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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

Maria José Rijo

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Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Ponto de Partida - IX Emissão

 

Estas conversas à roda do Alentejo, poetas e poesia e quanto mais me tem calhado … estão quase a terminar – por agora. Razão bastante, a meu ver, para voltar a insistir na importância que tem como documento, como testemunho duma época (para além da beleza implícita na sua forma) qualquer expressão de arte em geral; seja ela poema ou prosa, pintura, música, cinema, cante, teatro, etc, etc,.

Quem sabe se com o rodar dos anos o tempo e as necessidades dos homens tiverem alterado muito da fisionomia de Elvas não serão também alguns quadros do Chico Pereira, do Cadete ou do Jesus e de outros…

Quem sabe se não serão fotografias de João Carpinteiro e de outros… que hão-de servir de suporte para ilustrar no futuro, como o são hoje os belos cantos e recantos de ruas e muralhas, os costumes, os gostos das nossas gerações? … Até ás vezes uma simples cantiguinha, uma quadrinha, uma quadrinha de mal dizer como essa que se cantou:

 

Já Elvas não é cidade

Nem vila lhe chamarão

Já os Arcos da Amoreira

Deram consigo no chão.

 

Fazem um apontamento na história, levanta uma pista!

 ……………………………………….

Quando a técnica e o progresso afastarem por inúteis muitos dos nossos hábitos, como já os super – mercados e os centros comerciais asfixiarem as velhas mercearias e quando as lojas dos senhores fulanos e senhores beltranos que conheciam os nossos gostos, e precisões como se família nossa fossem.               

………………………………………….

Então, será o quadro – a fotografia – o filme – o poema, a crónica de jornal, a reportagem, a canção que hão-de mostrar, contar coisas tais que, se ditas agora, fariam rir …

………………………………….

Tudo se há-de saber até à minúcia da ternura com que se dobra uma saca no chão para que nela se deite o cão ou o gato”coitadinhos” (porque o chão é duro e frio).

Tudo se há-de saber até à minúcia o que o povo usa para lavar, limpar, engomar, remendar, caiar e fazer por suas mãos a rendinha com que apura o esmerado asseio da sua casa (só porque gosta de ver!)

Enfim, será pelo testemunho dos intelectuais e artistas que toda a pequena história da nossa vida – e do nosso amor por ela há-de ser colectada na história desta cidade e, por aí adiante até somar a história do povo que somos

…………………………………

Sempre assim foi, aliás.

A história ergue-se sobre os documentos que de cada época vão ficando. Por isso, é tão importante a conservação, o respeito por tudo que tem significado na memória dum povo.

Por tudo quanto documenta a passagem de outras gerações e dos seus costumes e tendências – o azulejo – a pedra – o livro – o jornal – a cerâmica – a árvore – o cereal – a casa – o traçado da rua – a calçada – o instrumento de trabalho – o vestuário – com tudo isso se escreve a História dos povos.

………………………………….....

É altura de fazer uma funda incursão no tempo e ler hoje poesia de Alentejanos dos fins do séc. XV e princípios do séc. XVI.

Vou recordar extractos da écloga de Jano e Franco – escrita por Bernardim Ribeiro que nasceu na vila alentejana do Torrão em 1482 e morreu em 1552.

Bernardim Ribeiro foi escrivão da Câmara de D. João III.

……………………………………….

Sempre vou lembrar que as éclogas eram poesias pastoris quase sempre em diálogo e narravam edílios românticos.

 

Écloga de Jano e Franco

 

Dizem que havia um pastor

antre Tejo e Odiana,

que era perdido de amor

per  ua moça Joana.

Joana patas guardava

pela ribeira do Tejo,

seu pai acerca morava,

e o pastor, do Alentejo

era, e Jano se chamava.

 

Quando as fomes grandes foram,

que Alentejo foi perdido,

da aldeia que chamam o Torrão

foi este pastor fugido.

Levava um pouco de gado,

que lhe ficou doutro muito

que lhe morreu  de cansado;

que Alentejo era enxuito

d’água e mui seco de prado.

           

Toda a terra foi perdida,

no campo do Tejo só

achava o gado guarida:

ver Alentejo era um dó!

E Jano, para salvar

o gado que lhe ficou,

foi a esta terra buscar;

e um cuidado levou,

outro foi ele lá achar.

 

O dia que ali chegou

com o seu gado e com o seu fato,

com tudo se agasalhou

em ua bicada de um mato.

E levando-o a pascer,

o outro dia, a ribeira,

Joana acertou de ir ver,

que  andava pela beira

do Tejo a flores colher.

 

Vestido branco trazia,

um pouco afrontada andava;

fermosa bem parecia

aos olhos de quem a olhava.

Jano, em vendo-a, foi pasmado;

mas, por ver que ela fazia,

escondeu-se antre um prado;

Joana flores colhia

Jano colhia cuidado.

…………………………………….

 

Não é interessante que através dum poema de época tão remota se saiba como já era angustiante o problema da falta de água no Alentejo.

…………………………………….

Mas já que estamos com a mão na massa adiantemos um pouco mais sobre este poema do autor da tão célebre novela “ Menina e Moça “.

 ……………………………………….

É que nesse tempo eram líricos e românticos os poetas. Todo o pendor das suas obras era para o devaneio saudoso, para as paixões infelizes, impossíveis – para a melancolia.

Estados de alma de que os poemas de então falam com deleite.

Gostosamente se saboreava a dor de amor e a nostalgia como benditas ofertas dos deuses, com doce manjar.

Cantava-se com enlevo a natureza e contrapunha-se à sua pujante vida as mágoas de ser gente. Que, ser gente, parecia apenas ser dono da oportunidade de sofrer de amor. Antes de amar as pessoas podiam ser alegres, felizes como a natureza que as rodeava. Os males vinham depois que o amor aparecia …

Da écloga de Jano e Franco vou ler extractos para exemplo de como eram contados martírios de amor:

  

Não cuides que minha dor

Me dá repouso em dizê-la

Que tanto mais cuido dela

Tanto ela é maior

E eu, mais contente dela.

…………………………………………

Um fragmento para exemplo de fatalismo:

           

Dentro do meu pensamento

Há tanta contrariedade

Que sendo contra o que sento

Vontade e contra vontade

Estou em tamanho desvario

Que não me entendo comigo

Ou ainda:

Na grande desventura

Não há mais que aventurar

Que deixar tudo à ventura

 

Ou; mais um pouco:

Mesquinho pastor perdido

Quanto melhor já te fora

Não ser no mundo nascido

 

Ou a afectação palaciana o trocadilho:

Maria bem olhava

Com que cuidou que valia

Não valia o que cuidava

 

Ou mais claro ainda:

Joana flores colhia

Jano colhia cuidados

 

E … já que recuámos tanto no tempo aproveitemos para falar de outro escritor alentejano dessa época –

Cristóvão Falcão natural de Portalegre. Viveu entre o séc. XV e XVI,1515 a 1557.

Foi moço fidalgo do Rei Piedoso D. João III e é célebre a sua écloga “Crisfal” 

Cris de: Cristóvão e Fal de: Falcão (como parece poder deduzir-se)

Nela conta como passado entre pastores a triste história dos amores da sua vida.

Parece que muito novo teria casado secretamente com Maria Brandão de 12 anos de idade e viu o seu casamento anulado a pedido da família da menina que ao ter conhecimento do facto a encerrou num convento donde mais tarde a tiraram para então a casar a seu contento

Cristóvão Falcão esteve também encerrado 5 anos no Castelo de Lisboa – Talvez por causa  do dito casamento. Não sei! Foi lá que escreveu a famosa écloga da qual vou ler também apenas alguns fragmentos mais significativos para a história que contei.

 

Antre Sintra, a mui prezada

e serra de Riba-Tejo

Que Arrábida é chamada,

perto donde o rio-Tejo

se mete na água salgada,

houve um pastor e uma pastora

que com tanto amor se amaram

como males lhes causaram

este bem, que nunca fora,

pois foi o que não cuidaram

 

Ela chamavam Maria,

e ao pastor Crisfal

ao qual, de dia em dia,

o bem se tornou em mal,

que ele tão mal merecia.

Sendo de pouca idade,

não se ver tanto sentiam,

que, o dia que não se viam,

se via na saudade

o que ambos se queriam

E, com quanto era Maria

piquena, tinha cuidado

de guardar melhor o gado

o que lhe Crisfal  dizia

mas, em fim, foi mal guardado

 

E mais adiante:

A qual logo aquele dia

que soube de seus amores

aos parentes de Maria

fez certos e sabedores

de tudo quanto sabia

Crisfal não era então

dos bens do mundo abastado

 

Ou ainda um pouco mais:

Então descontentes disto

levaram-na a longes terras

esconderam-na  antre serras

onde o sol não era visto

e a Crisfal deixaram guerras

Além da dor principal

para mor pena lhe dar

puseram-no em lugar

mau para dizer sem mal,

mas bom pêra o chorar …

 

 ………………………………………….

 

E por aí fora ao longo de dezenas de estrofes a história dos seus amores infelizes vai sendo narrada sob a forma de diálogos entre pastores e pastoras, cheia de belas imagens de afectação palaciana, fatalismos e trocadilhos graciosas até terminar deste modo:

 

O que se fez de Crisfal

não sabe ao certo ninguém

muitos por morto o tem

mas quem vive em tanto mal

nunca vê tamanho bem.

 

……………………………………………

Fins do século XV …

Princípios do séc. XVI.

Por essa mesma era Garcia de Resende natural de Évora que viveu entre 1470 e 1536 – que  foi o compilador do cancioneiro geral e secretário  particular de D. João II – assim falava ou cantava talvez ( pois diz-se que cantava muito bem )  sobre a festa de acolhimento que em  Elvas  se fez em 1525 á irmã do imperador Carlos V, D. Catarina, que por esta cidade entrou como noiva do rei D. João III – de  quem Garcia de Resende também gozou os favores:

Vimos o seu casamento com a irmã do imperador.

Vimos tan gran ajuntamento em Elvas

Tanto Senhor que falar em mais evento

5.000 em cavalgados grandemente ataviados  muito ricos, muy galantes com os senhores infantes na Maia foram juntados.

O ouro, a pedraria, carrotilhos e bordados, as perlas, a chaparia, os forros, os esmaltados não tem conto nem valia. Em Estremoz, nunca tal pau se juntou, Deus assim os conformou que em tudo se conformaram.

………………………………………

Séc. XVI –  que fundo nos tempos !...

Que era distante ! …

……………………………………….

Por essa mesma era – 1502 Elvas crescia …ganhando a sua misericórdia…

Por essa mesma era – 1513 Elvas ganhava foros de cidade.

Por essa mesma era, surge o ano de 1537 o 1º dos quase 100 que o Aqueduto levaria a construir …

Poderia então ter-se contado:

Já Elvas não será vila

Cidade lhe chamarão

Já os arcos da Amoreira

Se vão erguendo do chão …

 

……………………………………….

 

Por essa mesma era 1524 a1580 viveu Camões – o primeiro entre os primeiros – o príncipe dos poetas de Portugal.

Camões que teve para contar, cito:

 “ A história daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando”.

A História do povo que deixou a rabiça do arado e segurou o leme das Caravelas

“ por mares nunca dantes navegados” e espantou o mundo com os descobrimentos …

a história do povo que fomos …

E, agora … que povo somos?

Possa cada um de nós, ser tão-somente: justo, bem, honrado e trabalhador:

E a história falará sem vergonha dos Lusíadas que continuamos a ser …

 

 

Maria José Rijo

Ponto de Partida - VIII Emissão

.

Talvez porque a minha consciência de ser se confunde com a consciência de ser alentejana,

gosto de vir hoje lembrar Francisco Bugalho de quem Régio disse:

 

“ O rodar dos anos, a dança das estações a sucessão dos dias,

a volubilidade dos instantes – coisas são, que os sentidos

do poeta apreendem  e fixam, sobretudo nos seus mais subtis

cambiantes, direi um pouco à maneira de um impressionista

poeta”.

 

Querem ouvir poemas de Francisco Bugalho?

Eu leio alguns:

 

GANHÃO

 

Minha junta vai puxando

Morosa, lenta, cansada;

Que a leiva que vai virando,

Vai ficando bem virada.

 

Passam dois corvos grasnando

E à minha volta mas nada

 

A relha que rasga a terra,

Rasga e beija docemente,

- Breve se acaba esta guerra,

Só de semear a semente.

 

Nos vales de terra molhada

Piam os abibes em bando

 

E a leiva sobe na aiveca

E vai ficando tombada,

Ao seu feitio moldada

Sobre outra leiva já seca

 

 

Minha junta vai puxando

Pesada, lenta, cansada…

 

Ao fundo, no horizonte,

Só um sobreiro pasmado;

Nem um ruído de fonte,

Nem um chocalho de gado…

 

Nem algum cantar perdido

De certas horas felizes,

Só conta no meu ouvido

Este estalar de raízes.

 

A leiva que vou virando

Vai ficando bem virada…

 

QUEIMADA 

Lenta, ondulante, latente,

Fulgurante ou decadente,

A longa queimada vem,

Na faixa do horizonte.

 

Avança desde o poente

Enche a noite e cala a fonte.

 

Tudo se cala, se encerra,

Em volta, na escuridão,

Toda a paisagem se aterra,

Não há estrela na amplidão:

-- Que o lume, raso da terra,

Matou-lhe a cintilação.

 

Há cheiro a palha queimada,

A matos secos ardendo,

Gritos soando, na noite,

Á caça, louca, correndo,

Sem saber onde se acoite,

À espera da madrugada.

 

E a minha noite é toldada

Deste trágico fulgor.

Não sei que vago amargor

Surge de nada pra nada;

-- Parece trazer-me dor,

Ardendo, em mim, a queimada.

 

 -----------------------------

TOSQUIA

 

Rente, rente, rente

A tesoura corta.

E, na tarde quente,

Junho está à porta.

 

Vem do campo, em volta,

Mágico fulgor

De aroma, que solta

O feno, inda em flor.

Aperna-se o gado,

Pra tirar-lhe a lã.

Ficou encerrado

Desde esta manhã.

 

Rente, rente, rente;

Que a tesoura corta

E, na tarde quente,

Junho está à porta.

 

Um halo de neve,

Espuma ou algodão,

Envolve de leve

As reses no chão.

 

Na luz forte, em roda,

Zumbem as abelhas.

E há balidos soltos

E tristes, de ovelhas.

 

E ao soltar aquelas,

Livres, já, dos velos,

Parecem gazelas,

Em saltos singelos.

 

Rente, rente, rente,

A tesoura corta.

E, na tarde quente,

Junho está à porta.

 

Não é verdade que alguns  destes poemas sugerem música ou até pintura?

……………….

Francisco Bugalho

que teve lavoura em Castelo de Vide onde se radicou,

foi conservador de registo predial e morreu em 1949 com 44 anos – nascera no Porto em 1905.

Tornou-se um poeta do Alentejo porque amou e entendeu as nossas paisagens e costumes.

……………………

 

Que o Alentejo – como já li algures é como que uma Pátria dentro de outra Pátria.

 

E, eu que venho lá de outra parte do Alentejo imenso quente e nu – da terra da cor do barro, cor de

.....................

carne viva; que cresci ao som de palavras que entendi,

quentes e gostosas como chaparro --  tarro – seara – almeara – restolho –

palavras que o alentejano arrasta, como se arrasta a ansiedade

da sua alma de homem solitário que tem pudor de rir,

recordo os seus cantos esses mágicos prantos –

única brecha por onde se vislumbra a sua vida interior…

Assim, por lá, havia cantigas quase sobre tudo quanto acontecia. 


..........................

Desavença de namoro (por exemplo) originavam algumas como esta:

Ó José ou Manuel ou … se acaso queres

a tua roupa lavada

paga a uma lavadeira

que eu não sou tua criada …

 

Eu não sou tua criada

Eu não sou criada tua

Ó José se acaso queres

Pega a roupa e vai p’ra rua.

 ...............................

Isto – porque era de bom-tom as noivas cuidarem dos noivos para provar

a sua aptidão para o casamento.

…………………….

Sobre a possível separação de apaixonados pela morte e a esperada felicidade para além túmulo.

Esta :

Fui-te ver estavas lavando

Na ribeira sem sabão

Lavas-te em água de rosas

Fica-te o cheiro na mão

Fica-te o cheiro na mão,

Fica-te o cheiro no fato.

Se eu morrer e tu ficares

Adora-me o meu retrato.

Adora-me o meu retrato

Vai-me ver a sepultura.

Se eu morrer e tu ficares

Adora a minha figura.”

………………….

 

Outro exemplo – mas desta vez á cerca da curiosidade que, sempre suscitava em meio

 tão pequeno a mudança de hábitos de qualquer rapariga nova:

 

Estando eu muito bem sentada

A gozar do fresco sem ser adorada,

Olha as calhandreiras a quererem saber

Dos amores novos

Que estão para haver

 

( Calhandreiras à é o que aqui na região se designa como vateiras).

……………………

Era uma aldeia pobre de gente simples, onde a fora o ferreiro, o dono da moagem, os sapateiros, os donos das vendas (pequenas mercearias onde mais se vendia vinho do que géneros), o barbeiro, o abegão, toda a gente trabalhava nos campos em redor, que eram propriedade de 2 ou 3 lavradores de quem todos dependiam economicamente.

Como excepções contavam-se as professoras primárias.

Não havia padre, nem médico.

Os velhos tornavam-se mendigos e as velhas lavadeiras -

enquanto era possível depois, faziam mezinhas, benzeduras, “aparavam”, como lá se diziam

as crianças que nasciam e eram respeitadas e temidas como bruxas, mas como é lógico acabavam a mendigar.

Um dia caí, magoei-me num braço e, uma delas (protegida de minha Mãe)

socorreu-me e benzeu-me mais ou menos assim:

 ..........................

Eu te coso por carne quebrada e nervo torto

Melhor cose a Virgem – que eu coso

A Virgem cose por vão, eu coso o osso.

Em louvor de Deus e da Virgem Maria

Padre-nosso e Ave-maria! “

 

Talvez pelo medo que dela tinha – fiquei curada!         

………………………

Fala-se à boca pequena de maldições sobre caminhos e encruzilhadas onde havia quem jurasse dançavam lobisomens ao bater da meia-noite com almas do outro mundo.

…………………….

E, se é verdade que a ignorância permitia o pulular de histórias fantásticas, de desconfianças e pavores tais, que, por vezes, terminavam em cenas de facadas ( de mortes até) nas tardes de festas e domingos em que o  jogo da malha era pago em copos de vidro – que exaltavam os ânimos e libertavam os instintos – também é certo que cada um em seu oficio e arte era perito e disso se gabava com ingénuo orgulho!

Eram as mulheres que mondavam, não sei quantos regos da seara ao mesmo tempo …

Eram os homens que atavam molhos de trigo, não sei de que jeito …

Eram os que charruava o alqueive como ninguém.

Eram peritos no varejo da azeitona.

Eram os cortadores de lenha que a empilhavam em medas de forma geométricas exactas empiramente encontradas …

Eram os tosquiadores que deixavam borlinhas, marcas e desenhos no dorso dos animais.

Eram os tiradores de cortiça, os homens da limpeza do arvoredo, os das matanças, os das rouparias, os hortelões.

 

Era toda uma cultura rural, virada para o prático, o necessário, de utilidade incontestada que faziam daquela aldeia – daquelas pequenas aldeias de há 50 anos – colmeias vivas onde cada um era obreiro, fazia o que sabia porque cada um sabia o que era preciso fazer e onde até a crueldade aparecia como uma natural luta de sobrevivência e nunca como indicio de falta de carácter. Os homens batiam nas mulheres e esfaqueavam os rivais porque eram homens – as mulheres obedeciam porque as fêmeas deviam ser pacientes, resignados e humildes …

…………………….

 

Era o Alentejo tragédia da terra fecunda como um ventre macio.

……………………….

 

Era o Alentejo que Armindo Rodrigues, que é natural de Lisboa, onde nasceu em 1904 mas que é de ascendência alentejana e tem uma obra poética reunida em 14 volumes publicados entre 1970 e 1978, referiu assim em:

Motivos Alentejanos

Os sobreiros sonham

sonhos desvairados,

que só os pastores

e as pedras suspeitam

 

Sonham que são livres

e vão pelo mundo,

com raízes de água

e cabelos soltos

 

No céu por lavrar,

as nuvens são cardos

e o sol milhafre

que esvazia os olhos.

 

Dos sonhos só resta

a angustia que os ousa

A angústia é concreta

Os sonhos são sombras.

 

Seguros á terra

com garras de bronze

os sobreiros sonham

impossíveis rumos.

 

Arde o Sol

A terra cheira

a pão mole,

a vinho, a poeira.

 

Na vastidão contrita,

com moinhos erectos

cada pedra medita

e os próprios sonhos são objectos.

 

Encharca-me a pele

um suor paciente

Um gafanhoto cor de mel

salta mecanicamente

 

O ar sufoca.

É uma fornalha, o dia.

Até a boca

me sabe a melancolia.

 

Lento, canta um pastor,

Guardando gado.

Do tronco de um sobreiro degolado              

corre um sangue que empapa o chão em flor.

Lento, canta o pastor,

guardando o gado.

 

Desabrocham-lhe cravos do cajado,

cheira-lhe o corpo a cio e a urina,

soltam-lhe aves do olhar estagnado

O sol é um bolo encarnado,

com inocências de menina.

 

De amor,

estão as pedras ofegando,

adormecem borboletas no ar brando,

um fio de água geme num valado.

Lento canta um pastor,

Guardando gado.

 

……………………

 Era – é o Alentejo dos dias de calma sufocante onde nem pássaros cantem e só a cigarra cante

É o Alentejo de Inverno, frio, arrepiante onde só um ventinho cante

É o Alentejo de sempre onde o silêncio mais a solidão geram o Pão em bebedeiras de luz.

 

Maria José Rijo

 

Ponto de Partida - VII Emissão

.

O Poema que vou ler é, talvez demasiado triste.

Talvez!... Porque também a vida às vezes parece poder ser apenas triste… mas, se pensarmos que o seu autor – José Duro – que como se sabe era natural de Portalegre – não chegou a viver 30 anos – pois nasceu em 1873 e morreu em 1899 – se o pensarmos… então talvez o possamos entender e, aceitemos até – que o seu único livro se tenha intitulado “Fel”.

Tanto mais que sabemos que antes de ser de Fel o gosto que lhe deixava a vida, ele se estreara como escritor com um folhetozinho intitulado “Flores”.

           

Lugar então para José Duro em:   

   “Doente”

 

Escrevo e choro, dói-me a alma, tenho febre.

Não sei a quantos graus - Calor insuportável;

- Moderno Lázaro! - oh! Que vida miserável!

Eu vivo aqui doente e só no meu casebre

 

Agora compreendo a dor de não ter Lar

E a dor de viver só, desventura tamanha!

É ser mais triste do que os cardos da montanha,

As urzes do caminho e as noites sem luar…

 

Meus tempos de criança! e fui fadado assim!

A minha mocidade é como que um deserto;

Não creio que haja alguém que possa amar-me,enfim

E Deus, se Deus existe, odeia-me decerto…

 

Confesso que estou pronto, e, se me vejo ao espelho…

-- Desceram-se-me á boca em risos de desdém…

Imagem do que fui, -eu nunca fui ninguém –

E, ò má fatalidade encontro-me hoje um velho,

 

Cravou-me a Dor na face, as rugas do desgosto,

Meus olhos de chorar vão-se tornando cegos,

E quando os chamo a ver aquilo que dá gosto

Escondem-se na treva, assim como os morcegos…

 

Dilui-se-me  o pulmão e sai-me pela goela

Á força de tossir bastante enrouquecida,

E se ainda vivo assim é porque a minha vida,

Amarga como é, não posso dispor dela.

 

Porque a verdade é esta: a vida que se arrasta

Do nada até à flor, do verme até a pedra,

É sempre a mesma vida incómoda, nefasta…

Que a Dor do Universo em toda a parte medra.

 

Assim talvez um dia eu que prefiro a Lua

A tudo quanto é bom, a tudo quanto é são,

Me torne por destino em pedra duma rua,

Que a multidão acalque, a doida multidão.

 

Talvez eu venha a ser a flor de um cemitério;

A estrela do Azul, a areia do Oceano;

A vida não tem fim como o Destino humano,

E se o Não-ser é tudo, o Nada é um mistério…

 

E eu que era, noutro tempo, enérgico, robusto,

Quando no meu jardim floriam as roseiras,

Padeço horrivelmente, já respiro a custo,

E a minha tosse lembra a reza das caveiras…

 

Quem sabe lá !talvez nas grutas do meu Ser

A Morte, agora esteja abrindo algum jazigo…

E os vermes por desgraça escutem o que digo,

Vivendo dentro de mim sem eu os perceber.

 

Que negro mal o meu! Estou cada vez mais rouco!

Fogem de mim com asco, virgens de olhar cálido…

E os velhos quando passo, vendo-me tão pálido,

Comentam entre si:- -- Coitado, está por pouco !...

 

Por isso tenho ódio a quem tiver saúde,

Por isso tenho raiva a quem viver ditoso,

E odiando toda a gente, eu amo o tuberculoso

E só estou contente ouvindo um alaúde.

 

Cada vez que me estudo encontro-me diferente,

Quando olham para mim é certo que estremeço;

E vai, pensando bem, sou, como toda a gente,

O contrário talvez daquilo que pareço…

 

Espírito irrequieto, fantasia ardente.

Adoro como Põe as doidas criações,

E se não bebo absinto é porque estou doente,

Que eu tenho como ele horror ás multidões.

 

E amando doidamente as formas incompletas

Que ás vezes não consigo, enfim, realizar.

Eu sinto-me banal ao pé dos mais poetas,

E achando-me incapaz, deixo de trabalhar...

 

São filhos do meu tédio e de uma dor qualquer,

Meus sonhos de nervrose horrivelmente histéricos…

Como as larvas ruins dos corpos cadavéricos,

Ou como a aspiração de Charles Boudelaire.

 

Apraz-me o simbolismo ingénito das coisas…

E aos lábios da Mulher, a desfazerem-se em beijos,

Prefiro os lábios maus das negregadas loisas,

Abrindo num ansiar de mórbidos desejos.

 

E é em vão que medito. E é em vão que sonho!

Meu coração morreu, minha alma é quase morta…

Já sinto emurchecer no crânio a flor do Sonho,

E oiço a Morte bater, sinistra á minha porta…

 

Estou farto de sofrer, o sofrimento cansa,

E por maior desgraça e por maior tormento,

Chego a julgar que tenho - estúpida lembrança! -

Uma alma de poeta e um pouco de talento!

 

A doença que me mata é moral e física!

De que me serve a mim agora ter esperanças,

Se eu não posso beijar as tímidas crianças,

Porque ao meu lábio aflui o tóxico da tísica?

 

E morro assim tão novo! Ainda não há um mês,

Perguntei ao doutor: - Então?... – Hei-de curá-lo…

Porém já não me importo, é bom morrer e deixá-lo!

Que morrer – é dormir´...dormir… sonhar talvez...

 

Por isso irei sonhar debaixo dum cipreste,

Alheio à sedução dos ideais perversos...

O Poeta nunca morre embora seja agreste

A sua inspiração e tristes os teus versos.

 

Li todo o poema – porque ele é em si como que uma amarga biografia e o meu intento é fazer que os poetas, especialmente os do Alentejo – sejam menos estranhos para nós.

Ouvindo esta confissão estivemos ao lado do pesadelo de quem sofreu ou de quem sofre aguilhoado a uma doença incurável e talvez possamos perceber melhor como ás vezes o desespero ou a angustia nos parecem as posições mais legítimas – as únicas possíveis!

 

 Porém, se a dor é legítima, temos que saber e acreditar que também é bem legítima a esperança.

 

Temos que sentir que:

 

Todos os dias amanhecem

 crianças,

 pássaros,

 e flores!

 - e por sobre a noite

 das crianças,

 pássaros,

 e flores,

que já não amanhecem

 Amanhecerá !

 

Vamos pois deixar  entre em nós toda a beleza da poesia de  José Régio --  a quem para ser considerado poeta do Alentejo  -- bastaria  a sua “Toada de Portalegre” .

Vamos abrir as janelas – olhar os longes – deixar que a Primavera que se avizinha – nos acene no amarelo perfumado das mimosas em flor!

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 CÓPIA DO ORIGINAL ESCRITO PELA MÂO DE RÉGIO

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....

 

Que importa que Régio tenha nascido lá longe perto do mar, em Vila do Conde no ano de 1901?

Que importa que tenha sido desde 1929 o professor Reis Pereira do Liceu de Portalegre?

Que importa que tenha morrido na sua terra em 1969? - Que importa?

Quando alguém consegue contar desta maneira o que lhe vai na alma
– deixa de ser de aqui ou de acolá – passa a ser apenas – Poeta – e, neste caso, por graça de Deus –

e ventura nossa: -- Poeta Português. 

 

 

   Maria José Rijo

 

Parabéns Gilinho e Familia.

Não lhe sabemos os nomes,

nem exactamente a data de nascimento.

Ao certo, só sabemos que a Primavera

andava por perto quando elas chegaram

porque as olaias já estavam em botão.

Mas... 11, 12 - que importa?

Importante é saber que a Primavera floriu

nos vossos corações e nas vossas vidas.

Parabéns - Felicidades !

..

 

Ponto de Partida - VI Emissão

.

Ora acontece que ao querer hoje trazer aqui à conversa poemas do Conde de Monsaráz

 que como se sabe era filho duma ilustre família alentejana me recordei que há mais de 30 anos

quando morava na rua de Olivença presenciei uma história engraçada.

 

Durante algum tempo todas as tardes, mais ou menos à mesma hora um rapagão fardado de
soldado entrava na “Travessa das Pardelhas” a assobiar a mesma cantiga.
Caminhava devagarinho e, depois começava a trautear:

 

A flor do carapeto

Tenho eu na minha horta

Pede à tua mãe com “jêto”

Para falares comigo á porta

 

Invariavelmente a rapariga visada assomava à janela com um sorriso aberto de orelha a orelha mas,
não o olhava – antes fingia não o ver, recolhia-se e, já de dentro de casa
respondia cantando na mesma música:

 

Minha vida são castanhas

Cozidas num alguidar

Já conheço as tuas manhas

Não me venhas enganar.

 

Não sei se deste
ingénuo esboço de namorico ensaiado a cantar com quadras populares onde a
poesia sempre, mais ou menos mora, saiu alguma coisa mais do que a prova
evidente da anedota que se contava naqueles tempos de namoros à antiga.

-- O que faz um “magalinha” debaixo da janela?

-- Namora a sopeira!...

 

Não sei, nem é preciso saber!

 

Sei que quase todos os rapazes que então faziam a tropa como soldados eram trabalhadores rurais.
Eram homens como esses outros que naqueles anos de 1852 a 1913 – que foi quando viveu o

Conde de Monsaraz -- o inspiraram.

Assim nos deixou recortadas na sua poesia parnasiana figuras, situações e paisagens que são de
todos os tempos aqui no Alentejo. Senão vejamos títulos de poemas seus:

. “As mondadeiras”

.. “o semeador”

.. “o cavador”

..”no monte”

.”os bois”   , etc etc.

 

Vou ler por exemplo o cavador:

 

Sol-posto. Enxada ao ombro, para aldeia

Volta da cava, taciturno e lento,

O velho cavador. No espaço anseia.

Uma angústia febril, na ânsia do vento...

Vem morto de fadiga e sofrimento;

Cai na vasta paisagem que o rodeia

Frio e noite; Vão dar-lhe paz e alento

A mulher andrajosa e a magra ceia:

           

Comem ambos agora ao pé do lume...

Toda a sua ventura se resume

Na comunhão dessa hora benfazeja.

          

A mulher, finda a ceia, num conforto,

“ Louvado seja Deus”, murmura, e absorto,

Responde o cavador: “ Louvado seja!”       

           

Claro que não vou aqui prender-me com explicações sobre Parnaso – que era afinal

um monte da Antiga Grécia consagrado a Apolo e ás musas.

Todos mais ou menos têm ideia de que as musas eram deusas que sob o mando de

Apolo presidiam às ciências e às artes inspirando os poetas.

De Parnaso deriva a designação de parnasiana dada à poesia que acima de tudo

procurava a perfeição da forma, a descrição correcta. Depois disto, que mais poderia

eu dizer? - Que este movimento surgiu como reacção ao lirismo romântico – que como se deduz o
antecedeu? – Mas, eu sou apenas uma dona de casa – falando para pessoas com
interesses prementes do dia a dia iguais aos meus e portanto só poderia tratar
estes assuntos pela rama – como desde logo preveni.

E, se é verdade que estou aqui para falar de livros isso deve-se apenas –

a ser esse um vício que tenho e frontalmente confesso.

Se para alguém isto parecer doença... melhor fora que se deixe contagiar –

que esta doença não mata...

Um livro lê-se e relê-se todas as vezes que se quiser... um cigarro só se fuma uma vez e
fica a fazer mal todo o tempo que um livro dura – uma vida.

Já li que alguém dissera:

Ler é o mais belo vício do mundo!”

 

Para quê então perdermos a oportunidade de ser um “mais qualquer coisa” – nesta era de
competições?”

 Vou então ler:

 

Tragédia Rústica do Conde de Monsaraz:

 

Quando o sino batia

As doze badaladas do meio-dia,

O trabalho parava.

E todo o bom católico rezava,

De cabeça inclinada e olhos no chão,

Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria,

Com o chapéu na mão.

Logo a seguir comia.

Avidamente, esvaziando o tarro,

O seu magro jantar;

E  estendendo-se ao pé duma azinheira

Petiscava o fuzil na pederneira,

Acendia um cigarro

E punha-se a fumar.

Naquele dia um dos ganhões – o Grenha,

Ao largar o trabalho,

Sem rezar nem comer,

Toma por um atalho,

Que atravessa o montado e que vai ter

À ribeira da Azenha,

Onde lava a Rosária, essa magana,

Que ele ama e que o engana.

 

O dia está soalheiro

E as árvores parece

Que a natureza, que as despiu primeiro,

Agora tem dó e as aquece.

 

Pelas terras lavradas,

À cata das minhocas indolentes,

Saltam subtis, contentes,

Debicando, as arvéolas delicadas.

 

Do azul sereno sobre os olivais

Caprichosas revoadas

De tordos zorzais.

Baixam, de quando em quando,

Famintos, à procura

Da azeitona madura.

 

O Grenha vai nervosamente andando,

Sem saber ao que vai:

Vai, porque se não for

Falta-lhe o ar, e o coração no peito

Rebenta-lhe de dor.

 

--- “O mal que esta maluca me tem feito

Para me desgraçar!

Como um cachorro andei-lhe sempre ao jeito.

Que eu não via outra luz,

Nem tinha outro pensar...

Engana-me e despreza-me e – Jesus! –

Talvez que eu vá morrer numa cadeia,

Mas há-de-mo pagar!”

 

A ribeira vai cheia,

Nos penhascos do açude,

Choram as quedas d’água

Alguma oculta mágoa

Num choro aflito e rude.

Enche os campos de paz e de saúde

O sol, que alegra os choupos e as sobreiras,

E aquece os braços hirtos

Das faias altaneiras

Que, entre moitas de loendros

E grandes tufos de juncais e mirtos,

À margem se perfilam das ribeiras.

 

Em parte alguma vejo

Dias lindos como estes do Alentejo!

Que frescura, que graça, que abundância!

Enche a gente os pulmões de ar puro e leve,

Contemplando a distância,

Nos largos horizontes,

A crista azul das rochas e dos montes.

 

Mas todo o sol que em jorros

A natureza inunda,

Entre nuvens se apaga

Na alma do ganhão

Onde erra, vagabunda,

Ao vento e à chuva duma noite aziaga,

Como um pássaro bêbado, a razão!

 

Junto ao pego da Enguia,

Braços
nus, chapinhando

À flor da água corrente,

Numa clara alegria.

Que a voz confirma e o rosto não desmente,

Lava
a roupa cantando

A Rosária, e ao vê-la,

Ninguém parece mais feliz do que ela.

 

É uma forte e guapa mocetona:

Morena, tranças pretas,

Olhos cor de azeitona,

Travessos, sobre a boca apetitosa,

Negro par de cativas borboletas

Quase a poisar nas folhas duma rosa,

Amplos quadris e os peitos,

Fartos
de andar sujeitos

Num comprimido arfar,

Lembram, sob as roupinhas entreabertas,

Duas lebres elásticas, espertas

E prestes a saltar!

 

E canta:

“Não há pecado

Que não tenha absolvição;

As
nódoas na roupa branca

Vão-se com água e sabão…

 

Quando me abraças de noite,

Os teus braços, meu amor,

Se os abres eu sinto frio,

Se os fechas tenho calor!”.

 

-- “E o diabo ainda o confessa!”

Ruge a tremer o Grenha.

Ela volta a cabeça

E ao vê-lo descomposto, a voz rouquenha,

O olhar ferindo lume

De raiva e de ciúme,

Pálido, atrás das silvas, indignada.

Batendo a roupa donde a espuma salta,

Murmura: --“ Inda outra vez este marmanjo!

Não me larga… É demais! Eu já te arranjo!”

E canta em voz mais alta:

 

Eu tenho-te ódio de morte;

Mas rezo-te um Padre-Nosso

Se te atirares ao pego

Com uma pedra ao pescoço.

 

“O meu rapaz é valente,

Olha lá se o descompões…

Nossa Senhora me livre

De malteses e ganhões.”

 

O Grenha cerra os punhos, range os dentes,

É um homem perdido,

Corre doido. Entrementes,

Rosaria  põe -se em pé e ameaçadora

Diz-lhe: --“ Toma sentido,

Deixa-me, vai-te embora…

Olha que eu grito!”-

-Grita alma danada! –

 

Ruge o feroz Grenha. --- Não há nada

Que nos possa salvar. Agora és minha,

De mais ninguém!” E agarrando-a com força,

Como um lobo a cevar-se numa corça,

Aperta-a, morde-a bestialmente, e ela

Luta, procura desprender-se, brame

Num desespero horrível, braço a braço,

Peito a peito, espumante… Mas o infame,

Sentindo-lhe o cansaço,

Num derradeiro impulso hercúleo, cego,

Ergue-a e atira-se com ela ao pego.

………………………………………….

 

É sol-posto. Os montados

Carregam-se de sombra. A tarde esfria.

Vão, lentamente, recolhendo os gados.

No religioso declinar do dia

Tomam as coisas lúgubres aspectos,,

E à vaga meia-luz

Contorcem-se no ar os esqueletos

Dos arvoredos nus.

Soam pelos atalhos

Cães a ladrar, balidos e chocalhos

Num concerto monótono de ruídos,

Que entre as formas, as cores, os aromas

E a paz da natureza,

Enchem de unção lânguida tristeza

A alma e os sentidos.

…........................................................

 

Na Ribeira da Azenha,

À flor do pego, unidos e pasmados,

Bóiam dois corpos hirtos, agarrados:

É a Rosária e o Grenha.

 

…..................................

 

Como se vê um poema pode tratar de um qualquer assunto. Pode contar uma triste
história de amor como este. Pode falar de coisas completamente diversas.

Um poema, um artigo de jornal, um livro são um desafio à nossa curiosidade
saudável. Ao nosso interesse pela vida, pelo mundo.

Porquê então tanta cerimónia para tocar um livro, lê-lo, entendê-lo, quase me apetece
dizer: - prová-lo ?

Porquê?

Quando o Michel aparece na televisão com uma receita nova – está apenas propondo que
se tratem de maneira diferente materiais que conhecemos – que são o pão-nosso
de cada dia. No entanto as pessoas tentam-se, experimentam, imaginam,
interessam-se: -- a que saberá?

--
Que gosto terá? – E querem provar!

Afinal o pensamento da gente também precisa ser confortado com ideias novas, emoções
diferentes. – Isto é verdade!

Um livro propõe sempre – tenta sempre também uma maneira nova de tratar, de olhar
a vida de cada dia.

Escolhê-lo também pode divertir, emocionar, fazer pensar: -- Como será? – Gostarei? Com
que se poderá comparar?

É como provar um tempero novo, doce? Amargo? Picante? Estranho?

Nos Açores a minha “empregada e amiga” dizia sempre referindo a pimenta em grão:
Pimenta do Reino.

E, ou fosse pela novidade da designação ou pelo mar que nos cingia,
agora encontro naquelas bolinhas pretas e feias que deixam na comida um vago

perfume e um sabor picante uma sugestão de caravelas, descobrimentos, mistérios da
Índia, naufrágios, piratas e aventuras. Até acho que perfumam mais e picam menos…

Bem!
Em poesia isto não seria parnasiano.

Fantasiar tudo isto sobre a realidade prosaica que é ter numa cozinha um punhado de grãos
de pimenta – é muita imaginação? Romantismo?

Admitindo que sim! – o que será então ter uma posta de bacalhau que não chega para uma
pessoa e transforma-la num farto almoço para seis, fazendo-a aparecer na mesa
como fofas pataniscas a rodear a travessa de feijão frade cozido que até parece
um salão de festas em dia de Carnaval – tão salpicadinho vai com o último ovo
que havia em casa, mais a salsinha verde e a cebola branca e transparente ?

Ah!
Isso é saber cuidar da família? É ser dona de casa?

Confessemos nesse caso que não há, hoje, nada para que seja preciso ter mais romântica
imaginação?

 

 

 

 Maria José Rijo

 

 

Ponto de Partida - V Emissão

.

Se por feliz acaso tive a sorte de ter algum ouvinte que me escutasse e, se por mais
feliz acaso ainda, esse ouvinte estivesse interessado em entender-me penso que
poderia perguntar: - mas, afinal o que é a Poesia? - Onde está? -tem morada
certa? – o que é ser Poeta ? – o que teria eu para lhe responder ? –

 Umas quadras?

 

Poesia não é gramática,

não requer explicação.

Poesia é sonho da alma,

só a sente o coração.

 

Olhar as aves nos céus

e vê-las  notas de
música

da magistral sinfonia

que foi composta por Deus.

 

Achar que o oiro é palha

que nada vale na vida

e ver a palha como oiro

na campina ressequida,

 

é coisa que não se ensina,

se vive, sente-se somente.

Poeta é como ser mágico

dos sentimentos da gente

 

Ser poeta – como nascer

É tanto obra de Deus

Como é a noite e o dia

Como as estrelas nos céus!

 

Mas, – o que teria adiantado com a resposta? Sei lá!

 -- então de recorrer a Sebastião da Gama,
vá de citar dos seus “apontamentos
sobre poesia social no Séc. XIX as páginas 145, 146, 147.

“Bem se sabe da
poesia que é indefinível que é inapreensível, que é feita da mesma incógnita
matéria dos deuses. Lê-se um poema ou colhe-se um lírio ou sorri-nos uma
criança – e nós sentimos Poesia. Mas colher um lírio, é colher um lírio - é ter
mãos e ter lírios, coisas banalíssimas. Sorrir-nos uma criança, é sorrir-nos
uma criança e podia chorar que não seria isso menos natural.

No entanto… Lemos um poema, bem rimado, bem ritmado, com uma imagística fulgurante e

mais uma porção de predicados poéticos e logo o condenamos ou o exaltamos pela

falta ou pela presença de Poesia. Se nos perguntarem onde ela está, ou por que sinal

vemos que não está, não saberíamos explicar. Então que presença misteriosa é essa,
como se revela, como existe? Por mim furto-me à resposta.

Não venham também perguntar-me com que sentido me é dado apreender a Poesia -

só lhes digo que não é com nenhum dos cinco…

Creio que está decadente o critério que dava como Poesia tudo quanto fosse escrito em verso.

Para aplaudir ou desejar essa decadência não é preciso mais do que fazer o sacrifício de ler as
mil e uma festejadas habilidades métricas que ao longo dos séculos se foram
escrevendo – e que deram, por conta do dito critério, o nome de Poetas a quem
as traçou. Falta aí o tal misterioso quide sem o qual nada feito…

 Isto não quer dizer de modo nenhum que se não
tente exprimir ou captar pelo verso a Poesia. Acho que o verso não é um vaso,
um molde, uma carne em que a Poesia tome forma como geralmente se pensa: é uma
espécie de laço, armado pela manha do Poeta, a ver se a Poesia, incauta, vem ao
chamamento: ou um rito, uma invocação que a faça descer. Esta manha ou este
canto de sereia, ou pela invocação é que tomam formas, não a Poesia. O poeta
não tem à mão senão as palavras; joga com elas de modo a lisonjear a Poesia
naquelas qualidades divinas que lhe pressente.

E como pressente que a poesia é bela e é musical, tenta imprimir beleza e

musicalidade ao barro humano das palavras.

Temos portanto e resumindo que o verso não é ele próprio a Poesia, nem o vaso que a
contem, mas a maneira de captá-la.

 

Se, como diz Sebastião da Gama, o verso é uma
maneira de captar a poesia – o que poderemos nós concluir senão que a poesia
nasce e canta livre?

 

Assim sendo já estou em boa companhia para repetir o que outro dia aqui disse:

Poesia é também uma maneira de estar na vida. A sua talvez, quando aí na rua das
Parreiras, num beco ou na rua das Beatas cria beleza com o asseio e o apuro do
seu poial e das ombreiras caiadas com desvelo.

A sua, que chega a casa com os pés inchados, desfeita por um dia de trabalho que a sua
saúde mal suporta, e, antes de descalçar os sapatos que a crucificam, antes de
se atirar para a sua cadeirinha do costume, ou para cima da cama que, como ela
já sabe de cor o peso do seu cansaço – vai – antes de tudo – antes de si dar
uma sede de água à sempre-flor mais à malva rosa ou ao carrasquinho que pendem
de folhinha murcha (Que o nosso verão é lume!) da parede onde se incrusta a sua
porta!

 

Olhe que ser poeta
– também pode ser isso!

Nunca o pensou?

 

Alguém me alertou outro dia que esta emissão seria, talvez, mais escutada pelas

pessoas de fora da cidade.

Se assim for, serei eu capaz de falar de poesia a quem a vive, a traz dentro de si e,

acha isso tão simples, tão natural que nem de tal se apercebe?

 

No entanto sinto que é isso que terei que fazer!

 

Terei que bater à sua porta.

Terei que me sentar à roda do seu lume na grande chaminé da cozinha.

Terei que a ver lidar na casa, com gestos seguros, como quem cumpre ritos

duma milenária religião!...

Terei que comer castanhas ou bolotas assadas na cinza quente incrustada de brazinhas miúdas...

Terei que beber do seu café gostoso que está sempre pronto ao rés do lume na cafeteira de barro
coroado pelo testo...

Seu marido se entrar puxará da navalha luzidia para fazer piogas com meias bolotas e paus de
fósforo para as crianças que houver (como já a seu pai e seu Avô vira fazer) e
ficarão rindo a faze-las dançar sobre a mesa da cozinha... Mas ficará ouvindo o
que se diz embora finja desinteresse...

Se lhe perguntassem como é – diria apenas: “conversas de mulheres!”

Eu provarei se for altura disso – das suas tenras broinhas, ou biscoitos

perfumados de erva-doce... Sentir dentro de
mim que você faz tudo isso naturalmente com simplicidade e amor – poeticamente
e, no entanto se eu lho dissesse – você riria... E, eu não digo. Penso e calo.

 

Perguntarei apenas fixando-me nas coisas práticas: como é a receita das broinhas?

ou dos biscoitos e ... Ouvirei da sua segurança sábia a resposta:

Tanto de açúcar

Tanto de ovos

Tanto de banha

Tanto de farinha, de leite, de fermento.

A erva-doce é a gosto!

Rematará sentenciosa.

 

Perfume a gosto pensarei eu – mas calo!

Que achei no pormenor uma certa poesia!

 

Você disse tudo de cor – porque até – se calhar – nem sabe ler! Mas.

Irá falar-me do caderno antigo que vai buscar para eu ver – e era de sua mãe ou mais antigo
ainda... – o caderno de papel grosso e áspero onde alguém apontou todas as
receitas que você sabe de cor... Desde a massa das azevias ao recheio – aos
nógados... enxovalhadas... biscoitos... queijadas...

 

Irá buscar o caderno que dormiu anos a fio por inútil na cimalha da chaminé bem ao
cantinho onde uma goteira à traição o ensopou e fez dele o borrão ilegível –
duplamente inútil – porque você não o leu e ninguém mais o lerá – e ambas o
olharemos consternadas...

 

Então uma confusa sensação a comandará sem que nada a contenha e você dirá: guardo-o na
mesma! – Sim cum’assim nunca o li – mas tenho-o desde mocinha!... Era da minha
mãe!... – E guardará o caderno soltando o fundo suspiro que entretanto lhe
sufocará o peito!

E, repetirá evocando:

Desde mocinha!

E ficará a recordar...

 

Se entretanto eu a interrompesse dizendo:-“Que Poesia! Na sua saudade!”

O seu rosto iria animar-se com um arzinho de troça e você responderia sincera e veemente:

Poesia?! – nã Senhora !

Mas... Eu não a acordo – não! – Embarco no seu suspiro e digo baixinho:

 

 

 

(Balada da infância)

           

Ai, mundo da infância,

como cabes neste mundo?

Ai promessas,

desejos que é bom não cumprir!

Ai anseios vagos de raro sabor...

Como a vida a cumprir-vos

Vos rouba o valor!...

 

…Eu lembro-me ainda!

E como esquecer o mundo das gavetas,

Proibido mexer!

As malas da Avozinha e das Tias,

Que só elas abriam …e em certos dias!...

 

Ai, encantos meus!

Retalhos de seus encantos…

Que punham cobiça em meus olhos

E nos seus névoas de pranto!...

Bocadinhos de tecidos,

Recordações de bordados

De vestidos e arrebiques

De bodas e baptizados!...

Ai, tremuras dessas mãos

Tão velhinhas e tão queridas!...

Ao abrirem as caixinhas,

Onde dormiam as chaves ,

Dos caixões das falecidas!...

 

Ai, poemas de saudade,

Em palavras tão singelas!...

 

-- “Vês isto aqui minha filha?

“Este caracol tão loirinho?

Era de teu tio-avô, meu irmão,

O que está neste retrato…

Morreu muito pequenino,..

Coitadinho!..

Coitadinho!...

 

(Dizia a avó bondosa
repor o medalhão,

entre as dobras de algum fato)

Grande mundo das caixinhas,

Sempre fechadas!...

 

Algumas que se abriam a meu pedido

Tinham missangas, continhas,

Flores secas e plumas,

Restos de sonhos vividos

Que tinham sempre uma história,

Que eu escutava toda ouvidos!

 

- “Isto aqui...  

 

(Quanta saudade

Havia em seu recordar!...)

“ – É um pouco de cambraia

“ Que sobrou das camisinhas

“Do enxoval do teu Pai,

“E foram feitas da saia

“Do vestido que eu levei

“Na primeira Comunhão!

“ Recordo tanto esse dia!...

“Quando voltamos para casa,

“ Vinha eu entre os meus pais

“ E a ambos dava a mão!

 

-- E esta fita tão linda?

 

-- Não lhe toques, deixa estar!

 

(E uma nova emoção assomava ao seu
olhar!...)

 

–“ Foi a última que usou

“Antes de ir para noviça

“A minha amiga de infância,

“Minha prima, a Clarinha,

“Que chegou a ser superiora

“ No convento onde morreu

“E do qual era padroeira

“ A Virgem nossa Senhora!

 

-- E isto aqui, o que tem?

 

(Logo a avó com carinho,

Desmanchava para eu ver

Um embrulho feito em linho

não fosse a traça comê-lo.)

 

--“ É a trança do seu cabelo!...

-- Vês querida, como era belo?!...

…………………………………….

E enquanto febril extasiada,

Eu me quedava a sonhar…

A avó fechava a mala,

Com religioso carinho;

E ás vezes, no outro dia,

Inda no ar se sentia

Um cheiro muito suave

De alfazema e rosmaninho!...

 

Foi essa mala tesoiro,

Foram caixas e retalhos,

Foram pontinhas de rendas,

Foram retratos e prendas

Dos noivos das minhas Tias,

(De minhas Tias solteiras,)

Foram leques, pedrarias,

Restos de sonhos sonhados,

Que a morte fez em bocados,

Que geraram, bem o sei,

Os primeiros sonhos que tive,

Os mais lindos que sonhei.!...

 …………………………….

 

Minha avozinha morreu…

Não mais mexe em suas malas,

Agora… mexo-lhes eu!...

                

                    Maria José Rijo                                             

 [MªJosé-19anos.jpg]

 

 

Penso que você, assim, saberá que os
seus suspiros de saudade, como as flores da sua porta podem ser sentidos como
versos dum poema como mensagem de beleza de um coração para outros corações.

 

 

    Maria José Rijo

 

 

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