Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Romeiro que de longe à fama do arraial vieste,
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.470 – 18 / Set. / 1998
CONVERSAS SOLTAS

Com desejos de Boas Festas a todos os Elvenses
ofereço aos leitores do “Linhas de Elvas”
o programa das festas do ano de 1990


Romeiro que de longe à fama do arraial vieste,
Retornado que no Ultramar tudo perdeste,
Forasteiro que de fora por aqui passaste,
Emigrante que do estrangeiro à Terra Mãe voltaste,
Peregrino ou Asceta que lugares santos demandas,
Feirante que a ganhar teu pão, de feira em feira andas,

Penitente que a dor do remorso até aqui guiou,
Visitante que mais outra vez aqui voltou,
Pagador de promessas que para cumprir estás presente,
Bem-vindo! Bem-vindos todos ! Bem-vinda toda a gente !
Para serdes bem-vindos não há hora marcada,
Que a hora certa – é a hora chegada !
Bem-vindo cada qual – como um irmão,
Bem-vindos todos quantos em espírito aqui estão !

Bem-vindo quem, a seu jeito, veio a um novo S. Mateus !
Bem-vindo quem vem contente! Que a alegria agrada a Deus,
Bem-vindo também tu! Que vens mortificado,
Bem-vindo! descansa ! serena aqui o teu coração
Para afogar as mágoas – tens a oração
Para renovar a esperança – olha bem a cruz,
Confia ! põe os olhos em Jesus
Verás dois braços abertos – Verás que é teu o espaço
Onde o Pai, o filho, estreita num abraço,

Traga as chagas que trouxer – chegue lá de onde chegar !...
E – deixa o pranto correr – se te apetecer chorar,
Chora, Irmão ! Chora à vontade !
Estás – na “Catedral da Fé” – onde ajoelha a cidade,
Estás a rezar aos pés do Senhor da Piedade !
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Maria José Rijo
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Quatro exclamações
À Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1804 – 20 de Setembro de 1985

São Mateus 1985
Quando um ventinho assobia e só servem os sentidos
para saber entanguidos, e engadanhados de frio,
os dedos entorpecidos de articulações doloridas,
e nas botas empedernidas – mais duras do que torrões –
em que a terra se tornou, e onde se avança aos baldões,
com todas as intempéries…
-- os pés são pesos de chumbo…
-- É o Inverno, com chuvas, vento,trovões,
e geadas de rachar…
-- Ao proteger o gado, afrontando o temporal…
-- “Ah, vida dum filha da mãe!
Raio de tempo dum sacana!”
Desabafa o maioral!...

Quando a seara desponta, e só servem os sentidos
para atentar se é bem nascida (o que é o pão da vida)
de quem na terra trabalha…
-- Quando é a perder de vista
verde, verde, o que se avista…
-- Se a azeitona deu bem, e os lagares ainda gemem…
-- E o Fevereiro não veio quente (com o diabo no ventre).
-- Se de tudo há novidade na sezão em que era esperada…
-- Vendo de longe a mulher que veio espreitar à porta
para ver chegar o marido, o aguarda no umbral
-- Sorrindo – orelha a orelha,
acena com gesto largo…
“Olha lá pr’a este enlevo!
Disto não me lembro igual!
Vai um ano dum sacana!...
Diz a esperança que canta nas falas do maioral.
Quando o calor zumbe aos ouvidos, e só servem os sentidos
para ter medo de os perder…

-- Quando o ar que se respira parece estar a arder,
e a garganta e os pulmões se engasgam com o suão…
e, coitado, o coração bate apressadamente, aflito
como um pobre pardalito, fechado na mão de alguém!
-- Sem dar perdão a ninguém, a canícula avassala!
-- “É dura a vida dos pobres!
Ah! Calorina real

Raio de tempo dum sacana”
-- Desabafa e limpa o suor, ofegante o maioral!
Quando toda a safra acaba, e só servem os sentidos
para almejar uns festejos,
convívios com gente amiga que só se vê de ano a ano…
-- E o que lembra é um copo, uma cerveja fresquinha,
cantar umas brejeirices, largar umas baboseiras,
galhofar de tudo e nada…
reinventar a mocidade
(onde aparece que coube tudo o que se soube)

-- E a feira de São Mateus
-- Festas, jogo e arraiais!
e ao chegar à Piedade
-- Com o azeite da promessa – em prudência inteligente,
alinha os seus pensamentos,
(de joelhos – cheio de fiel ar beato - agradecido )
desfia o que a alma sente:
“Rezo pouco e cá p’ra mim!
Oh, meu Deus – não é por mal!
-- É que a gente tem pendência p’ra…
P’ra largar só asneiradas…”
Remedia ainda a tempo
bem contrito o maioral.![]()
Maria José Rijo
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Parabéns Gus
.
O Dia de hoje não está esquecido.
Depois explico.
Beijinhos
Tia Zé
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MOTE SEM GLOSA
Á LÁ Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.906 – 18 de Setembro de 1987

“O Senhor da Piedade
Tem 24 janelas”
Fosse eu pomba, tivesse asas,
Que pousaria na Cruz
Porque fica acima delas.

Ás vezes, apetecia-me falar de Amor
do segredo de ser
da paz de quem se dá
e se reencontra limpo e renovado
que o Amor purifica e recria
com a força duma aurora
que da noite rasga o dia…

Ás vezes, apetecia-me falar de Amor
como o pressinto e sei
procura de perfeição
que se suspeita e sente
no dia a dia imperfeito
da condição de ser gente…

Às vezes, apetecia-me falar de Amor
amor que de si nos solta
e permite dizer; - “eu”
encarar o mundo em volta
chamar: “vida” – “minha vida”
à viagem de regresso
a esse Amor do começo
que foi ponto de partida…

Às vezes, apetecia-me falar de Amor
olhando a crista da onda
alta, bela, transparente,
imponente, tenebrosa
e dizer-lhe intimamente
com a inocência da rosa
ou a força da semente
sem palavras

( na cósmica cumplicidade
de me saber – nada –
e saber-me – eternidade )
olá, água! – olá, apenas água!
Vês?
Só na praia, como espuma,
Descansam vidas e marés

Às vezes, apetecia-me falar de Amor
sendo diferente
mas ajoelho, rezo o Teu nome bendito
-- Senhor Jesus da Piedade!
-- Senhor Jesus da Piedade!
Rezo e repito:
-- Senhor Jesus da Piedade!
e só assim – tudo está dito.
Maria José Rijo

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I REMEMBER SEPTEMBER -1997
Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.419 – 19- Setembro- 1997
Livro publicado - Rezas e Benzeduras

Em Setembro - há muitos anos - cinquenta e quatro exactamente,
vim a Elvas de visita pela primeira vez.

Era S. Mateus.
Festejava-se o Senhor Jesus da Piedade. “Menina e Moça”, que era, como no dizer de Bernardim –cá encontrei meu par que namorei de janela alta à moda desses tempos.
Primeiro andar – era a fasquia mínima – das regras de então - só superável em qualidade por janela de rés-do -chão com grades de ferro e rede mosquiteira.
Eram na Rua João do Casqueiro as sessões de “ gargarejo” sob escuta de vizinhança que se adivinhava pelo tremelicar das rendas das cortinas, nas vidraças indiscretas – encostadas não fechadas – para que, além da imagem lhe chegasse o som...
Era na mesma faceira, à direita, quando se desce, onde há logo a seguir “ duas janelas de ferro batido com balaústres e laçaria “que são citadas num estudo da renascença em Portugal – conta Raul Proença.
Havia então, nessa tal casa, onde eu habitava com minha Tia Madrinha, para ajudar nos arranjos domésticos uma alegre rapariga, do Povo de S. Vicente, chamada Alda. Ela compartilhava dos namoros das meninas da casa entre as quais me contava – tudo gente das mesmas idades. A retribuição desses favores era-lhe concedida com a invenção por nós de oportunidades que lhe permitissem fugazes encontros de esquina, com o seu próprio namorado.

Era ela que generosamente entretinha minha Tia Madrinha com perguntas e confusões de ardilosas ignorâncias culinárias ou outras, sempre lá para os fundos... para que pudéssemos largar os livros e correr às janelas quando o som das patas dos cavalos faiscando na calçada anunciava a presença dos “senhores alferes”, a passar, caracolando lentamente nas suas garbosas montadas.
Foi ela quem nos ensinou a oração a Santa Helena, que rezávamos para adivinhar o futuro dos nossos ingénuos romances e que, nos fazia andar dias inteiros, ensonadas, suspirosas e olheirentas, segredando pelos cantos a tentar como pitonisas interpretar sonhos de que retínhamos apenas farrapos esparsos.
Sonhos que nos devastavam o descanso e o aproveitamento nas aulas.
Deitávamo-nos nervosas, assustadas, de cabelos soltos e braços cruzados sobre o peito repetindo com um gostinho de medo, de gozo e de pecado a misteriosa oração com seu cheirinho a bruxaria que nos deslumbrava mas causava arrepios.

ORAÇÃO A SANTA HELENA:
Srª. Santa Helena filha do Rei Irene
Vós que pelo mundo andaste com a Virgem vos encontrastes
Com Ela vos aconselhastes
A cruz do Santo Lenho achastes
Os três cravos que ela tinha todos três vós lhe tirastes
O primeiro deitaste-lo ao mar
O segundo deste-lo ao Santo Lenho
O terceiro com ele ficastes
Por esse cravo que vós tendes Senhora eu vos peço
Que me declareis em sonhos bem declarados:
(faz-se o pedido)
Se assim for que eu veja :
casas caiadas, roupas lavadas, águas claras
campos verdes e mesas alçadas
Se assim não for que eu veja:
paredes escuras, roupas sujas, águas turvas
campos secos e espadas nuas
Padre-nosso, Ave-maria
(repete-se a oração três vezes)
Depois, pela manhã, enquanto nos serviam o café, confabulavamos confrontando as interpretações cabalísticas dos enigmas que relatávamos – sonhados ou, ainda mais inventados pelos nossos pavores, remorsos e temeridade.
(Querido e Santo Padre Marcial, como se terá divertido na sua tolerante bondade com as confissões escutadas nas primeiras Sextas feiras do mês no antigo Colégio Luso...)
Setembro em Elvas, para mim, é o mês de todas as magias...
Era o mês das noivas com os seus fatos brancos, seus véus, de braço dado com seus maridos a passear solenes nas noites de arraial...
São as manhãs luminosas e frescas transparentes e aniladas.
As tardes serenas e doces de brando anoitecer...
São os dias ainda quentes em contraste com as sombras já frescas que os prédios projectam nas ruas estreitas do casario fechado entre muralhas...
São as árvores ainda verdes que já não podem, no entanto, esconder a folhagem que empalidece...
É o tempo em mudança.
O fim da estação a marcar presença com as folhas caídas que bailam enfim soltas, a sua dança de liberdade e morte.
É o toque da angústia de tudo o que finda.
O vazio nostálgico onde a esperança há-de medrar e reviver.
É o tempo a orquestrar na sua divina sabedoria o envelhecer do Verão.
Não mais luz violenta, agressiva, que tudo devassa – não mais o calor que derrete, abrasa e estorrica.
É o insinuar da transformação que anuncia o repouso da Natureza – como a meia-idade traz ás pessoas a ponderação e a calma no Outono da vida.
É a descoberta do saborear de cada momento, do instante fugaz, do recato, do segredo, do sorriso, da recordação, do mistério da vida que se pressente mas nos escapa ao entendimento.
É o mês em que casei há cinquenta anos e celebro agora só.
Só, como se nasce.
Só, como se morre, mas, com o coração pleno do que se viveu se relembra com dor e alegria,
como uma música suave, que vem de longe, nos delícia, nos comove e faz chorar.
Como uma canção de embalar que se escuta até que a paz do sono nos invada.
“I Remember September “
É o título de uma velha e linda balada de amor desses tempos idos que um cantor famoso celebrizou.
“I Remember September..."
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Maria José Rijo
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Um Santo Homem - Sr. Padre Lapão
Jornal Linhas de Elvas –
Nº 2.338 – de 16 de Fevereiro de 2000
CONVERSAS SOLTAS
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Propus-me escrever homenageando a memória do Senhor Padre Lapão,
que há poucos dias partiu – para o céu – certamente.
É curioso que só me ocorre falar de regatos a correr, manhãs de sol,
crianças felizes, gatos a brincar, aves em liberdade e outras coisas
bonitas de se ver.
Não me parecendo essa a forma clássica de tratar estes assuntos –
pensei dever encontrar outra maneira mais convencional de o fazer.
Pensei: - mas não é fácil para mim referir com o rigor dum retrato
aquele Homem maravilhoso pois que, ligadas a ele só saberei evocar.
A casa acolhedora.
A grande cozinha com o lume sempre aceso quer de Verão, quer de Inverno...
A mesa posta; a comida simples, apetitosa, oferecida com franqueza fidalga.
O pão alvo, a açorda ou a sopa da panela (solicitada pelos amigos como ex-libris
da amizade).
O rasto, quase provocante do perfume de hortelã, colhida de fresco, que tudo
incensava.
Escrevi: - perfume de hortelã – e estou a pensar se não seria mais ajustado
escrever: - perfume de paz, harmonia e santidade.
Eu não sei se essas abençoadas virtudes têm cheiro
Se calhar, até, tudo provinha daquela figura miúda irradiante de humanidade.
Se calhar era esse o segredo de toda a mística que o rodeava.
Aquele ar de menino.
Aquele passinho pulado. Aquele olhar directo, limpo, que se deixava devassar
até à alma.
As alegrias por nada.
Por nada – não! Não está certo dizê-lo.
As alegrias dos nadas da vida, talvez!
Ou, as alegrias da vida, por coisas que para muitos são nada.
Talvez, seja melhor dizer assim.
Parece-me injusto. Muito, muito injusto não referir a doce companhia da Irmã
que ternamente o chamava de: - Padre João e que como S. José ou Stº. António
faziam ao Menino Jesus – trazia também, aquele “menino antigo” ao colo
do seu afecto.
No pátio da entrada da casa da sua residência, há uma árvore grande.
As galinhas e os gatos passeiam-se por ali sem medos.
Água corre a rumorejar devagarinho pelas velhas cadeiras dos muros onde a
avenca viceja em fartos tufos.
Como presença do passado algumas mós enormes que falam dum moinho a que se
liga toda a história da família.
Agora só labora o forno de pão.
Um pão que se come com o gozo do próprio perfume que o impregna.
Coisas boas – sãs – que se não contam e nos deslumbram por ainda
existirem fora dos sonhos.
Tanta coisa já escrevi sem dizer o que queria.
Talvez o consiga contando alguns factos.
Sendo factos – aconteceram e por si, algumas coisas ficarão evidentes – creio.
Uma vez, fomos de visita ao Padre Lapão. Ele sonhava construir Igreja
(que está em meio) e transformar o lugar da “Nora” numa freguesia para
facilitar a vida das centenas de almas – que pastoreava – e que dependem
de S. Tiago de Rio de Moinhos que lhes fica a quilómetros de distância
Foi então que almoçámos juntos pela primeira vez e falámos desse e de
outros assuntos.
Terminada a refeição, visitámos o quintal da casa.
“A horta do Paçal” – pensei.
O Padre à nossa frente apontava isto, aquilo, a salsa, os coentros,
o feijão verde... a fartura da casa. Dizia o nome das árvores.
Deliciada, seguia – o.
A certo passo, parou como quem recomenda silêncio e seguiu cauteloso
como que em bicos de pés.
Venha cá!
Venha ver!
Fui, esgueirando-me entre arbustos; e eis que na sombra densa dos loureiros
aponta um ninho vazio.
É de rouxinol – anunciou. Criaram-se ali.
Não sei o que os meus olhos lhe contaram.
Sei que vi o menino e retribui o sorriso cúmplice daquele momento de
encanto em que comigo repartiu o segredo do seu tesouro.
Fora aquele mesmo Homem que apontando uma nascente me esclarecera:
Nunca se tirou daqui, água a motor – Foi sempre “tirada a sangue”.
Entre estas duas surpresas – como entre dois pólos distintos – situo a
sua recordação.
Conhecedor da dureza da vida, mas sempre com a alma pairando
extasiada nas belezas e milagres que nos oferece o Criador.
Tinha oitenta anos.
Mais de cinquenta de sacerdócio.
Quem o conheceu, há-de lembrá-lo como vivia, era e se mostrava com a
simplicidade de:
Um Santo Homem.
Maria José Rijo

