Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Ponto de Partida - III Emissão
III Emissão Ponto de Partida

Aqui estou de novo e, desta vez, para vos fazer um convite.
Venham!
Venham comigo à rua de S. Francisco mas... através da sensibilidade, da palavra – da poesia de Casimiro da Piedade Abreu.

RUA DE SÃO FRANCISCO
Eu nasci numa rua, como todas as outras ruas
com casas, com os decantados vizinhos e com
alguma poesia.
A rua de S. Francisco tem qualquer coisa
de mágico para quem lhe desce a calçada.
Acaba, de súbito, na muralha negra, com uma
mancha muito branca no sopé.
Essa “branca” foi casa de São Francisco. Agora,
é residência de um sapateiro.
À porta escalavrada lembra as invernias que
lhe lamberam o novo. Um cenário deveras
interessante !
Os “A la Minute” escolhem-na para fundo das
suas poses. Soldados do quartel vizinho,
encostam-se nele e deixam-se fotografar.
A rapaziada refugia-se no fundo da rua.
Ali seus divertimentos são mais extensos...
Passado um pequeno arco, à direita do
sapateiro, entra-se num pateozinho com
um urinol fedorento a um canto e uma
poterna na muralha a deitar para um jardim.
Ali, joga-se a bola.
Nos dias de grande movimento, quando há
feira lá fora, ou domingo no jardim, o
jogo é rasteiro e sem força.
Pela rua vai, então, o clamor da ciganada.
Entram e saem. As padarias vendem o trigo
amassado. Os dinheiros trocam-se e o olhar
come o pão que os dentes só, mais logo,
mastigam.
Ainda muito antes que o sol desponte, na
minha velha rua de S. Francisco acotovelam-se
os pensamentos mal despertos. Sonham-se os
ditos. Há luta no pátio situado para além do
arco que está no fim da rua, à esquerda.
A bola cai no urinol: há que a pôr a secar!
O sapateiro abre a porta escalavrada da sua
loja. Olha a freguesia do pé descalço.
Vai à banca. Sai um cigano com pão da
primeira fornada. Tem fome nos olhos.
Miúdos começam a ensaiar o “estender
lamentos” ; são ciganos espanhóis e nacionais;
misérias vizinhas e de longes terras ...
Em São Francisco...
Ciganos sobem a rua,
Trazem jornadas nos olhos...
Entoam canções fantasmas
Que entram, por nós, aos baldões...
E ouve-se: -- São portugueses?
Malandros! Gente Perdida!...
Nossos irmãos espanhóis?
Canalhas!... A mesma cantiga
Sobem a rua a correr
Ou saem das padarias
Onde o pão esteve a nascer.
É tanta a fome nos olhos
Dessas misérias vizinhas!...
... Na rua de São Francisco
Calam-se as alegrias;
Bulem, antes, agonias,
Rezas a aparecerem sinais.
E a legião das feiras
Cruza a calçada ardente
(O mundo está pendente
duma tenda e dum suspiro,
Em cenário de lenda, caiado,
No sopé duma muralha
Dum burgo abandonado...
... Onde ciganos e lendas
armaram as suas tendas!
... Onde morre, em cada beco,
um eco estrangulado
E um sabor a pecado
Fica, nos lábios, colado.
Riem-se as velhas calçadas
dos queixumes das mulheres.
Ladeiras correm encostas
sem ninguém o perceber ...
Muralhas fazem cinturas
E o ar fica de fora...
--- Uma lenda em cada pedra;
Um sonho em cada enxerga
Um romance; uma saudade;
Uma canção; uma reza!)
Eu sei que essa legião
Luta à conquista do pão.
Oiço pragas e adivinho
Casas a venderem vinho.
Canções correm telhados
Até que os ecos, cansados,
Perdem a voz e recolhem
A alma que os sonhou...
Bamboleiam-se ciganas;
Corpos tisnados ao léu,
Lá nessa tenda do céu!
Ciganos trazem jornadas
Nos seus corpos escorridos,
Cajados firmes nas mãos
Superstições nos sentidos
E o Sol que parte a calçada
Não tem quem lhe diga nada!
Casimiro vivia na rua de S. Francisco numa casa, quase fronteira a essa outra onde viveu Domingos Lavadinho – a quem este poema foi dedicado.
Casimiro fixaria a poesia da vida da nossa cidade com os costumes de então, apreendendo-a e particularizando-a no olhar de amor feito do conhecimento profundo que tinha da sua rua. A rua da casa de seus Pais, a rua onde brincou, onde cresceu com seus irmãos e, onde sonhou os seus caminhos de Homem.
Domingos Lavadinho – a meu ver – foi também poeta d’Elvas porque fez da sua vida um poema de amor a esta sua terra que serviu devotamente.
Nunca é demais que Elvas o recorde...
Para Casimiro Abreu há 27 ou 28 anos era assim a rua de S. Francisco. Hoje lá longe em África assim o recordará.
E... para si?... Para si que nem sequer tem 20 anos; ou tem 30 ou pouco mais? Como é a Cidade? Como é a sua rua? Como é a rua de S. Francisco?
É só o atropelo das pessoas apressadas? São os encontros frutuitos? Os passeios ao acaso; os namorados pelos cantos, a algazarra dos garotos da escola, os estudantes de blue geans? – Os enxames de espanhóis? – Não de meninos (dos que fala o poeta maltrapilhos, pedinchões, que os tempos cruciantes da guerra civil forjaram...)
Não! – Antes pelo contrário pois agora são os espanhóis prósperos que nos visitam (e que quase como na cantiga do Sebastião barrigudo de há trinta anos) compram tudo... tudo... Tudo!...
Já pensou que é isto e mais as camionetas que atravancam as ruas e nos espalmam contra as paredes quase como nos desenhos animados... e mais os automóveis que passam loucos e os que passam prudentes e as motoretas
despudoradas como varejeiras incomodas de guinadas imprevisíveis e mais os mini – mercados e os super (qualquer coisa) e os maxi (não sei quê) e a policromia da bonecada de barro sarapintada e as flores artificiais de papeis e de plásticos que espreitam por tudo quanto é loja, de travessa ou esquina, ou praceta, por escura que seja! Enfim! Tudo que constrói o nosso dia a dia de agora – que dá – ou dará – ao poeta de hoje – as pontas do fio com que tece a poesia da cidade de hoje – ao falar de qualquer rua do centro, ou seja ela a de Alcamim – Olivença – Chilões – ou São Francisco.
Ruas tão diferenciadas das ruas castas, retiradas, recolhidas como “Espirito Santo” – Parreiras – Beatas – esses postais vivos – brasonados pelo povo com os símbolos heráldicos do amor eterno – as flores.

Porém – para quem possa olhar para mais longe no passado – a lembrança avivará com saudade – o que os novos já só ou ainda poderão saber se lerem por exemplo Eurico Gama (esse outro poeta do Amor a Elvas) esse ferrenho estudioso que quase perguntava a cada pedra da calçada – o que sabes da minha terra? Quem viste passar aqui? – E desenterrava a verdade e ressuscitava a história... Com a ternura de elvense atento que foi – e que ilustre e afamado se tornou – por amor – amor a esta sua terra – a esta nossa – Elvas.

Aos que recordam mais longe no passado, dizia eu, ouviremos então falar no caramelo branquinho, feito de açúcar que se comprava no Bolacheiro – ali na rua de S. Lourenço e se ia saborear derretendo-o na boca com a água fresquinha da cisterna ao fundo da rua de São Francisco.
Ouviremos falar dos passeios de trem e chars-a-bancs das famílias abastadas.
Dos almocreves regressando à cidade à noitinha – das cocheiras hoje “ promovidas” a lojas e a garagem – de onde nesses tempos no silêncio das ruas mal iluminadas (do mundo encerrado por detrás das portas fechadas, como diz o Poeta) – se escapavam os ruídos inconfundíveis das patas dos cavalos acompanhados do resfolgar de conforto que fruíam presos frente à manjedoira farta.
Evocaremos também os cordões de povo endomingado saindo e entrando pela poterna do Jardim em dias e noites de arraiais de S. Mateus...
E recordaremos as saias cantadas – ao som das pandeiretas que as camponesas manejam com tanta alegria.

Não chores não vale a pena
Também vais ao S. Mateus
As meias são emprestadas
Os sapatos não são teus
O Senhor da Piedade
Tem 24 janelas
Quem me dera ser pombinha
Para poisar numa delas
Que sábio Poeta é o Povo!
Com que graça, discreta e fina ironia refere a mingua do seu quotidiano, e, como encontra a solução jocosa para a superar e, sabiamente, rir de si próprio ao mesmo tempo que mostra que sabe perfeitamente que a festa é de todos sem excepção.
É assim como quem diz:
se nada mais tens, tens-te a ti mesmo e continuas a ser filha de Deus e filha desta terra, tudo te pode faltar – tudo menos – a oportunidade que te é reconhecida de ir à festa – que só será festa porque de todos e para todos – como é a festa da vida! – Pela graça de Deus!
Julgo que não é possível dizer mais e melhor apenas em quatro versos.
E a outra quadra? Alguém que a ouça não sabe de que cor é a pombinha?
Alguém terá dúvidas de que a pombinha é branca? É branca! E não podia nunca ser de outra cor.
É sempre branca da cor da pureza, o anseio de mais alto – o anseio de Paz que pulsa na alma da gente.
Quanta candura nesta avidez de mais além que um simples suspiro às vezes encerra – Quem me dera!!!
Talvez fosse essa também a sede de Mário de Sá Carneiro– (um Poeta que não é alentejano, nasceu em Lisboa em 1890 e suicidou-se em Paris, em 1916) quando escrevia em:
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Um pouco mais de sol – eu era brasa
Um pouco mais de azul – eu era além
Para atingir faltou-me um golpe de asa
Se ao menos eu permanecesse aquém
Talvez fosse esta a forma poética elaborada, a maneira genial pode dizer-se que o poeta encontrou na sua elegante linguagem para o grito ancestral – que como um atavismo – todo o ser humano herda ao nascer – o sonho de mais alto, de maior pureza, este:
Quem me dera ser pombinha
Para poisar mais além
Talvez! – Quem sabe! Tenha o mesmo peso de frustração deste maravilhoso lamento de fatalidade
Um pouco mais de sol – eu era brasa
Um pouco mais de azul – eu era além

Quem sabe!?...
Mas voltemos à Rua de São Francisco – que foi nosso ponto de partida de hoje.
Voltemos para lembrar que a verdade passada e a presente – fazem juntas a verdade de sempre – a história – a vida da cidade com seus costumes, suas casas, suas praças, seus becos e suas ruas... neste caso a rua de São Francisco que termina na muralha – frente ao sítio onde muitos anos morou um sapateiro que ocupou o lugar que foi da casa de S. Francisco.
É um remate feliz para uma rua cheia de história e isso e mais ainda – é como que um aceno de Beleza – criada por Rui Nogueira e Maria do Rosário de Melo e Sousa.
Maria do Rosário foi uma verdadeira apaixonada por Elvas – Maria do Rosário lutava, defendia, pugnava por tudo quanto embelezasse, engrandecesse esta sua terra – esta nossa terra. Daí – que de mão dada com Rui Nogueira à sua maneira elegante a tenham marcado com toda a poesia das suas almas fazendo colocar e emoldurar com viçosa hera os belos nichos que acrescentam tanta beleza a dois pedaços de velha muralha.
É como quem assina uma carta inteira dirigida a Elvas confidenciando-lhe: Amo-te!
É de Maria do Rosário que a meu ver foi mais poeta ainda na maneira de ser e estar na vida do que em obra escrita realizada, este soneto que obteve o 1º prémio nos Jogos Florais Luso Espanhóis (S. Mateus 1945)
Deus é mais Forte
Demora o teu olhar preso no meu
quando o meu corpo, inerte, sobre o leito,
for farrapo inútil e desfeito
que a morte há-de arrastar, como um troféu!
Beleza…graça… tudo se perdeu!
Convulsamente …a arfar… o meu pobre peito
regressará ao nada de que é feito,
Pois que “NADA”- repara! - és tu...sou eu!
Aperta a minha mão húmida e fria
nesse supremo instante de agonia…
…e não conseguirás roubar-me à morte!
…Não te revoltes! Ajoelha… e reza!
…Aceita o teu destino com firmeza…
...porque Deus, meu amor, é o Mais Forte!!!...
Este soneto que agora – á distância – se nos afigura quase profético... deixo-o como uma saudade em sua memória.
E... já vai longa a conversa. Hoje ficamos só quase pela nossa terra! – Gostava que me tivessem escutado. Gostava!
Gostava de vos convencer que poesia não é pieguice, fraqueza de ninguém, doença ou loucura mansa...
Poesia é também uma maneira de estar na vida, a sua maneira – talvez – quando aí na rua das Parreiras, num beco, ou na rua das Beatas enfeita a sua porta criando beleza com o asseio e o apuro do seu poial e das ombreiras caiadas com desvelo mas... disso falaremos doutra vez se Deus quiser...
Maria José Rijo

