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Rescaldo ... O São Mateus já lá vai ...

Segunda-feira, 30.09.19
JORNAL LINHAS DE ELVAS
CONVERSAS SOLTAS
Nº 2.628 – 19-Outubro-2001

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O São Mateus já lá vai. Agora, só para o ano.

Perdeu-se o jeito de referir - a Romaria de Nosso Senhor da Piedade .

Perdeu-se, e – é pena. Porque a feira, nasceu a reboque dela. Da tal romaria que começou a acontecer antes de Maio de 1737 que foi, a data em que se fez a ermida.

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A romaria, essa, surgiu quando “o Beneficiado Manoel Antunes, que ali tinha uma horta (refere-se a Horta dos Passarinhos) mandou fazer uma cruz nova e um pintor lhe pintou um Senhor. Começaram a dizer que fazia milagres, e por ser perto da cidade a ir lá muita gente, e dar esmolas, de que se fez a ermida”( excerto, com ortografia actualizada, do diário de João  de Quental Lobo   ) 

Pena, pesar, como dizem os açorianos, que se perca o fio da meada.

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Porque, se não fora essa circunstância, apesar da evolução própria dos tempos, sempre havia de persistir bem evidente, ressaltando por cima de tudo a feição de nascença das nossas festas. Alem das cerimónias religiosas A romaria com seus bailes e cantares populares, suas manifestações de fé e de alegria em honra de Nosso Senhor Jesus da Piedade. 

Mas, não é assim que caminha a vida...

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Os altifalantes, os carrosséis, o barulho infernal, tomaram conta do espaço.

As bandas, já não dão mais concertos nos coretos, não se ouvem as pandeiretas das camponesas e as filas de cadeiras onde o povo se sentava conversando, escutando a música e esperando o fogo, deram lugar a barracas e mais barracas.

Não se preserva o mínimo espaço para salvar o clima de romaria tão especial, tão repassado de fé que está na origem dos festejos.

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Tudo é absorvido pela feira igual a quantas feiras se fazem de norte a sul do país, igualmente ruidosas, cheias de bagatelas coloridas, algodão doce. Torrão, pechisbeque...

As feiras têm indiscutivelmente o seu fascínio, mas, são o complemento, o acessório profano que vem, como neste caso, no rasto da força motriz, do acontecimento principal que foi, desde o inicio, o milagre e a consequente romaria.

Mas, as minhas mágoas, não ficam por aqui. E para que fiquem escritas, enumero , pelo menos, algumas.

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Todas as terras, têm seus encantos particulares; seus mistérios, seus segredos, Elvas, tinha pequenos tesouros, como flores raras dispersas por aqui e acolá.

Uma gracinha que eu costumava apontar aos visitantes e ,(  sempre fazia sucesso) era um pequeno portão trabalhado em ferro, que rematava uma escadinha que fazia o acesso ao olival que, noutros tempos, povoava o cabeço que delimita o espaço da Igreja de Nosso Senhor Jesus da Piedade.

Era um portãozinho pintado de verde, estilo arte nova, onde as iniciais do dono da propriedade, semi deitadas, faziam parte, como ornamento, do delicado desenho.

Era uma pequena obra de arte.

Também isso se sumiu.

Foi na voragem que delapidou as árvores, frondosas algumas, que ladeavam os pequenos trajectos que ainda existiam das estradas rurais que mantinham o carisma daqueles lugares.

Havia um telurismo latente naquele caminho de peregrinos.

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Talvez, eu morra sem entender qual é a necessidade de se chegar ao Santuário em velocidade de rally...

Talvez eu não entenda jamais porque não se preservaram aqueles escassos metros de caminho antigo que poderiam ter sido embelezados, mas, nunca despojados das suas árvores!

Coitadas, podadas como tinham sido... a muitas delas tinha acontecido o mesmo que, àquelas outras, frondosas, centenários, que se encostavam ao Aqueduto, antecedendo as que guarneciam a estrada fazendo alas para todos os elvenses no seu caminhar para a última morada.

Algumas, já mortas, ainda por lá, permanecem de pé, como espectros, lembrando aos homens a sua ingratidão...

Confesso que não entendo. Confesso.

Mas: - uma coisa entendo eu. É que as opiniões divergem.

Não serão umas, nem melhores, nem piores, do que outras, serão, apenas, diferentes.

E também sei, o tempo mo ensinou, que a idade dá outra perspectiva das coisas, e ensina-nos a valorizar pormenores que quando ainda se tem toda a vida pela frente, nos parecem, por vezes, insignificantes.

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Valha-nos isso. Pelo menos, esse mérito, a velhice tem!

Junta lembranças, guarda memórias, evoca minúcias, e ergue a história das pessoas, das coisas, dos lugares...

De algumas recordações, sempre nos haveremos de orgulhar. Por outras sofreremos sem remédio com um travo amargo de saudade.

E...assim nascem as sagas dos povos...

 

Maria  JoséRijo

 

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O último São Mateus

Domingo, 29.09.19
JORNAL LINHAS DE ELVAS
CONVERSAS SOLTAS
Nº 2.676 - 20 –Setembro - 2002

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Pode parecer estranho este título!

Pode! Mas não é.

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Este é o último São Mateus em que o Parque da Piedade goza dos restos do seu enquadramento tradicional.

Ainda não há muitos anos, as oliveiras vicejavam no cabeço sobranceiro ao muro, que suporta as terras da encosta do pequeno monte, e cria o espaço para a perspectiva mais larga do olhar sobre o templo do Senhor Jesus da Piedade.

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Para um lado e para outro, do largo que acrescenta o adro, seguiam-se lances curtos de caminho rústico ladeado de velhas árvores que davam ao Santuário a envolvência de paz que a Natureza misericordiosa oferecia ao romeiro que chegasse.

Sentia-se uma espécie de abraço à aproximação do recinto, quer vindo da cidade, quer vindo da estrada de Lisboa.

Aquele enquadramento natural delimitava um mundo, dentro de outro mundo.

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Formava-se ali, como que um recatado oásis de fé.

Por um lado, beiravam o percurso- Quintas com história.

Por outro, o começo da própria história da origem do Santuário, com a Quinta dos Passarinhos, que fora pertença do Beneficiado Manuel Antunes que ao colocar por gratidão uma cruz, no local onde caiu da sua montada e invocar a Deus para que lhe valesse, deu origem ao culto do Senhor Jesus da Piedade.

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Sob a protecção das oliveiras, como as de Jesus no Horto, acamparam ao longo de séculos, gerações e gerações de peregrinos no pequeno monte sobranceiro ao local, e em seu redor.

Correram os tempos, passaram os anos, e tudo foi mudando.

Mansamente, foi-se fazendo a adaptação às novas exigências do progresso e dos costumes.

Porém, parece-me, nem sempre o bom senso moderou as decisões que se foram tomando.

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“Quinta do Bispo”- penso que agora já todos estarão de acordo: - foi sacrificada, sem honra nem glória, para dar lugar àquilo que todos podem ver...e, abriu caminho, desaparecendo, ao que já se pode avaliar, e se desenha a passos largos:

Embeber o Santuário na desenfreada urbanização que já ameaça o seu nobre isolamento.

Não sou contra o progresso, (como é obvio) só não posso confundir, e não confundo construção desenfreada, delapidação da memória dum povo, com progresso!

(É meu Mestre o Arquitecto Ribeiro Telles!)

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E sinto e penso com convicção que, assim como numa relação de Amor entre pessoas, também a relação de Amor entre gentes e cidades e locais têm os seus mistérios, os seus fluidos, o seu espírito, como que uma espécie de resplendor de alma criada pela seu próprio historial que é preciso não destruir; a troco de igualizar, o que era distinto, tornar vulgar o que era ímpar, abandalhar o que era nobre e único.

E, não me venham dizer que falo de utopias, sonhos irrealizáveis, e todo o mais que vos aprouver.

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Quando eu contrapus -  á ideia de se fazer do Forte de Santa Luzia uma Pousada - o projecto que depois foi adoptado, - muito comentário parecido foi proferido...

E, porque o Dr. João Carpinteiro, nele acreditou, o Senhor Professor Miguel Baena, que com o Sr. Arquitecto Leite Rio e Sr. Arquitecto Pedroso Lima, propuseram-se fazer o projecto que, por acaso, até foi presente ao senhor Presidente da Republica, na presidência aberta em Elvas, o sonho triunfou.

Estávamos em 6 Março de 1989 quando chegou o primeiro orçamento cuja cópia tenho em mãos ao recordar estes factos.

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Às vezes “acreditando em utopias”, como se vê pelo êxito da obra do Forte, consegue-se preservar o tal fluido que como um milagre segura nos locais os rastos da história... A memória dos tempos...a alma das gentes...

Assim tivesse sido com a Quinta do Bispo e, tantas coisas mais que essa “lástima” precederam e outras, que por môr dela, irão sucedendo, nunca aconteceriam, o que era, sem dúvida, um Bem para todos.

  Maria José Rijo

 

 

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Balanço ... - São Mateus 2011

Sábado, 28.09.19
Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 3.142 -- 29 Setembro de 2011  

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Aqueles a quem o tempo tem permitido vidas extensas, nalgum dia mais carregado de recordações, hão-de dizer, nem que seja no segredo dos seus corações plenos de memórias, aquela quadra popular, tão verdadeira, que retrata sem disfarces as vicissitudes dos caminhos de viver

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Quem eu era, e quem eu sou

Até parece mentira!

O tempo é que tudo dá

O tempo e que tudo tira

Aceita-se como inevitável que as mudanças sejam elas quais forem, são sempre, nas vidas humanas  como as estações do ano.

Mais alegre ou mais chuvosa, há sempre uma Primavera e, na sua sequência um Verão, um Outono e um Inverno numa cadência de dias e noites que invariavelmente se sucedem indiferentes a quem os viva.

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Não pode o homem sequestrar o tempo nem traçar com certeza o seu percurso.

Sonha, luta, cria, mas é-lhe intrínseco o saber que cada passo mais no seu caminho é sempre um passo menos para atingir a meta porque tudo o que começa tem um fim.

Outros que o seguem, levantam, ou não, do pó, os testemunhos e prosseguem que a estrada da vida é sempre em frente e não para.

Estamos em 2.011. “Desde Maio de 1737 ano em que se fez a hirmida de N.Sºr da Piedade”-

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quantas gerações de crentes com a sua fé já sacralizaram estes caminhos que conduzem aqui ao Santuário do Senhor Jesus da Piedade, onde a romaria traz, de longe, todos os anos, milhares de fieis para rezar neste “altar de cada dia” da nossa cidade.

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Percorro pelos caminhos da memória, estes mesmos caminhos onde soavam as guizeiras de cavalos, carroças e trens e agora chiam pneus.

Aviva-se-me na lembrança o cheiro delicioso da fruta nas bancas

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onde os perinhos vermelhos e doces que se seguiam às escadas, paus de varejo e canastras para apanho de azeitona se enfileiravam antes do começo da avenida .

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Ouvia-se falar de searas, moios, de sementes, contratos de trabalho, cabeças de gados…

Passeavam de braços dados os noivos com seus fatos de casamento.

Elas de branco com os véus arrojando encardidos pela poeira do chão.

Eles engravatados, solenes, lenço no bolso de peito do paletó preto, cravo na botoeira.

Os convidados seguiam-nos em cortejo.

Tocavam as bandas nos coretos. Cadeiras articuladas de ferro, arrumadas em frente, do outro lado da avenida convidavam a uma pausa para apreciar o concerto.

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Grupos de camponesas marcavam a alegria das suas presenças, cantando e dançando as saias ao som do toque de castanholas e pandeiretas. Havia circo, poço da morte, barracas de tiro, de sinas, algodão doce, fantoches …

Nunca faltavam as barracas de torrão…

Havia a “caseta”, onde se dançava, ao fundo, junto à “Bétola”que também mudou seu nome.

Os hábitos alteram-se, que os tempos mudam. Tudo evolui e se moderniza. O que ontem era novidade, hoje é obsoleto.

Havia as tendas dos belos cobres reluzentes…

Havia utensílios de madeira. Mesas de cozinha, berços, cadeiras de fundos de bunho…

Havia o artesanato local, com os tarros, as corrediças de por ao ombro para a linha de fazer meia… havia…havia… havia…

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…Recordações
de quase setenta anos de festas de São Mateus que o tempo, soberano, começa a esvair. Como era…Como foi!

Até parece mentira… Os homens mudam – envelhecem.

Mudam os costumes…as circunstâncias e, no entanto a  Fé persiste e resiste – não muda.

E, através dela, todas as gerações têm encontrado e sempre hão-de encontrar a sua própria maneira de ajoelhar dando graças  ao senhor Jesus da Piedade pelo milagre da vida que nos concede.

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Bendito seja o Senhor Jesus da Piedade!

Ámen!

Maria José Rijo.

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Valha-me o Sr. Jesus da Piedade…

Sexta-feira, 27.09.19
Á Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1877 –  27 de Fevereiro de 1987

Valha-me o Sr. Jesus da Piedade…

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Estão a decorrer as celebrações dos 250 anos da fundação do 
Santuário do Senhor Jesus da Piedade.

Dito assim, parece apenas uma comemoração como tantas mais.

Parece! – Mas é diferente.

O Senhor Jesus da Piedade e Nossa Senhora da Conceição,
são os protectores
celestiais da grande família elvense.
São esperança
e conforto de cada um de nós.

Tudo se lhes pede e confia. Paz, vida, saúde, amor.
E desde a protecção para a carga do “honrado ofício” de
contrabandistas,
até à imunidade dos porcos contra
a peste, tudo se comparticipa com a
sua
divina misericórdia.


Deles porém, tudo se aceita!

“Graças ao Senhor da Piedade – aconteceu…”
“A Senhora da Conceição fez o milagre…”
Ou:
- “O Senhor não quis…” – “A Senhora não poude…”
temos de ter paciência!

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O senhor da Piedade e a Senhora da Conceição são Pai e Mãe –
Esperança e Guias.


As suas igrejas caiadas, sem as pompas das pesadas e nobres
catedrais convidam à intimidade familiar.

São bem a casa onde não nos constrangem os fatos de trabalho,
o sacho debaixo do braço, o xaile velho, a bota enlameada, a
roupa do dia a dia, o sapato cambado.

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E se este amor confiante, este passar à porta e entrar,
esta “obrigação” de ir lá fazer o sinal da cruz ou depois
do passeio domingueiro na tarde de sol, se isto –
não é sinal de fé –

de fé espontânea, verdadeira e irresistível…
então valha-me o Senhor da Piedade – que eu sei o que é.

Maria José Rijo

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Elvas - Setembro de 2012

Quinta-feira, 26.09.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 3.193 -- 20 Setembro de 2012
CONVERSAS SOLTAS

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Já se engalanou o parque do Senhor Jesus da Piedade. A feira de São Mateus está aí a bater-nos à porta.

Já a Igreja está debruada de pequenas luzes para que nada ofusque a sua silhueta mesmo no fulgor dos arraiais com o resplendor dos fogos-de-artifício...

Já a população espreita, curiosa para avaliar se tudo está ainda mais bonito do que em anos anteriores. 

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Já se respira a festa.

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Já se agitam inquietos os corações antevendo as alegrias dos ansiados reencontros…

Gosto do São Mateus – melhor dizendo: - gosto desta época de dias já mais curtos, mas ainda de tardes luminosas suaves e doces escondendo, como enganosas palavras de amor, as noites já fresquinhas com que nos surpreende...

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Gosto desta “rentrée” da nossa região onde já se preparam as actividades de Inverno, mas ainda cheira a Verão e, todos já regressaram da diáspora de férias por praias e países…

Gosto dos abraços dos reencontros nos acasos dos arraiais onde os olhos procuram famintos rostos de amigos emigrados, espalhados pelo mundo, que não se esquecem, se guardam nos corações, e que, cada São Mateus traz de volta à terra como num segundo Natal…

Gosto da procissão dos Pendões, que dá início às festividades religiosas

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Solene, longa, arrastada como uma dura e pesada penitência.

Gosto! Gosto! Gosto!…

Gosto desta Elvas a que as fortalezas militares deram, desde sempre, um cunho particular, onde sucessivas gerações de crianças brincaram ensaiando a descoberta da coragem a explorar fortes e contraminas à luz tremelicante de velas, mascarando o medo com risos e bravadas…

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Onde as ruas estreitas e tortuosas apertadas no cincho das muralhas do castro antigo obrigaram as casas a subir estreitas e magras como plantas famintas de luz., até que, rompendo o cerco se espraiaram, desorganizadas, por vezes, como um exército, sem comando arrasando as quintas e hortas que  abraçavam a cidade, com seus férteis vergeis.

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Mas…se muito mudou no bom e no menos bom -  Elvas permaneceu  intacta na fé com que celebra o incondicional amor que devota ao seu Patrono o Senhor Jesus da Piedade, onde  cada peregrino que  O visita, nunca vem só.

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Cada peregrino que a seus pés ajoelha traz no coração, em saudade ou em esperança a memória de quantos amou ou ama e, assim se ata passado e futuro de geração em geração nesse culto de fé que a todos põe na boca o voto de confiança que abriga na alma e o faz cantar em seu louvor

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Senhor Jesus da Piedade

Luz da Luz,

Deus Verdadeiro     

Olha aos pés da Tua Cruz

       Agrupado um povo inteiro    

Maria José Rijo    

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O São Mateus e as vozes ...

Quarta-feira, 25.09.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.986 ---18 de Setembro de 2008
Conversas Soltas

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A procissão dos Pendões é longa...longa...longa...

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Repete-se na sucessão dos tempos.
Começou há séculos, talvez... e, ainda hoje serpenteia pelas ruas da cidade, em filas de gente, desde a antiga Sé, até ao Senhor Jesus da Piedade.

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Às vezes é tão extensa que se cuida que ainda está a começar na Praça quando já está abraçando - a rezar - o Santuário.
A procissão dos pendões é 'a maior oração colectiva' do povo do Alentejo e redondezas, a Deus Pai, Nosso Senhor.

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Na abertura das festas de São Mateus, fica visível para naturais e forasteiros - na forma de procissão - mas, durante o resto do ano ela está,- como uma reza, que é - recolhida, mas viva, no coração de todos nós, como a fé que a sustenta.

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Depois, quando Setembro chega, quando chega o seu dia, de sair à rua, não há elvense que não solte da sua alma a lembrança de quem amou ou estimou e a deixe assomar aos olhos nem que seja numa lágrima furtiva que um qualquer sorriso sempre pode encobrir e o faz acender uma vela, a vela - a simbólica chama - da sua fé a arder, a aquecer-lhe a alma ao longo da vida.

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Setembro traz mais nítidos os cortejos das lembranças.
Traz as imagens dos Irmãos da Confraria em aprumo de gala nas funções das Festas representados, hoje, pelos que antes o fizeram, em sucessivas gerações, através dos tempos...

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Cada um de nós recorda quem conheceu mais de perto.
O Doutor Pires Antunes - Humanista de fé inquebrantável.
Mestre Laranjo - Homem de honra e brio - artista de alto gabarito, talvez, para mim, os mais emblemáticos com quem convivi.

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Para outros, outros serão, e, assim, lá permanecerão todos onde nunca faltaram e, agora os coloca a nossa lembrança.

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De pé, contornando o altar, suas sombras projectadas pelas luzes, sobre os panejamentos de damasco vermelho, como sempre.

O Hino, no vigor do canto, estremecendo o espaço, saindo porta fora - arraial a dentro - até se perder na confusão das vozes, no estralar do foguetório...

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Mas, hoje venho sentar a esta mesa, de comunhão na saudade, a lembrança se 'uma voz' que não estará ainda perdida da nossa memória colectiva.

Era por ela, escutando-a, que em todas as casas, pela rádio, se seguia o desenrolar dos acontecimentos festivos.
No seu belo timbre, na sua perfeita dicção, pausadamente contava, contava, contava...e comandava, até, as famílias nas tarefas de última hora:
Já não dá tempo!...
O Catela já disse:
- os Pendões estão a sair...
- ... Ainda é tempo – é sempre tempo - para recordarmos ainda mais, neste São Mateus - João António Catela Nunes, o Amigo de todos e cada um de nós, que foi 'a voz' da sua e nossa cidade até, quase, àquele dia 30/6/ 2004 - em que passou a ser, também para todos nós uma saudade.
A procissão dos Pendões é longa... longa... longa...

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Repete-se na sucessão dos tempos e... prolonga-se e alonga--se como doces ou amargas recordações no segredo dos nossos corações.

Maria José Rijo

 

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Em dia de arraial - São Mateus

Terça-feira, 24.09.19
Jornal o Despertador
Nº 216 – 19 – Setembro – 2007
A Visita – 11

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A entrada na histórica cidade de Elvas, faz-se através de “portas” cuja beleza, se extasia os visitantes, já quase passa despercebida aos naturais, que, de tão afeitos a elas, por elas passam como se fossem transparentes – já nem as vêem – embora não deixem de as olhar.

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Não há porém quem quer que seja que desconheça os seus nomes e a sua localização.

É, até, por referência a elas que se indicam ruas e becos, se evocam lembranças e lugares, se faz a história do dia a dia...

Eu vinha ali “às portas”quando começou a trovoada...

Eu ia saindo “às portas” quando “o” ou “a” encontrei...

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Quando entrei “às portas” pensei: - já estou em casa...

E, não importa quais “portas”; que sendo elas quaisquer, são as da cidade, as nossas, as de casa...

Porém, Elvas, tem, além delas - além destas - duas portas mais, que estão abertas para o céu.

Por elas, entra, sai, e caminha confiante – o Senhor da Piedade no seu Santuário, e, as de Sua Santíssima Mãe – Nossa Senhora – Nossa Senhora da Conceição.

Por Mãe e Filho, Elvas, clama com fé, em todos os actos solenes da sua vida.

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Por Mãe e Filho, procura entrar nos Seus corações...

Um novo elvense nasceu, pais e avós, fazem o caminho para sua apresentação - porque se baptizou - repetem-se os mesmos passos, e, assim, vida fora, tudo que representa amor e esperança, se divide em oração, com a Mãe de Deus, entronizada entre nós, na capelinha sobre a muralha, e com Seu Divino Filho, que até há bem pouco tempo habitava no sossego, dos arredores entre hortas e vergeis.

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A oito de Dezembro, todos, em peso, como agora em Setembro, vamos adorar Seu Divino Filho, à Igreja da Piedade, costumamos adorar a Padroeira de Portugal que da sua pequena ermida como uma sentinela, lá do alto nos protege e vigia, como padroeira da cidade que também é.

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Assim que, hoje, em dia de arraial, quando o Senhor Jesus da Piedade é unanimemente saudado, pensei não deixar esquecida Nossa Senhora da Conceição.

E, para que a saudemos, também, como Mãe de Deus e nossa . Digamos, todos, de coração pleno:

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Senhora da Conceição
Mãe de Misericórdia
Protectora da nossa gente
Vida, doçura, esperança nossa
Nós vos amamos
Salvé! A vós bradamos
Cheios de fé e confiança
Mãe de Deus e nossa Te saudamos:
Salvé Raínha
Salvé Mãe de misericórdia
Mãe de Nosso Senhor Jesus de Piedade
Salvé!

Maria José Rijo

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São Mateus

Segunda-feira, 23.09.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.884 – 21/9/2006
Conversas Soltas

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Todos os meses do ano, são meses das nossas Vidas. Porém,
para qualquer de nós, de entre todos, algum, ou alguns,
ganham especial significado.

São os meses dos nossos aniversários, ou das pessoas que nos são queridas.

Dias de meses vividos em festas de alegria celebrados entre amigos, familiares, companheiros de trabalho. Outras vezes, já só evocados em saudade, no recato da nossa intimidade desfiando orações, partilhando só com Deus, quase em segredo, mistérios de afectos que resistem a ausências de morte.

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São aqueles que falam das datas que marcaram de qualquer forma as nossas existências, ou referem acontecimentos que se tornaram simbólicos nas terras onde nascemos, ou habitamos.

Isto, não referindo, esses outros, que no mundo inteiro se concelebram, como Natais,  Páscoas, e, até alguns de Santos Padroeiros, ou, aquelas datas que evocam catástrofes

que indelevelmente marcaram a história de povos e, a cuja memória de sofrimento a humanidade rende preito de geração em geração.

 O mês de Setembro em Elvas, é, por excelência o mês do coração. 

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O mês do amor, o mês da saudade, o mês das lembranças, o mês do reacender das tradições...

O mês das histórias da nossa história. Da história da cidade e da sua gente.

Das gentes que antes de nós foram, da gente que somos...das gentes que  depois de nós hão-de vir...

Nele se celebram as festas em honra do Senhor Jesus da Piedade.

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Pai do céu, invocado, por todos nós, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, ligando-nos a ELE em todos os actos importantes das nossas Vidas, e, também, nas pequenas agruras de um quotidiano, nem sempre fácil, mas sempre até ao fim dos nossos dias.

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Em Setembro, pelo São Mateus, em seculares tradições que nalguns casos ainda persistem, se marcavam casamentos, baptizados, se contratava pessoal para a lavoura, se apalavravam ou desfaziam contratos de arrendamento de herdades, se comprava gado, se geria o futuro imaginado para cada ano.

Falava-se de moios de trigo, de “decas” de azeite, de jornas e comedorias de maiorais e feitores.

Eram ecos de vozes da terra; que da terra vinha trabalho, pão e sustento.

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Tinha-se prestado atenção cuidada ás “canículas e aos caniculares” que Agosto, como um oráculo fiel, sempre fornecia, para se marcarem sementeiras, depois das águas novas que em Setembro surgiam, como favas contadas.

Começava-se a prestar atenção ao aparecimento da “folhinha” – como era familiarmente denominado o “Borda-d’água”, onde, em cada ano, se colheriam o resto das informações imprescindíveis para bem projectar todas as tarefas dos trabalhos de campo. E, no entretanto aproveitava-se o arraial de São Mateus para confraternizar com romeiros, parentes e amigos, exibir as galas das vestimentas estreadas, que, para cada uma, das três missas, havia farpela nova, como mandava o figurino.

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Á sombra das árvores se faziam os acampamentos. Ficava o cão preso sob o carro de canudo de onde saía desde a tábua de engomar, até ao ferro de brasas e a tudo o mais para organizar a improvisada cozinha de onde emanavam os bons cheiros das boas petisqueiras tradicionais.

Descansavam as muares mastigando palha nas gorpelhas...

Foi assim! - Era assim...

Mudam os tempos. Mudam as modas. Mudam os hábitos.

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Tudo muda. Até o buraco do ozono desmente a verdade- que era indesmentível - das canículas e caniculares.

Porém, em cada Setembro, vindos lá de onde vierem, em dia de Pendões, junto á voz de todos os presentes, há-de ressoar em cada coração como um eco de saudade, a voz dos que já não têm mais do que as nossas vozes cantando:

                                  “Senhor Jesus da Piedade

                                 Luz da luz, Deus verdadeiro 

                                 Olha aos pés da Tua Cruz

                                 Agrupado um povo inteiro.”

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Porque, através  dos tempos, em qualquer tempo, é assim a nossa Gente.

Boas Festas a todos.

Maria José Rijo

 

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Ai Quem me dera ...

Domingo, 22.09.19
Jornal linhas de Elvas
Nº 2.832 – 22 – Setembro 2005
Conversas Soltas

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Há uma quadra que se canta ao Senhor Jesus da Piedade que me encanta e me toca particularmente.

É bem simples e penso que todos elvenses a conhecem de cor.

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O Senhor da Piedade

tem vinte e quatro janelas

quem me dera ser pombinha

para pousar numa delas.

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 Como já escrevo neste jornal há mais de cinquenta anos, é natural até, que por uma ou outra razão já me tenha acontecido citá-la. Mesmo correndo esse risco de me repetir, não resisto a chamá-la de novo à lembrança de todos nós nestas festas do ano 2005.

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É que em boa verdade não sei de maneira mais simples nem mais bonita de evocar a sede de altura que mais ou menos todos guardamos nos nossos corações e ano a ano nos fazem guardar uns

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diazinhos de férias para voltar á Piedade e viver a festa do

reencontro com o Deus do perdão, da esperança e do amor

– Senhor Jesus da Piedade!

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Algumas vezes ao relembrar esta quadra me ocorreu

o “Quase” de Mário de Sá Carneiro

“Um pouco mais de sol – eu era brasa,

Um pouco mais de azul – eu era além.

Para atingir, faltou-me o golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...”

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Enquanto aqui o poeta assume o desespero de que não estando “aquém”,

não conseguiu atingir o ponto do reencontro com o “além”

que persegue mas não alcança e que o levará mais tarde

por frustração e amargura ao suicídio, na quadra popular o

anseio de mais alto tem um registo diferente.Tem outro caminho.

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Aqui, sonha-se e anseia-se o caminho para Deus.

Aqui sabe-se que tendo asas lá se pode chegar.

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E, as pombas que simbolizam a pureza e a paz – com essas asas –

andam lá perto.

Com essas asas sobem ao alto.

Com essas asas poderão no fim do voo ficar frente a frente com o mais alto.

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Poderão terminar o seu percurso, pousar do seu voo,

descansar dos seus esforços, no regaço de onde no início se soltaram.

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Se fores a Elvas – vai à Piedade

Que é a melhor coisa que tem a cidade.

 ...e desde esse longínquo ano de 1737 que disso o povo dá testemunho

fazendo do Santuário o seu altar de fé.

Bendito seja o Senhor Jesus da Piedade agora e sempre. Amen!

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  Maria José Rijo

 

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É São Mateus

Sábado, 21.09.19
Á Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.753 – 21 de Setembro de 1984

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Setembro, em Elvas, é o mês das festas da cidade.

Setembro, em Elvas, é por excelência, o mês das tradições.

Se, pelo Natal e pela Páscoa no mundo inteiro se revivem velhos ritos e se procura ressuscitar as centelhas de Amor e de Fé que habitam em cada ser humano, por mais afogadas em cinzas que elas se encontrem…

Com as festas regionais é diferente!

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Neste mês de Setembro são os costumes locais que despertam. É a região, em si, que fala pelo alvoroço dos seus habitantes. É o espreguiçar do rame-rame, é o ressurgir das vontades. É o… vamos caiar a frontaria? – Vamos pintar o chão? E… a cortina nova para a porta – que tal? E…, a saia que se desejou? – O lenço que se sonhou, a prenda que se quis dar? – Será? – Não será?

- Talvez! Talvez se torne possível – é São Mateus!

É a magia do sonho a imiscuir-se na dureza da realidade do dia a dia.

É a Poesia. É o vibrar da alma das coisas, das recordações, a acenar, como asa que passe rente aos olhos.

É o contar e recontar dos “cobres”!

- Dará para a carne de borrego? – Para o bolo de que tanto se gosta e de que já quase se perdeu o jeito de fazer! – Com o açúcar ao preço que está!

- E os ovos?! – Mais cara a dúzia do que a galinha, ainda outro dia… É verdade! – Pois é! –

Mas é São Mateus.

E o Santo lá vai emprestando o Nome, como aval da coragem

que se cria para gastar em extras o que num ano inteiro a rigidez do orçamento garantiu como impossível.

- É o milagre a acontecer. As ruas enchem-se dos cheiros antigos, que

irradiam das ousadias das donas de casa…

Cheira a assado! – A “coxo frito”! – a azeite quente fritando

costeletinhas panadas… a bolos no forno…Cheira a foguetes,

a churrasco na feira, a vinhos e petiscos!

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Cheira a alegria, a fé renovada no viver, a sonhos saciados no riso das crianças… a choro de fato novo estragado na queda imprevista…

Cheira a Setembro em Elvas com o Outono a insinuar-se no bailado

das folhas secas pelo chão. Cheira a São Mateus!

Vamos ao arraial? Vamos?

Vamos todos atrás dos Pendões.

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Vamos que a festa é nossa e … Bendito seja

o Senhor Jesus da Piedade.

Maria José Rijo

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