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Um Santo Homem - Sr. Padre Lapão

Quinta-feira, 05.09.19

Jornal Linhas de Elvas –
Nº 2.338 – de 16 de Fevereiro de 2000 
CONVERSAS SOLTAS

Resultado de imagem para padre Lapão - borba

Propus-me escrever homenageando a memória do Senhor Padre Lapão,

que há poucos dias partiu – para o céu – certamente.

É curioso que só me ocorre falar de regatos a correr, manhãs de sol,
crianças felizes, gatos a brincar, aves em liberdade e outras coisas
bonitas de se ver.

Não me parecendo essa a forma clássica de tratar estes assuntos –
pensei dever encontrar outra maneira mais convencional de o fazer.

Pensei: - mas não é fácil para mim referir com o rigor dum retrato
aquele Homem maravilhoso pois que, ligadas a ele só saberei evocar.

A casa acolhedora.

A grande cozinha com o lume sempre aceso quer de Verão, quer de Inverno...

A mesa posta; a comida simples, apetitosa, oferecida com franqueza fidalga.

O pão alvo, a açorda ou a sopa da panela (solicitada pelos amigos como ex-libris
da amizade).

O rasto, quase provocante do perfume de hortelã, colhida de fresco, que tudo
incensava.
Escrevi: - perfume de hortelã – e estou a pensar se não seria mais ajustado
escrever: - perfume de paz, harmonia e santidade.
Eu não sei se essas abençoadas virtudes têm cheiro
Se calhar, até, tudo provinha daquela figura miúda irradiante de humanidade.
Se calhar era esse o segredo de toda a mística que o rodeava.
Aquele ar de menino.
Aquele passinho pulado. Aquele olhar directo, limpo, que se deixava devassar
até à alma.
As alegrias por nada.
Por nada – não! Não está certo dizê-lo.
As alegrias dos nadas da vida, talvez!
Ou, as alegrias da vida, por coisas que para muitos são nada.
Talvez, seja melhor dizer assim.
Parece-me injusto. Muito, muito injusto não referir a doce companhia da Irmã
que ternamente o chamava de: - Padre João e que como S. José ou Stº. António
faziam ao Menino Jesus – trazia também, aquele “menino antigo” ao colo
do seu afecto.
No pátio da entrada da casa da sua residência, há uma árvore grande.
As galinhas e os gatos passeiam-se por ali sem medos.
Água corre a rumorejar devagarinho pelas velhas cadeiras dos muros onde a
avenca viceja em fartos tufos.
Como presença do passado algumas mós enormes que falam dum moinho a que se
liga toda a história da família.
Agora só labora o forno de pão.
Um pão que se come com o gozo do próprio perfume que o impregna.
Coisas boas – sãs – que se não contam e nos deslumbram por ainda
existirem fora dos sonhos.
Tanta coisa já escrevi sem dizer o que queria.
Talvez o consiga contando alguns factos.
Sendo factos – aconteceram e por si, algumas coisas ficarão evidentes – creio.
Uma vez, fomos de visita ao Padre Lapão. Ele sonhava construir Igreja
(que está em meio) e transformar o lugar da “Nora” numa freguesia para
facilitar a vida das centenas de almas – que pastoreava – e que dependem
de S. Tiago de Rio de Moinhos que lhes fica a quilómetros de distância
Foi então que almoçámos juntos pela primeira vez e falámos desse e de
outros assuntos.
Terminada a refeição, visitámos o quintal da casa.
“A horta do Paçal” – pensei.
O Padre à nossa frente apontava isto, aquilo, a salsa, os coentros,
o feijão verde... a fartura da casa. Dizia o nome das árvores.
Deliciada, seguia – o.
A certo passo, parou como quem recomenda silêncio e seguiu cauteloso
como que em bicos de pés.
Venha cá!
Venha ver!
Fui, esgueirando-me entre arbustos; e eis que na sombra densa dos loureiros
aponta um ninho vazio.
É de rouxinol – anunciou. Criaram-se ali.
Não sei o que os meus olhos lhe contaram.
Sei que vi o menino e retribui o sorriso cúmplice daquele momento de
encanto em que comigo repartiu o segredo do seu tesouro.
Fora aquele mesmo Homem que apontando uma nascente me esclarecera:
Nunca se tirou daqui, água a motor – Foi sempre “tirada a sangue”.
Entre estas duas surpresas – como entre dois pólos distintos – situo a
sua recordação.
Conhecedor da dureza da vida, mas sempre com a alma pairando
extasiada nas belezas e milagres que nos oferece o Criador.
Tinha oitenta anos.
Mais de cinquenta de sacerdócio.
Quem o conheceu, há-de lembrá-lo como vivia, era e se mostrava com a
simplicidade de:

Um Santo Homem.


 

 Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 14:52





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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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