosso Ponto de Partida...
Maria José Rijo

