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CARTA DE JUROMENHA - 1994

Sexta-feira, 18.10.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.249 – de 20 de Maio de 1994
Conversas Soltas

Ao longe vejo Olivença
Mais perto, Vila Real
A meus pés o Guadiana
Correndo manso – na crença
De que tudo é Portugal

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Meu amigo

Quando eu era rapariga, falava-lhe guardando a distância implícita no reverente – Senhor Doutor.

Agora, que os anos, as minhas mágoas e os meus cabelos brancos permitem encurtar um pouco as distâncias, enfrento o seu tu cá, tu lá – de sempre – com um afectuoso: Meu Amigo. Porém, não cuide que este vocativo tem um conteúdo muito diferente.

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Isto quer dizer, apenas, que “ouso” tratar o Doutor que é escritor e jornalista de reconhecido mérito – chamando a primeiro plano a amizade que o velho tratamento já envolvia, embrulhado com o rótulo da dignidade oficial.

Situados que estamos, vou então dizer-lhe que: quando hoje colhi do seu espanto a desagradável sensação do “dinossaurico” atraso que representa o meu jeito de só escrever à mão; o meu vício de improvisar; a minha intrínseca aversão pelas máquinas – a cerimónia que faço com o meu próprio carro…

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Quando isto aconteceu, lembrei-me que me pediram certa vez para escrever sobre artesanato e vou apoiar-me no que então escrevi para o que pretendo contar.

É que, meu amigo, sou e sempre serei artesã.

- Quando escrevo azul, quereria fazê-lo sem caneta, ou lápis, 
- apenas com o dedo molhado na cor do céu.
- Quando digo mar… já vou na onda.
- Quando me encosto a um tronco de árvore e o abraço 
surpreendo-me por não me transformar em ramos, folhas e flores.
- Quando mergulho o olhar num poente a quietude do fim do dia
ameaça-me como se fora o meu próprio ocaso.
Sempre me sonhei erva do prado, ave, nuvem, folha ao vento.
Sempre. Porém, nunca foi senão o que sou -  apenas eu – empanturrada
de emoções como as crianças gulosas fazem com os chocolates – sem conta,
peso ou medida.

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Impossível com matéria desta natureza fazer obra de estilo 
com rigor de pormenor ou moldes de fresador.

Destas mãos de obreira – que me comovem porque iguais às de minha Mãe – grandes e ossudas, com unhas curtas, sem verniz, com esfoladelas da lareira e do fogão, mãos que até já amortalharam docemente – gente muito amada – destas mãos, meu amigo, só artesanato pode nascer.

Um pouco ao acaso, como as flores do campo. Raízes de mim que sou a terra que o sustenta.

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Não me queira sentada à máquina, de dedo espetado soletrando de tecla em tecla, aos pulinhos, como um pardal a comer migalhas.

Não queira. Deixe-me fora desses preceitos de civilização que me são alheios.

Já que me chamou para voltar a escrever – já que o fez – e tem agora a minha família e amigos – todos juntos – a cantar-lhe hossanas – assuma a auréola e dê-me do alto dessa santidade que lhe foi conferida, por tal feito, o perdão de que careço por tanta insipiência, não me espartilhando com preceitos que me constrangem.

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Tempos houve, em que não se usavam frigoríficos.

Bebia-se então água da bilha de barro que ficava de noite ao relento para refrescar – e a todos consolava.

Parei aí. Creia. E, como eu me lembro disto!...

Não invente actualizações para mim.

Saiba-me capaz de acreditar em mezinhas, fazer rezas de “cobro” e “quebranto”, benzeduras…

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Pense-me tecedeira dessas artes e manhas. Veja-me gastando tintas e pincéis em arroubos de naífe.

Registe que me era mais a feição passear de burro e sombrinha aberta no Chiado – e o mais que no género imaginar – mas – por favor, máquinas não! – a não ser de costura e, à antiga, com pedal.

Já sabe agora em que ponto me encontro… onde quer que me encontre!

E que é frequente encontrar-me sentada no poial, da porta de postigo, da nossa pequena casa de Juromenha, a ver correr o rio e a rezar o terço com as mãos ao sol pousadas no regaço.

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Posso estar só, ou acompanhada, a ouvir e a contar histórias.

Nada de erudito.

Qualquer coisa como um último abencerragem duma ruralidade que quadra bem à minha condição de artesã confessa e assumida.

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Vale assim?

É que me pareceu ouvi-lo, esquecido do “Poder Local” a resmungar comigo:

“Antes eu fosse sandeu
Ou me embruxassem com ervas
No dia em que me apareceu
Aquela artesã lá de Elvas”

Deixo-lhe um abraço agradecido e amigo.

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Maria José  Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 13:17

REQUIEM POR UM RIO – NOTICIAS DE JUROMENHA - 2008

Sexta-feira, 18.10.19

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Dias 5 e 6 de A gosto – ou seja: sábado e domingo próximos – Juromenha vai reviver a sua tradição de honrar com festejos religiosos e populares a Santa Padroeira da sua Igreja e povoação.

Assim, oferece às pessoas que durante todo o ano, lá habitam e por lá labutam, dois dias de intervalo no rame-rame das suas honradas vidas modestas e pacatas para de forma mais alegre e aberta conviverem.

De todos os lados chegam familiares, forasteiros e amigos, por esta altura do ano.

Vêm matar saudades e abrilhantar as festas.

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Fazem-se touradas, petisqueiras, solta-se fogo de artifício. Dá-se largas à alegria.

Baila-se nas ruas. Conversa-se e ri-se.

Vivem-se revivendo-as, amizades, tradições, recordações comuns.

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Mas… se as festas têm o nome de Nossa Senhora do Loreto – a cujo culto – o nosso rei D. Dinis consagrou a então muito importante Praça de Juromenha – lá por esses longínquos, séc. XIII/XIV – a componente religiosa a tudo o mais se sobrepõe.

No Sábado, dia 5, ás 16 horas, a Missa será celebrada por alma dos filhos da terra que Deus já chamou a si.

No domingo, dia 6, às 16.30 será a Missa solene seguida de procissão.

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A vila é pequena. Aninha-se num alto, à sombra dum castelo, como nos contos de fadas. Vale a pena ir espreitá-la!...

A procissão, segue o percurso dos passeios turísticos de qualquer forasteiro.

Afasta-se um pouco das casas e caminha pela estradinha modesta que se desenha entre os campos e a Fortaleza – separando-os.

Cenário constante do quotidiano dos seus naturais.

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Depois, lá ao fundo, num pequeno largo do Arrabalde de S. Lazaro – dá a volta para mostrar o rio à mãe de Jesus e regressa pacatamente ao povoado para repor a imagem no seu altar – que o seu culto – esse - está  entronizado no coração de toda a população.

A Banda, solenemente toca e o sol acende faíscas, como brasas, nos metais reluzentes dos instrumentos musicais…

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Só que, este ano… Este ano – não há rio! No seu leito vazio – como numa cama de hospital, onde a morte recentemente tivesse passado, restam as marcas de quem a ocupou – então, neste caso, metros sem fim de grossas mangueiras a dar testemunho das tranfusões que o rio suportou até exaurir.

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O rio foi sugado até dele restarem apenas poças, como rastos de chuvadas em terras de lama, ou manchas de sangue em locais de crime. O rio foi morto na pátria onde nasceu vítima do uso desabusado do seu sangue – a sua água.

Nas suas margens, glorificando o crime, vicejam exuberantes pomares cuja sede excede as generosas capacidades de dádiva do rio.

Na geografia da Península – aprendia-se assim:

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Guadiana – nasce na Lagoa da Regedora em Espanha e corre, beneficiando terras, gentes e bichos, até ao Atlântico, que encontra em Vila Real de Santo António, no Algarve – Portugal.

Os seus afluentes principais, no nosso país são, Xévora, Ceia, Degebe, Vascão e Odeleite na margem direita. Na margem esquerda: Ardila e Chanca. Porém …

Em nome de um desenfreado progresso – Será progresso, meu Deus? – O Homem que inventa necessidades que ultrapassam as suas reais necessidades e, até, a generosidade da terra, do mar, dos rios da própria atmosfera – tudo modifica.

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Prende os rios. Sufoca-lhes o destino. E, em lugar de neles se deleitar, pescar e dos rios beber – bebe-os! Inverte tudo. Brinca aos deuses.

Faz pomares em terras de Oliveiras sóbrias e chaparros protectores da humidade dos solos…

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Determina as árvores que são proscritas; como se alguma vez, alguma árvore, não tivesse sentido de existir… e, delirante, glorifica o excesso de outras.

Se em democracia se afirma que as regalias de um indivíduo acabam onde começam os direitos de outro indivíduo…

As regalias de todos os habitantes do planeta acabam, necessariamente, onde começa a perigar o equilíbrio da própria Natureza.

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É tão lógico, tão evidente como: não estender o pé além do lençol – coisa que o Povo ensina, apenas, por intuição.

Requiem por um rio, que morre com seus peixes, seus cágados, seus mil bichos de água…

Requiem por um rio, que Deus criou também para embelezar a vida espelhando, árvores, tufos de loendros, céus, sóis e luar e, do céu, beber as chuvas.

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Requiem por um rio, onde o gado bebia, de onde os pobres sustentavam o verde dos seus hortejos nas margens… e perfumava as noites quentes do Alentejo com cheiros de hortelã, mantrasto e poejos…

Requiem por um caminheiro que sonhava o mar e, a má-fé, cruelmente interrompem o seu destino…

Mas… Requiem, também, pelo Homem que quer aprisionar o sonho de seu Criador para o acomodar à sua precária medida.

Ámen!

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Maria José Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 12:20

A minha gatinha Kika - 2011

Quinta-feira, 17.10.19
Pagina de Diário - 21- Março -2011
A minha gatinha KIKA

 

Kika, a minha gatinha, na brincadeira, fez-me um pequeno arranhão na mão direita. Nada que tenha importância - no entanto, achei conveniente desinfectar – acabo de escrever desinfectar, paro e penso: - desde que me lembro nunca hesitei como agora para escrever uma palavra! - ponho c, antes do t ,ou não? -isto do novo acordo ortográfico deixa-me com vontade de mandar passear quem o decidiu e fazer como meus Pais fizeram no seu tempo – continuaram a escrever como tinham aprendido indiferentes às mudanças de farmácia com ou sem ph, etc. etc…

Mas, não foi a nova moda da escrita que me prendeu a atenção, o que me fez confrontar com a minha realidade foram as minhas mãos. De repente tive a sensação que estava a cuidar das mãos da minha Avó quando me pedia ajuda por se ter arranhado ao cuidar das suas flores.

 

Por esse tempo, lembro-me de ficar comovida e triste quando ela com um ar nostálgico dizia: chamam-se a estas manchas “ rosas do túmulo” e, com uma das mãos afagava as costas da outra alisando a pele, enrugada e murcha cheia de pequenas manchas castanhas como sardas.

Ocorreu-me isso, agora, fixando as minhas próprias mãos, e logo me lembrei da Querida Matilde Araújo passando a sua mão macia pelas minhas, calejadas e ásperas dos canivetes, limas e formões na época em que eu fazia figurinhas em pau de buxo, dizendo-me, com apreço, naquele seu jeito de falar quase entoado – as suas mãos são as suas obreiras, Maria José!

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As mãos, são o ponto que fixo, observo e mais me encanta em qualquer pessoa. Nas fotografias, é para onde olho em primeiro lugar. A linguagem das mãos seduz-me e apaixona-me. As mãos casam-se com os olhos para falar da alma. Completam-se.

Também num dos meus primeiros livros de escola, havia uma lição que começava assim: “ fora daquelas mãos estilizadas que os pintores debuxam nos seus quadros, não há mãos bonitas na sociedade propriamente dita”.

E, depois, vinha a frase de que eu mais gostava "as mãos de minha mãe tinham um calo de abrir e fechar a porta da despensa”

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Eu via essa mãe, o molho das chaves e, sentia-me mimalha pedindo como se de minha própria Mãe se tratasse: - deixe-me ver, eu não mexo em nada, e olhava em volta corando como se alguém ouvisse a voz do meu desejo. 

Por estas e outras lembranças, muitas vezes penso na responsabilidade de quem educa crianças.

O mundo delas não cabe no nosso…abrange-o, mas ultrapassa-o.

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Quase oitenta anos depois, ainda vejo as imagens que o meu coração desenhava lendo ou ouvindo estas pequenas coisas.

Beijou-lhe as mãos…Apertou-lhe a mão…

Mordeu a mão que o amparou…

Afinal, as mãos, são, mais do que as extremidades dos membros superiores. Sem deixar de o ser, são ainda, também, e muito principalmente: - as “extremidades frágeis de nossos gestos imperfeitos, onde às vezes nascem flores” – ou não…

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 Maria José Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 13:55

POEMA - Retrato

Quinta-feira, 17.10.19

 

Meus passos na terra

Meu olhar nos longes

Minha alma dispersa

nas voltas do caminho...

Meu coração vindo à tona

das saudades que o afogam...

Meus pensamentos convulsos

em erupções sem controlo

Assim  me vejo 

sem querer ser

num tempo que não comando

a que chamo:

Minha Vida

4 - Janeiro - 2016

Maria José Travelho Rijo

(Livro de Poemas IV)

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publicado por Maria José Rijo às 12:18

O GATO PIAS – PERDER E GANHAR - 2000

Quarta-feira, 16.10.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.555 de 12- Maio-2000
Conversas Soltas                                                                        

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Perder e ganhar são palavras tão correntes, tantas vezes repetidas a propósito de tudo e de nada que penso valer a pena meditar um pouco nelas.

Afinal, o que é perder e o que é ganhar?

Será que se ganha quando se pode por o pé sobre o peito do adversário deitado por terra, como é de uso ver nas fotografias de caça, mormente se a peça abatida tem peso e tamanho de vulto? Será ?

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Será que alguém se pode considerar vencedor porque dispondo de poder como o caçador dispõe da arma subjuga e cala os adversários, será?

Então se assim é porquê a preocupação permanente de algumas pessoas em aproveitar a propósito e a despropósito circunstâncias de acaso querendo-as transformar em oportunidades - que em verdade não o são , e só colocam mal quem, sem sentido algum de conveniências, exibe o seu mau gosto, falta de educação, e falta de respeito pelos outros - para  exultantes, pisarem no seu semelhante?

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 Será assim tão incontrolável a necessidade de se justificarem perante os outros, sendo, como se fazem crer, tão donos das verdades e das soluções?

Na realidade arrogância não significa segurança, nem certeza de coisa alguma.

Arrogância pode muito bem significar insegurança e medo, esforço irreprimível para abafar a incomodidade da consciência que jamais adormece...

Um vencedor não se define por falar de poleiro.

Nunca será vencedor quem nada acata dos sentimentos dos outros e faz e desfaz obras de outrém só porque detém o mando e quer, e pode, exibir a sua força.

Penso que não serão jamais esses os vencedores.

Vencedor é quem resiste.

Vencedor pode ser quem na aparência perde, mas luta, arrisca, sofre, suporta incompreensões, incómodos, grosserias, sarcasmos soezes, mas não se nega à luta de rosto descoberto.

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Vencedor é quem entra na contenda sabendo que lhe falta a força, o poder, mas não dobra porque lhe sobra consciência dos seus direitos e dos seus deveres, da sua obrigação de não renegar aquilo em que acredita.

 Pensava nestas e em outras coisas. Pensava, porque lendo jornais, escutando noticiários, até vendo novelas, a reflexão se nos impõe.

Apeteceu-me então, o que estou a fazer, chamar a atenção para a maneira como desde sempre, em todos os tempos alguns poderosos exerciam e exercem o poder.

Como a cobiçaa má féa perfídia, se podem dissimular sob falsas aparências Vencer, ganhar...

Só cada qual sabe o que lhe vai no coração. Às vezes, quem morre vencido à luz dos homens é vitorioso à luz de Deus. O contrário também pode ser realidade 

O que não deixará porém duvidas a quem quer que seja -  é que é sintoma de falta de caracter desrespeitar e achincalhar, a despropósito, um adversário vencido como se qualquer espécie de poder elevasse um Homem acima dos outros Homens.

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 Pensava assim quando com um sorriso me ocorreu a história do gato Pias

 Aprendi-a recentemente, mas não a esquecerei por certo.

Expulso de uma ilha grega onde habitava respondeu a quem incrédulo lhe perguntou: (vendo-o sem malas nem embrulhos) - então partes sem bagagem?

“Omnia mea mecum porto” (levo tudo comigo) respondeu sensatamente o gato.

Todos levaremos tudo connosco quando partirmos de vez.        E, tal como o gato não precisaremos nem de malas nem de relatórios, medalhas, condecorações, ou albuns de fotografias das “maravilhas”que tivermos erguido neste mundo.

Apenas e sem hipótese alguma de escamotear - quaisquer que tenham sido os resultados - espectaculares ou nefastos - as nossas mais secretas intenções  estarão sem disfarce possível como nossa única bagagem.

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Levo tudo comigo - trazemos tudo connosco.   Omnia mea mecum porto

Quer em latim, quer traduzida, a frase é curta - vale a pena fixa-la e 

 Medita-la

Vale mesmo a pena.

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Maria José Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 11:53

D. SANCHO E EU - 1995

Terça-feira, 15.10.19
Jornal linhas de Elvas
Nº 2.291 – 17 de Março de 1995
Conversas Soltas

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Não se avistava vivalma.

Ia eu, sem mais cuidar, no meu passo ronceiro, a atravessar a praceta, quando ouvi – nitidamente – alguém pronunciar o meu nome, chamando-me com insistência.

Anoitecia.

Olhei em redor! – Tudo deserto.

Bateu-me apressado o coração com a surpresa.

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Parei gelada de espanto.

Tivesse eu escutado apenas - Maria…

Marias – há muitas:

Maria José, ainda daria para confundir! – Mas, com apelido e tudo era impossível duvidar que fosse comigo.

Serenei.

Curiosa, comecei a espiolhar à minha volta indagando em voz alta:

- Quem me chamou?

- Aproxima-te! – Vem cá! – Foi a resposta nítida iniludível.

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E, surpresa das surpresas! Do alto do seu pedestal – D. Sancho II de Portugal – convocava-me com a autoridade que cabe ao grande conquistador da nossa terra.

Quase descrendo da evidência, correspondi ao apelo – mas, creio incrédula ainda, exclamei com alguma hesitação:

- Fostes vós, senhor, quem me chamastes? E, enquanto no meu espírito, atabalhoadamente, procurava referências para, sem gafes, dialogar com tão ilustre interlocutor – fui dando largas ao meu pasmo imenso e verdadeiro.

- Como é possível, Senhor! – Inquiri: - que concedais a honra da vossa atenção a tão ínfima criatura?

- Vós, Senhor, sabíeis o meu humilde nome? (aqui dei-me conta que “senhor” é também a forma de evocar Deus! – temi a heresia.

Teimosa, voltei a titubear – porém reconsiderei: … e lá no alto, nos poleiros, quem se julgam eles, senão deuses! – Não havia lugar para mais dúvidas – e, a conversa fluiu.

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- Embora não me reconheça à altura da vossa real atenção: - Dizei! – Dizei, Senhor – o que pretendeis?

- Quero apenas conhecer-te.

- Mas já tanto me contaste! – Foi de cor? – Objectei…

- Queria apenas conhecer-te – insistiu – (aqui senti-me importante)

- Será ousadia minha, Senhor, indagar porquê? (disse indagar porque me pareceu menos vulgar de que perguntar e, isto de realeza pede punhos de renda…)

Com realíssima condescendência, D. Sancho II de Portugal – respondeu soberano:

- Cala-te! (que decidido, o rei!)

- Calo-me, porquê?! – Titubeei (vejam as palavras belas que o povo gasta com a realeza)

- Porque, aqui, quem fala, sou eu! (que querido! O rei.)

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- E, vós sabeis tudo, tudo, tudo? (bisbilhoteiro! O povo).

- Tanto, também não! (que modesto! O rei).

- Eu passo aqui dia a dia, vós sabeis o meu nome, (perguntador e chato o povo!)

- Então achas que tanto basta para te conhecer? (que sensato, o rei!)

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- Senhor! – Insisti, eu por vezes escrevo umas coisitas! (aqui, era eu, a dar-me ares…)

- Meu olhar está toldado! Ofuscado pelo reflexo da branca cal, empedernido… (é de pedra a estátua)

- Mas não estais cego? – (preocupado o povo!)

- Governo-me muito com o ouvido! (não é mouco o rei! – olha que bom!)

- Que pena eu não saber cantar mas apenas leio um bocado… (era eu puxando à cultura)

- Permiti-me que vos lembre Sancho I! – Tão dado à poesia:

“ …. Muyto me tarda... O meu amigo da Guarda.”

- Lá estão vocês a querer dar autorias ao outro! Quem escreveu essas tretas foi Afonso X de Castela!

- Não sejais invejoso, Senhor! (o povo quando perde as estribeiras diz cada coisa…)

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- Eu também sei que há dúvidas, mas vós devíeis reconhecer que, na circunstância era mais justo puxar a brasa à sardinha portuguesa!

- Não quero falar de pescas! – (retorquiu agastado o rei!) – esse dossier não é meu.)

- O meu reino é de sequeiro. (convicto, o rei!)

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- E, como obviais a tais obstáculos (quando se cala o povo?!)

- Que julgais de mim! (altaneiro! O rei)

- Não sabeis porventura que até os que abriram balneários sem cuidar de nascentes abastecedoras vão ter frescos caudais a correr-lhe à porta?! (esclarecedor o rei!)

- Permiti-me então que vos diga: - com grilos, como tendes na consciência, será curial perderdes vosso precioso tempo mandando vossos segréis gastar inspiração e rimas com tão ínfimos servos, indefesos, como eu! Lembrai-vos como já é horrível a estação de muda (estamos no tempo da cavalaria) frente ao maior e mais belo aqueduto erguido em terras ibéricas.

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- Fazei que cantem com voz troante o semelhante e tremendo evento que se avizinha!

- Cantai o arraso que fazeis a belas memórias…

- Cantai o aquartelamento que há-de assombrar a luz gloriosa daquela clareira antiga onde o povo vai rezar…

- Cantai o desprezo a que foi votado o espaço onde se homenageiam e guardam ecos do passado que se esfumam sem deixar rasto…

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- Cantai os peregrinos que por lá aboletastes… e nos seus “êxtases” de tudo são capazes…

- Cantai tanta ousadia e glória para que fique na história.

- Nós sabemos Senhor, que vos mostrais em campo aberto – exposto aos ventos – e contrários eles são!

- De um lado sopram leis emanadas do senado, do outro, emanam das albergarias o perfume gostoso dos tachos…

- Às costas pesa-vos a história – em frente – transparente, transparente a ânsia de glória!

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- Difícil é ser rei, Senhor!

- Mas… será que! (disse eu, reticente, me calei)

- Diz! Diz o resto! – acaba a frase R.S.F.F – (insistiu o rei inclemente)

- Isso não farei! – (aqui, ambos irritados já éramos tu cá, tu lá…)

- Não ouses contrariar-me! Olha! Olha! Olha!...

- Olha, o quê?

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- Olha o cartão – não lês R.S.F.F.?

 Pois se não respondes – não terás lugar  à mesa do banquete.

- Que banquete?

- Há sempre fina recompensa para quem assiste aos torneios.

Ora, não é que de repente acordei ao som das minhas próprias gargalhadas!

Então, perguntei a mim própria porque ria.

Talvez porque rir é o melhor remédio.

Pensei.

No chão, em meu redor, revistas e jornais exibiam retratos de reis e príncipes de Espanha, do herdeiro do trono de Portugal.

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Era evidente – a realeza é o tema do momento.

Influenciada sonhara.

“Honny soit qui mal y pense”

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Maria José Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 01:02

O cuco e as tengarrinhas - 5 -- (Histórias com receitas e Mezinhas)

Segunda-feira, 14.10.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº  3.104   - de  6 de Janeiro de 2011   
Histórias com mezinhas e receitas
O cuco e as tengarrinhas - 5


Toda a vida a Palmira e a família trabalharam nos campos. Já assim haviam feito seus pais e avós – avozes – como ela sempre dizia, porque ainda que se lhe quisesse ensinar a palavra correcta, a resposta era inevitável frente a qualquer esclarecimento: - a gente sempre se entendeu falando à nossa “manêra”, não temos nada que ver com o que fala a gente fina.

Logo portanto, estava dito, e assente que não havia alteração possível, e, na verdade, ela, tudo quanto dizia era de forma peremptória para que não restassem quaisquer dúvidas e, alguém ousasse contradize-la.

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Vestia sempre de negro, exibia esse sinal de viuvez como uma arma de arremesso e, também, como um título de nobreza. Por via disso, à mais pequena desconfiança de que não recebera as devidas atenções punha um ar muito compungido e fazia soar o seu lamento: -lá porque sou pobre e viúva!...ou: - têm que “sabéri” que “nã” se brinca com uma viúva, pr’a mais de certa idade!

 A agressividade dependia da categoria social do interlocutor, mas o gostinho de especular nunca lhe escapava.

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Rezava muito, benzia-se frente ao que a aborrecia, ao que admirava, ao que a fazia rir, verdadeiramente, por tudo e por nada. Já não era nem fé, nem superstição, era um tique.

Usava penduradas ao pescoço, por um grosso fio de prata, como “escapulário” a “cruz da caravaca”e uma bolsinha de baeta muito puída onde, dizia, tinha as relíquias do “Santo Lenho” herança que já vinha dos “ avozes”

Não me lembro de a ver de cabeça descoberta e, assim, o lenço negro que lhe embiocava o rosto só deixava que se lhe visse um pouco  do cabelo, já mais branco que grisalho.

Compunha afinal a imagem comum das mulheres – sem idade – que faziam mandados, lavavam roupas, caiavam e prestavam esses serviços avulsos que lhes rendiam algum dinheiro que as salvasse da humilhação da indigência quando a segurança social ainda não se institucionalizara.

Também, como as mulheres desses tempos, sabia um sem número de mezinhas e benzeduras, conhecia as ervas boas para alimentar os coelhos e, muito principalmente aquelas que os pobres colhiam para matar a fome – e, que agora, estão na moda p’rós ricos – acrescentava com amarga ironia.

Pedi-lhe então que me arranjasse umas acelgas( espinafres silvestres) para fazer sopa de grão de bico só temperada de azeite, dentes de alho e folhas de louro com mistura de mogango partido em pequenos cubos para fazer o caldo grosso, como em criança eu adorava comer na aldeia de Santa Victória, onde andei na escola primária, lá para os lados de Beja.

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As mulheres metiam tudo na panela de barro, ou de ferro, ao mesmo tempo e, ali ficava, à beira do lume de chão, fervendo devagarinho, devagarinho, (levando volta e meia  para não agarrar “bispo” mais “uma penguinha d’água”, até à hora da ceia em que  perfumada com um farto ramo de hortelã que incensava a cozinha inteira, quente, ainda fumegante, a panela vinha à mesa para a ceia da família.

Que sim senhora, que, a comadre tal, os apanhava para vender, e que eu estava servida. Lembrei-me, a talho de foice, de falar no meu apetite de saudade pela sopa de cozido de feijão com carnes e enchidos de porco e as saborosas tengarrinhas (cardos rasteiros que se ripam para os livrar dos picos e têm o paladar semelhante a Alcachofras) que, para não deixarem o caldo negro, devem ser escaldadas com água a ferver, antes de serem cozinhados. Usam-se desde tempos ancestrais, por todo o Alentejo, migadas em pequenos troços, como mistura de sopas e cozidos, como se faz com o feijão verde.

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Oh! Oh! - Se conhecia! – Mas, isso agora, já  não era possível.

Só para o ano! – Por mor do cuco, que já veio – já lhes cuspiu para cima, já endureceram. Esclareceu com a maior convicção!

P'ró ano, se me alembrar com tempo – arregalo-a, mas tem que ser antes do cuco cantar, aí por começos de Março.

E recitou como aprendera, em nova, uma quadra que os rapazes cantavam nos “balhos” do seu tempo…

Tengarrinhas são sadias

Cá por mim, eu gosto delas!

Em vendo moças bonitas

Não me quero apartar delas

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 Maria José Travelho Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 15:19

in - Estive lá. No Intensidez Bibliocafé.

Domingo, 13.10.19

http://antimascara.blogspot.com/2008/12/estive-l.html

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

 
Estive lá. No Intensidez Bibliocafé.
Na verdade, já lá havia estado. Primeiro, pela voz da Ana e do Davide, numa longa viagem até Trás-os-Montes, em 2007, rumo aos " Dias da Criação", na Casa da Eira Longa, em Vilar-Boticas; depois, quando me mostraram um espaço cheio de pó e restos de cimento, onde viria a ser o Bibliocafé.
Entretanto, ocorrências de vidas e de mortes fizeram-se tempos de recolhimento; até que uma noite a Ana ligou; um amigo estava a fazer um trabalho sobre poesia ... "será que podes vir tomar um café para conversarem um bocadinho?" E pronto. Foi assim. A Ana e o Davide são assim. Porque o mais importante são as pessoas. Porque o que interessa é estabelecer pontes entre as pessoas. Era impossível não ir, apesar do frio, apesar deste meu vício da casa, em que o jantar se prolonga conversas adentro e quando olhamos para o relógio, já é meia-noite. Apesar de uma espécie de fobia social que às vezes toma conta de nós, devido a artificialidades e pseudo-intelectualismos.
E valeu a pena. O Bibliocafé é um espaço cheio de livros, onde tudo convida a cumplicidades. O amigo, aquele de quem a Ana falava quando me telefonou, falou de poemas e músicas e mil-e-um projectos; depois, um outro amigo trouxe a sua água e sentou-se à mesa, falando-nos da Sr.ª D.Maria José Rijo e da sua poesia; o Davide, sempre atento, rapidamente foi a uma prateleira e trouxe a revista "Terra Mãe"(1), onde constava uma entrevista com esta Senhora.E continuámos viajando e saboreando o café que ali, tem um sabor muito especial.
Bem-hajam, Ana e Davide:)
Saibamos nós fazer jus a este espaço e a estas pessoas que tiveram a coragem de acreditar, instalando-se no Alentejo, investindo na cultura e oferecendo uma alternativa que, de facto, vale a pena.
Pela minha parte, saí com a certeza de que havia de voltar.
T.C.

Intensidez-Bibliocafé: http://www.intensidez.com/
Srª D: Maria José Rijo: http://paula-travelho.blogs.sapo.pt/175662.html

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publicado por Maria José Rijo às 15:35

O Aniversário do Avô Livro - 1994

Sábado, 12.10.19
Conversas Soltas
Nº 2.244 – 15 de Abril de 1994
Jornal Linhas de Elvas e Jornal O Dia
O Aniversário do Avô Livro

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Com a minha amizade agradecida a todos quantos faziam o favor de ler o meu “À Lá Minute” e também para as delicadas colaboradoras que ainda hoje se empenham na defesa do Património inestimável que a nossa Biblioteca contém.

A notícia correu na cidade.

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Em 30 de Dezembro de 1988 – na nota da semana do Jornal “Linhas de Elvas”

 JOSÉ RIJO escrevera:

“Festejar o lançamento de um livro é normal, é do dia a dia. Festejar 500 anos de vida de um livro é ideia que ultrapassa a simples satisfação e orgulho de um autor pela obra concluída para ser uma demonstração do respeito natural e dignificação pelo “Livro” na generalidade.”.

 

Por entre as altas estantes repletas de livros que vestem as paredes de salas e corredores do velho convento dos Jesuítas adaptado a Biblioteca desde o dia 10 de Junho de 1880 – no reinado do Senhor Dom Luís que Deus tenha em sua Santa Guarda – passava eu naqueles anos 86/89 vezes incontáveis.

Faze-lo era uma preocupação do meu quotidiano que nunca se tornou rotineira.

Fosse das brancas abóbadas, do vermelho da tijoleira encerada, da passadeira de corda que abafava os passos, fosse dos reflexos de luz nas estantes castanhas. Fosse da presença dos cerca de 80.000 livros. Fosse dos nomes gravados de autores, beneméritos, fundadores… fosse do que fosse o ambiente por lá tem qualquer coisa de poético e sagrado que prende.

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Nos dias bonitos, pelas janelas talhadas nas paredes espessas por onde se espreita o jardim, entravam nesgas de sol que no movimento cadenciado do tempo iam como ponteiros luminosos indicando lombadas, avivando oiro de letras acordando da sombra títulos mais gastos como que sugerindo: - olha aqui.

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Os livros novos, com seu cheiro de colas e tintas frescas despertam o apetite, a gula como caramelos. São apetecíveis, alegres, vistosos. São quase “barulhentos” na vivacidade das cores das capas.

Os livros antigos são mais silenciosos e comoventes. São discretos, quietos e sábios como eremitas.

Passar por entre eles, assim – tu cá, tu lá – já era um privilégio.

Então sentia-me como um centurião cheio de fé a quem -  segundo S. Mateus no Evangelho Jesus disse: “Vai e assim como acreditaste assim será”.

Nunca duvidei que o milagre vivia ali ao meu alcance.

Os livros ressuscitam a qualquer momento.

Era só parar.

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Parar, estender um pouco o braço, espetar o dedo indicador, pressionar o topo de uma qualquer lombada e pronto.

O livro cede. Obedece. Inclina-se.

Fica rendido – disponível.

Então a mão completa o gesto, dá-lhe apoio e recolhe-o. Abri-lo, folheá-lo, lê-lo… é a tentação.

Pronto. Aí está oferecido – de bandeja – uma vida, uma alma, um passado, uma aventura, uma experiência, uma história, um amigo, uma companhia. Tudo um livro pode ser e conter – mas, sempre, sempre o milagre à nossa mão.

 

Lê-se, relê-se. Pega-se, larga-se.

Ama-se, detesta-se, dá-se, vende-se, compra-se, rasga-se – queima-se – conserva-se! E tudo o livro consente.

Será que sente? – (Às vezes penso que sim)

O livro. Aquele livro noticiado fazia 500 anos.

Foi impresso em “Veneza no ano da Salvação de 1488, 8º Dia das Calendas de Novembro” – o que equivale actualmente ao dia 25 de Outubro.

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Escrito em latim, tem o título de “Liber Medicinalis” e foi seu autor Quinti Sereni.

Veio-me ter à mão, por acaso.

Era agradável ao tecto, quase morno, como um corpo vivo.

Fiquei a passá-lo de folha em folha. Dos livros até o cheiro é bom – (era o meu estribilho) quando falava à garotada que procurava contagiar do meu desvelo por eles.

É um livro belo, profusamente ilustrado, cheio de referências à astrologia – um livro cheio de mistério, muito bem conservado ainda.

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As páginas amarelecidas tinham manchinhas, como sardas, cor de chá num rosto nobre de pele curtida empregaminhada pelo tempo.

Como se vestisse um casaquinho justo de cabedal castanho, ali estava, nas minhas mãos enternecidas, encadernado em couro macio como seda.

Não é de todos os dias que se tem o condão de conviver e poder tocar em preciosidade como esta.

A biblioteca que o acolhe tinha sido recuperada com esmero. Cativar pequenos para o entre e sai que os familiarizasse com o espaço era o propósito principal de tudo que então, por lá se fazia.

A descoberta daquele “Avô livro” que fazia 500 anos foi um achado.

Logo se acomodou (a recato de tentações) mas em evidência e foi honrado com sua vela de aniversário, seu laço de fita de cetim branco e sua taça de rebuçados para retribuir “docemente” a atenção de quem quer que o cumprimentasse. Foi a festa.

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Ficou entronizado ao meio da sala de leitura e até se conduziram pela mão os mais miúdos.

- Anda, vem vê-lo! – Dizia eu – mesmo que não o entendas não faz mal. Ele é de outros tempos, usa outra linguagem – mas vem. Vem, que ele gosta e tu também vais gostar. Verás que te oferece rebuçados dos que ele usa para a tosse…

E a garotada, emocionada ria. Queriam ver, faziam perguntas. Deslumbravam-se descobrindo que aquele livro já existia no tempo das descobertas. E com seus olhos limpos de crianças, arredondados de pasmo repetiam: do tempo dos descobrimentos?

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Os rebuçados iam desaparecendo. Iam-se renovando e velhos e novos, iam sorrindo e reflectindo conforme as idades, a formação, os gostos, as preocupações sobre aquela festa singular.

No centro do acontecimento – o Livro – Um livro!

Era o seu mês de aniversário.

Era a sua honra de ser o anfitrião de honra naquela Biblioteca fabulosa, recheada de maravilhas e ainda com tantos segredos por desvendar.

Ensinam-se as crianças a lavar-se, vestir-se, pentear-se, estar à mesa desde a mais tenra idade.

Dá-se-lhes responsabilidades pelo brinquedo caro, o fato, a prenda de ouro.

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Saiba cada qual desde que começa a identificar o seu prato, a sua cama, a sua casa, a sua rua – que é igualmente seu e está à sua guarda o património que testemunha o passado do seu País – e tudo mudará.

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Se eu tivesse duvidas – que não tenho – bastaria recordar a unção, a religiosa alegria que transbordava do rosto de qualquer menino ou menina a quem eu desse a mão e conduzisse junto da estante do cancioneiro da Públia Hortênsia para lhe pôr “aos pés” um botão de rosa, ou, um pé de rosmaninho junto aos Anais de Elvas ou qualquer outra simples homenagem a qualquer livro raro.

Se eu tivesse dúvidas…

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Pensaria na dignidade, na compostura com que me acompanhavam e ficaria com a certeza, que guardo comigo, que o faziam como quem pede a bênção a um velho antepassado – com comoção e respeito e a consciência de que aquele culto os transcendia.

Maria José Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 12:22

As gavetas da memória

Sexta-feira, 11.10.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.853 – 16 - Fevereiro-2006
Conversas Soltas

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As gavetas, são um mundo, uma verdadeira instituição.

Penso até que mereceriam ter uma irmandade, uma confraria.

Por vezes, as gavetas, são um mundo de ordem, outras, um mundo de mistério, de evocações, segredos lembrados ou meio esquecidos, e, também, não raro, verdadeiros caos de balbúrdia e confusão...

Quando se é criança, são um mundo proibido de mexer. E, embora algumas lhes estejam destinadas, só mais tarde, quando as mexidelas, não signifiquem necessariamente desarrumação, só então, o acesso a esse mundo dos adultos, lhes é liberado.

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A gaveta é, um mundo privado.

A gaveta é, muitas vezes, também, um retrato de alma, e, pode valer como um cartão de identidade profissional.

As gavetas são tão importantes que, quando são avantajadas, ganham o estatuto de: - gavetões. Por outro lado, se são maneirinhas, têm o mimoso epíteto de gavetinhas.

Quero dizer: têm como que personalidade, características identificadoras.

...A do puxador de madrepérola...a das flores pintadas...

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Depois, há ainda as gavetas fechadas, aferrolhadas, essas que, são as tais, condizentes com a importância de serem especiais e misteriosas.

E, há as outras do: mete p’rá’í nessa gaveta que depois vejo...de que já se perdeu há anos a chave e, com ela, a consideração.

Há também as gavetas património da família. São as gavetas da cozinha.

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Aí, nessas, todo o mundo julga saber de tudo. Todo o mundo mexe e remexe...e, são as causadoras das perguntas e das confusões domésticas.

Onde está o rapatachos? - o lugar dele era aqui! - Já o mudaram?! Pois não deviam! - A mania de mudarem as coisas de sítio...

Assim nunca se sabe de nada! E, a colher de pau para os bolos!...

E o saca-rolhas? – Será que anda tudo a banhos...

Outra coisa que fugiu do lugar de sempre!

HÁ TAMBÉM AS GAVETAS PRAZEROSAS, SÃO AS DO BRAGAL, COM SEUS BORDADOS E RENDAS DE ENFEITES, SEU CHEIRINHO DE GUARDADOS, COM RESSAIBOS DE ALFAZEMA, TÉNUES, COMO LEMBRANÇAS VAGAS, DAS MÃOS HÁBEIS DE QUEM AS URDIU PACIENTEMENTE E, AGORA NOS APARECE NUMA MISTURA DE ENCANTO E SAUDADE...

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Quantas horas de amor de mães, avós, tias,  amigas, na feitura de enxovais. Toalhas, lençóis, pequenos enfeites...

Então, e o gavetão das trouxas, das casas antigas com passado e longas histórias de vida!...

Quantas pontas para desenrolar lembranças de bailes, casamentos, baptizados, comunhões, idas ao teatro, a recepções... Até de festas de mascarados naqueles Carnavais cheios de requinte em que se abriam os salões e as velas ardiam nos lustres, enquanto as intrigas de amor fervilhavam a coberto das mascarilhas...

Realmente, é inesgotável de sugestões e sedução esse mundo das gavetas...

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Nas gavetas da minha secretária, arrumei durante anos e anos, os meus lápis e canetas, o papel de cartas, os envelopes, o então indispensável mata-borrão, borrachas, clipes, agrafadores e toda essa parafernália que acumula quem gosta ou precisa de escrever.

Um dia, porém, o meu companheiro de cinquenta anos reformou-se e, apareceu-me com umas caixas bizarras onde transportava para casa, todos os pertences que também ele acumulara nas gavetas da sua secretária de serviço. Então, como resposta á pergunta: - onde ponho isto? - Mudaram de dono as minhas gavetas.

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E, nem mesmo agora que essa cedência já há muitos anos se tornou desnecessária, na convicção do meu coração elas deixaram de ser de quem foram, e, até ao fim serão parte da história da minha vida.

As gavetas, estabelecem a fronteira entre o meu, o teu, o nosso...

As gavetas, são, efectivamente, uma demonstração de posse, de marcação de território no nosso mundo dos afectos.

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Maria José Travelho Rijo

 

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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