Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Ponto de Partida - IV Emissão

.IV EMISSÃO PONTO DE PARTIDA
Quando outro dia falei sobre a rua de S. Francisco fiquei com pena de não referir
que aprendi com Eurico Gama

(através dos livros que por gentileza me ofereceu) e que são parte da importante
obra que escreveu sobre Elvas) que a rua de S. Francisco desde 1413 em que
ainda era Rua de Arrabalde até aos nossos dias teve os seguintes nomes:
( que passo a citar : - do Cano, do Bom Sangue , de João
Fangueiro, de André Lopes Garro, de Porta de S. Francisco, de Porta do Bispo,
de Valadares ou de António Valadares, de Francisco Zagalo, de S. Francisco, dos
Fangueiros, a Corredoura, de Vitorino de Almada e só em 1952 voltou a ser de S.
Francisco. )
Histórias que Eurico, desenterrou do pó de séculos, investigando tenazmente em
anos e anos de trabalho esforçado (todos quantos os da sua vida adulta) embora,
quantas vezes remando contra marés de indiferença e mesquinhez – guiado apenas
pelos ventos favoráveis do sonho expresso no seu Ex-libris – Morra o homem fique a fama!

E porque falei de S. Francisco parece-me certo, voltar a citar Florbela
Espanca a quem me tenho referido com frequência pois que, também ela no
soneto “ In Memoriam” esse canto ou pranto ( ou tudo junto ) do amor fraternal
que a ligava a seu irmão o aviador Apeles Espanca que
morreu novo num acidente de aviação ( ou nele se suicidou como se suspeita )
!!! Também Florbela havia de voluntariamente chamar a morte, para si,
desesperada, na madrugada do seu 36 aniversário, em Matosinhos.
Parece-me certo voltar a citar Florbela, dizia eu com o seu
“In Memoriam”:
Na cidade de Assis, “ il Polvorello
Santo, três vezes Santo, andou pregando
Que sol, a terra, a flor o rocio brando,
Da pobreza, o tristíssimo flagelo,
Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! -- E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!
“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água… “
Ah! Povorello! Em
mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa
Batida por furiosos vendavais!
-- Eu fui na vida a irmã de um só Irmão,
E já não sou irmã
de ninguém mais!
Assim falou ela a S. Francisco o Santo três vezes Santo que nos deixou dessa transparente
Santidade a sua bela oração de Paz.

Oração de São Francisco
Senhor
Fazei de mim o instrumento da vossa Paz
onde há ódio deixai-me semear o amor
onde há injúria o perdão
onde há duvida a fé
onde há desespero a esperança
onde há escuridão a luz
onde há tristeza a alegria.
Divino Mestre
permiti que eu procure nos outros
não a consolação mas sim consolá-los
não a compreensão mas sim compreendê-los
não o seu amor mas sim amá-los
porque é dando que recebemos
perdoando que somos
perdoados
morrendo que nascemos para o eterno amor.
S. Francisco de Assis

Como se vê uma oração pode também ser um poema e um poema pode ser uma oração.
Como também uma cantiga pode ser um poema ou uma lenda quase sempre o é também.
Se pensarmos que ainda hoje se cantam lenga-lengas, melopeias ritmadas para retirar barcos
do mar para a praia ou para os pôr a navegar – (em locais onde o primitivismo ainda impera)
se o lembrarmos podemos imaginar como esses costumes serão herança de outras
heranças que se perdem pelos séculos passados dentro, até aos primeiros homens
que fizeram os primeiros barcos e ensaiaram os primeiros dos primeiros, os
primitivos movimentos de danças de regozijo por o terem conseguido ou os cantos
e os lamentos por recear não alcançar os seus intentos: ainda hoje é vulgar
para uma tarefa pesada – feita em conjunto -- como por exemplo descarregar
sacos pesados de cereais, ou cimento... Ver as pessoas que os seguram e os
suportam balanceá-los até encontrar o impulso certo que facilite a sua carga ou
descarga ensaiando o esforço a compasso duma exclamação que se arrasta ou
apressa conforme o trabalho a executar ...

É o “ala arriba” dos pescadores da Nazaré, é o “1,2,... 1,2”
do marcar passo dos soldados, é a cantilena com que as crianças se embalam para
aprender a tabuada: “2x1=2, 2x2=4” – Sei lá...
Desta necessidade de acompanhar, de acentuar os anseios, a alegria e a dor com
movimentos do corpo – (Pensemos num exemplo actual (os jogadores de futebol aos
pulos, aos saltos na alegria, se meterem um golo ou! atirados para o chão,
arrepelando os cabelos e esmurrando a relva em desespero – se o sofrerem).
-- Pois de necessidades mais intensas de expressão terá nascido a dança, o canto e com
eles a poesia (isto grosso modo – claro!)
Todas as coisas tiveram um princípio por remoto que seja – é lógico!
Os farrapos de lendas que chegaram aos nossos dias – foram talvez histórias
verdadeiras passadas de boca em boca – nos tempos em que ler e escrever era
prenda e privilégio de raros e quase só se cultivava no recolhimento dos conventos e mosteiros.
(Nesse tempo) as notícias e as críticas eram contadas por jograis, menestréis e chocarreiros
em melopeias e baladas e pagavam-lhes para o fazerem. Narravam talvez as histórias
que estão na origem de lengalengas e lendas que chegaram aos nossos dias – intactas umas,
esfarrapadas, fragmentadas, outras.

Dos meus tempos de menina quando andava à escola numa pequena aldeia do Baixo
Alentejo – tenho lembrança de algumas que me faziam sonhos e arrepios. Delas
sei muito pouco, mas vou dizer (a propósito quero aqui fazer um parêntesis) –
se alguém que me escuta souber estas lendas ou souber outras, ou orações
antigas, que diga por favor para a rádio Elvas porque a suas casas as iremos
recolher – ou, que para cá as mandem por escrito.
Era bom fazer programas sobre esse assunto, e até, trazer as pessoas que por
ventura as saibam para que as contem elas próprias.
Vamos
tentar? Obrigado.
Recordo pois A lenda da Idalina que estava presa na torre à míngua de pão
e água, lembram-se?
Era qualquer coisa
assim:
Assomou-se a Idalina
À Janela que a torre tinha
Assomou-se a sua irmã
Á janela da cozinha
Oh, irmã que Deus me deu
dá-me uma gotinha de água
que esta sede já me aperta
este corpo e esta alma
E a outra era a de D. Silvana, em que se pedia a cabeça de alguém, já nem sei de quem...
numa doirada bacia: … E a certo passo contava assim:
Tocam os sinos da torre
Ai, meu Deus, quem
morreria
Responde o filho de colo
Que inda falar nem sabia
Morreu D. Silvana pelo mal que fazia
Descasar os bem casados coisa
Que Deus não queria...
Eram contos tristes á cerca de mulheres sacrificadas, fechadas em torres
e conventos por recusarem noivos que os pais escolhiam ou histórias de reis e
fidalgos
poderosos que mandavam cortar cabeças de súbditos para satisfazerem caprichos
de amores novos... coisas doutras eras...
Vestígios destes costumes chegaram aos nossos dias com cantilenas de cegos e
mendigos que depois de entoarem (quase sempre desafinadas
canções com versos de pé quebrado em que desfiavam histórias de crimes,
monstros, vinganças cruéis ou desgraças que tais... pediam dinheiro estendendo
o chapéu á assistência mais ou menos interessada.
Vem daí a expressão (penso eu) “ Mete a viola no saco” que se usa quando se
quer mandar calar alguém que nos aborrece –
ou virá de lá mais longe – da era dos bobos e jograis? – Não sei!
Sei que receio ouvi-la eu, se pensam que estou a fugir do meu ponto de partida – a Poesia!
Mas não! Estou falando dela a meu jeito que de outra forma não posso.
Convencida que estou de que não são precisas rimas para dar guarida à poesia.
E, ao contrário cito: ás vezes a poesia escapa-se do verso rimado
como o pescoço rebenta o botão do colarinho que sufoca para respirar fundo e a
gosto. A poesia ás vezes mora, fica presa a quase nada.
Estou a pensar numa pequena lápide
incrustada na rocha á beira dum rio nascente na Serra da Estrela.
Recordo que a primeira vez que a li
tive uma comoção como se tem ao ver alguém que se julga perdido ou morto e de
repente, como uma aparição, nos surge são e a salvo.
Uma daquelas alegrias inesperadas
que nos põe a rir e a chorar ao mesmo tempo, porque nos põe em paz, porque,
nos renova a fé nos homens
Lá alto na Serra da Estrela á beira
duma fonte – donde jorra um fiozinho de água muito fria e transparente – alguém
gravou Mondeguinho – nascente do rio Mondego.
Só isto! – Só isto e basta para se pensar:
Oh, meu Deus! – São os mesmos homens que matam, odeiam e fazem guerras –
que se enternecem assim à vista dum veiozinho de água que brota da terra e o mimam
desta maneira! (o Mondego é sabido é o nosso maior rio
nascido em Portugal – dos poucos que é só nosso – mas, lá na Estrela ao vê-lo
pequenino foi olhado com a alma de joelhos como se olha num presépio e, como se
lhe pegasse ao colo porque o via nascer – carinhosamente o Homem – baptizou-o:
Mondeguinho. Mora aqui a Poesia.

Ainda que outros por lá passem e deixem garrafas vazias, latas, plásticos sujos – lixos—
poluição. Ainda assim esta história é verdadeira. Aconteceu lá na Serra onde mora a Poesia.
Quando o meu vizinho Chico Rasquilha há um ano me pediu estes programas,
estas conversas informais e me apontou como tema principal poetas do Alentejo –
eu logo lhe disse que poderia partir daí mas não garantia aonde iria parar...
ele achou bem deixar-me livre e assim hoje... até já fomos parar á Serra!
Mas... vamos regressar para pararmos um
pouco quase ao pé da nossa porta, para chamar aqui à lembrança um grande poeta
que não era Alentejano, é verdade, mas era professor em Estremoz quando morreu,
em 1952, no dia 7 de Fevereiro sem ter sequer trinta anos.

Chamava-se Sebastião da Gama. Da sua curta existência (marcada desde
menino pela ameaça que infelizmente se cumpriu duma morte prematura) ameaça que
ele conhecia, ficou-nos um rasto de bondade franciscana, de amor pela natureza
aprendido na sua Arrábida – a sua “Serra Mãe”, um rasto de beleza e de talento
sem par. É de Sebastião da Gama o poema que vou ler:
O Segredo é amar:
Fosse mais bela a vida e mais sincera…
Como eu lhe quero, mesmo assim!
Tanto lhe dei de mim
que já é menos acre do que fora.
Ah! bem me parece que o Amor melhora
quanto a graça de Deus não fez bonito.
Há lá coisa mais linda que um grito
quando foi o Amor que o pôs cá fora!...
Deixa ser o meu gesto uma grinalda
Nos teus cabelos, Vida!
Deixa que o meu olhar enflore teus olhos.
Adeus, adeus teus dedos ásperos!
Adeus teu rictus doloroso!
- Vida, quem é a minha namorada?

Também é de Sebastião da Gama esta página datada de
21 de Janeiro de 1952, escrita portanto, menos de um mês, antes da sua morte!
Encarcerar a asa
Encarcerar a asa é encarcerar a alma. Isso sim. É que há
muita asa que não pensa; Asas que não sintam, é que não.
Mas eu não preciso de símbolo para me negar a ver os
pássaros na gaiola. Basta-me ser fraterno.
Para que vivemos no Mundo há tanto
tempo se não sabemos ainda que os bichos são criaturas com alma até os das
fábulas, quando calha…Ora pensem lá um bocadinho no “Leão Moribundo”É um leão
mesmo ou é principalmente um leão.
Quantas vezes se esquecem os fabulistas de que era de homens que queriam falar!
Asa encarcerada, não. Nem asa de pássaro, nem asa de
grilo Uma fê-lo o Senhor e disse-lhe – “Voa!”
Á outra: “Canta!”A nenhuma (nem a nós deu a ordem, claro está) que se metesse
numa gaiola. No entanto é a gaiola domicílio muito habitual do pássaro e do
grilo. Ao grilo prenderam-no as crianças sob o sorriso dos pais. Ao pássaro os
pais sob o sorriso dos filhos.
Má escola esta. Principalmente porque se diz depois:”Que
bem canta! que bem que canta!”Nem se chega a aprender a diferença que vai do
canto ao choro. Pois um pássaro encarcerado ou um grilo, canta lá!?...Os
pássaros cantam é nas linhas do telefone, nas árvores, na beira dos telhados…Os
grilos é na toca, ou ao pé da serralha. Na gaiola choram. É o fado dos ferros.
Mas os que abriram a grade não entendem! Se eles abriram
a grade!...
E vá de não perceber que o fato preto do grilo já é
outro, já não é o seu fato de trazer: o grilo agora está de preto, porque está
de luto. De luto por si mesmo.
Os meus vizinhos têm um bicho numa gaiola. Um
pintassilgo. Pois se eu andasse zangado com a Vida, que não ando (apesar de
tanto mal que me tem feito, há tantas coisas boas que a Vida dá, e me dá!) era
por causa do pintassilgo que me reconciliaria com ela. Com ela e com os homens
- Se eu andasse de mal com os homens…Era ao lusco-fusco. Frio como só cá no meu
Estremozinho. Batem á porta, vou ver. Uma velhinha.
“Ó Senhor o pintassilgo é seu? É para o recolher que o
animal apanha muito frio.”
Ó! Velhinha Santa, velhinha dos livros! Naturalmente, se
tivesses á mão a gaiola soltavas o pintassilgo. Mas o que pudeste fazer é tão
grande!
Não sabes duas letras, provavelmente. E ainda se persiste
no erro que a grande desgraça é não saber ler. Qual coisa!A grande desgraça é
não saber que os pássaros têm frio.
Estremoz, 25 de Janeiro de 1952
Sei que não
preciso de dizer que da primeira á última linha deste texto, cantou viva a
poesia de que era feita a alma de Sebastião da Gama.
Maria José Rijo

