Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Ponto de Partida - II Emissão
II Emissão
Se bem me lembro (como diria Nemésio) eu começara a falar da sua
“ ODE AO MAR “ quando o tempo de que disponho para vender o meu peixe se extinguiu.
ODE AO MAR

Vejo-me só, de pelo e pele, numa ilha negra.
Meus irmãos homens desertaram
Com os documentos em regra
Nos barcos que me roubaram.
Sim, porque eu era o Rei da ilha em questão...
Aí nascera.
Lá, uma vaga dera
Uma pancada rara
(A vaga minha madrinha),
Não sei com que força ou vara:
Sei que a pancada vinha
Direita ao meu coração,
Que ainda hoje a reproduz.

Minha Mãe deu-me de mamar.
Santo nome de Jesus!
Eu vinha sujo da viagem;
Vinha na ponta da vara
(Que a vaga lá brandiu
Com sua ampla coragem
Em minha Mãe, cara a cara)
Como um bichinho do mar,
Uma coisinha de nada
Que a vaga arrancou, cobriu
E trouxe, a vaga do mar.
Nas praias me criei
Dos peixes e das lotas,
Comendo o podre e o fresco,
Ensinado das gaivotas,
Que são o meu parentesco.
Aí me criei e recriei;
Aí – conchas, tons, nudezes e mergulhos.
Metiam na pele do Rei
Pedrinhas de sal e porcarias
Para ele levar os meus orgulhos:
E eu – sujo, sujo, todos os dias.
Nítido, azul até à exactidão de uns olhos,
Ou verde como uma boca desgostosa,
O mar enchia-me de amor;
Eu descia, directo, a ele que em mim subia,
E tomava-me até aos olhos
E dava-me a sua rosa –
A sua grande rosa de sal e de amor...

Amplo, cheio, sufocado,
Vestido de um azul viril que me bebia,
Dentro do mar fui proclamado
Rei, e ali logo embalsamado
Por causa da dúvida que havia.
Ah! Súbditos fiéis que viestes!
Peixes de cor tremendo em círculo e coroando-me!
Sereias levando-me as veias para cabelos!
E o baobá de coral, lá do reino de Orestes,
Puxado pelos Seis Tritões do Cabedelo!
Movimento do mar que te coaste por mim!
Sabor do mar que estalaste a tua língua em mim!
Salgadas extensões imperiais que eu herdo!
Gota que atravessaste o Atlântico Norte
Só para luzir no meu mamilo esquerdo!
Aresta e rolo sem impulso
Que tudo isso me atiraste
E que, menino, em mim cresceste e em mim pegaste
Levantando-me a pulso,
Oh mar!
Água súbita, rente e transparente nexo
Urdido por aqueles peixinhos por criar,
Que, vendo-me de papo ao ar, sóbrio em minhas colunas,
Vinham picar-me o sexo!

(Oferendas leais, meu mar, delicadas como estas,
Mestre, tinham de ser tuas filhas e alunas).
E assim os madeiros rolados,
Cheios de furos e de festas –
Brutalidades flutuantes,
Utilidades manifestas –
Cobertos de lágrimas e bicos duros
De tetas antigas e funestas
De certas sereias honestas...
E nós impuros! E nós impuros!
Mar, amplo como o Aro de ti mesmo,
Estirado como aquele que dá com a nuca no chão,
Alto como o respingo inviolável,
Profundo, doce e arável
Como terra de pão!

Mestre de angústia, mar! Como uma pedra no peito
(E só água!);
Mestre de coragem – diante a terra, ali direito!
(E tudo isto, com água!);
Mestre de limpeza – o sujo de todos os vestígios
Que vai, com o peito exposto e de cristal cortado,
Desafiando os prestígios,
Provocando os prodígios
E atirando às vezes por desprezo à terra um afogado!
E depois – mar parado... neutro... fosco...
Uma tenaz qualquer, de pedra – e eis a bacia;
Aí está íntimo connosco.
Ali é pobre: até se via
O seu espumante andrajo
Na triste pedra em que o batia.
Ali o conheço e o viajo,
Eu, Rei da Ilha Negra, o das águas tocadas
O coroado de peixes
Que vêem sobre ele à uma,
E que te pede a ti, Pai Mar, que o deixes
Viver na imitação da tua espuma.

Mas... e o que tem o mar a ver com o Alentejo?
Bem pouco é verdade, visto que só ali para os lados de Sines, Zambujeira, Almograve ou S. Teotónio o espreita...
Mas... este poema – esta força maravilhosa, este conhecimento profundo – doloroso até se bem que extasiado tem muito a ver com o que procuro mostrar. Cada poeta é um interprete da realidade que o cerca, que o constrange e o liberta, que lhe gera como que uma nova dimensão de ser.
Depois de escutar um poema como este, quem tem duvidas de que a voz de Vitorino Nemésio tem a marca das gerações e gerações que já viveram e das que hão-de viver a deslumbrada angustia de ser ilhéu – ser ilhéu açoreano dizia após o terramoto João Bosco Mota Amaral – 
“é saber dormir com a cabeça em cima de vulcões”. É com esta força de atavismo que Vitorino Nemésio – o mestre – o escritor universalista – canta o seu horizonte de berço – o mar
Profundo doce e arável
Como terra de pão
Ou em contraste atirando
As vezes, por desespero
Á terra um afogado.
É com a mesma força ancestral que Florbela Espanca – no seu jeito sensual e telúrico canta o Alentejo.
Recordamo-la um pouco em Esfinge:
Sou filha da charneca erma e selvagem:
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos de oiro, plos caminhos,
Desta minh’alma ardente são a imagem.
E... retorno a Vitorino Nemésio em o “ Bicho Armonioso“ quando diz:
Esta vontade de cantar que pulsa no pessegueiro
E cria no poeta o indício de alguns versos
Que antes de serem voz hão-de doer primeiro!
“ Que antes de serem voz
Hão-de doer primeiro! “
É essa a chave – é esse o segredo!
Veio-me agora à lembrança um poeta da nossa Elvas – um poeta dos nossos dias, que muitos conhecemos – senão como poeta, pelo menos, como pessoa – Casimiro da Piedade Abreu.

Meio sonhador, meio boémio, meio louco ás vezes – mas com talento, talento que ele talvez tenha malbaratado mas, que estava latente em poemas como este que dedicou a Domingos Lavadinho – e de que citaremos hoje apenas a introdução:
A Rua de São Francisco – (do Livro O quarto dos Santinhos:
Eu nasci numa como todas as outras ruas:
com casas, com os decantados vizinhos e
com alguma Poesia.
A Rua de S. Francisco tem qualquer coisa de mágico para quem lhe desce a calçada. Acaba, de súbito, na muralha negra, com uma mancha muito branca nos sopés. Essa “branca” foi casa de São Francisco. Agora, é residência de um sapateiro.
Prometo que para a semana voltaremos à Rua de S. Francisco do Poeta Casimiro Abreu. - Está bem?
Que eu saiba, ninguém olhou com amor mais amassado em conhecimento para esta rua onde todos paramos – tantas vezes – (no semáforo, quando vermelho) pelo menos...
Mais ninguém!... Talvez não...
Quando nos Açores visitei S. Miguel “ Santo nome de Jesus “ (como por lá se diz tanto ao nosso jeito!) – que alegria tive em rever a Mãe deste poeta e de a escutar na lucidez dos seus quase noventa anos falar-me dos seus filhos. Ausências que mareavam de saudade os seus ainda bonitos olhos verdes.
“ Estou sempre a responsar os meus filhos! (confidenciou-me) e, a meu pedido ditou devagarinho para que eu pudesse apontar esta poética e bela oração popular:
Eu te responso!
Com as armas de Cristo andes armado!
Com o leite da Virgem andes borrifado!
O sangue de Cristo tragas no teu corpo.
Não hás-de ser ferido – nem morto!
Nem mal tratado!
Nem mordido de bicho, nem cão danado!
Por caminhos e estradas andarás
Os maus nunca verás
e os bons encontrarás.
Responso-te a Santo António e S. Francisco
e ás cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo
Amém.
Quando nos despedimos eu trazia de cor o seu lindo e belo rosto de pele branca e expressão doce (quase sem rugas) e o sabor a pó de arroz (moda do seu tempo) que também me deixam os beijos de minha mãe e... dentro de mim rodopiavam dois versinhos simples dum poema que Álvaro Abreu (também seu filho) escreveu quando rapaz louvando a cidade de Elvas.
Minha dama doutros tempos
Minha linda dama antiga!
E... as imagens confundiam-se...
A Senhora D. Joaquina já não mais responsará seus filhos – mas quem ler os livros de Casimiro Abreu aí a reencontra – por exemplo:
Minha Mãe e a sua fé
A fé mais pura que eu vi
Rezavam coisas tão belas
Que lá fora, essas procelas
Se apagam para mim!

Que, poesia é sem duvida também, uma dimensão de vida.
Quando regressei de S. Miguel à Terceira li para o poeta “Padre Coelho de Sousa” este responso à porta da sua igreja em dia de “ benção de bodos” – se puder, um dia, hei-de contar o que isto é – Ele pediu-me:
Dê-me uma cópia. Gostava de falar sobre isto aos meus paroquianos.
É uma mistura tocante de fé e superstição. (comentou)
Entretanto o tempo passou. Veio o terramoto que poupou a sua igreja de S. Sebastião – de estrutura gótica – mas lhe fez chão raso da casa e lixo dos milhares de livros da sua biblioteca. Não lhe cheguei a dar o responso.
(Talvez lho mande ainda...)
Responso-o agora daqui para que continue a escrever novos e bons poemas como este:
Primavera
Vi-te correr.
Passaste.
E nem olhaste quem te olhava
Espumas de noivar velavam o teu rosto.
Trazias em promessa um laranjal em flor
Na tua fronte.
Rasgavas o horizonte em nuvens cor-de-rosa,
E as tuas mãos
Sonhavam ramalhetes de alecrim
Que me dão deste mundo, nunca, a mim.
Ah! Primavera! Primavera!
Manhã de Abril …passaste.
Vi-te correr…Abelha num jardim.
E nem olhaste quem te olhava.
Adeus! Adeus até jamais ter fim.
E assim se entrelaçam recordações que se encadeiam e são PONTOS DE PARTIDA de umas para outras.

Maria José Rijo

