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CARTA DE JUROMENHA - 1994

Sexta-feira, 18.10.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.249 – de 20 de Maio de 1994
Conversas Soltas

Ao longe vejo Olivença
Mais perto, Vila Real
A meus pés o Guadiana
Correndo manso – na crença
De que tudo é Portugal

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Meu amigo

Quando eu era rapariga, falava-lhe guardando a distância implícita no reverente – Senhor Doutor.

Agora, que os anos, as minhas mágoas e os meus cabelos brancos permitem encurtar um pouco as distâncias, enfrento o seu tu cá, tu lá – de sempre – com um afectuoso: Meu Amigo. Porém, não cuide que este vocativo tem um conteúdo muito diferente.

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Isto quer dizer, apenas, que “ouso” tratar o Doutor que é escritor e jornalista de reconhecido mérito – chamando a primeiro plano a amizade que o velho tratamento já envolvia, embrulhado com o rótulo da dignidade oficial.

Situados que estamos, vou então dizer-lhe que: quando hoje colhi do seu espanto a desagradável sensação do “dinossaurico” atraso que representa o meu jeito de só escrever à mão; o meu vício de improvisar; a minha intrínseca aversão pelas máquinas – a cerimónia que faço com o meu próprio carro…

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Quando isto aconteceu, lembrei-me que me pediram certa vez para escrever sobre artesanato e vou apoiar-me no que então escrevi para o que pretendo contar.

É que, meu amigo, sou e sempre serei artesã.

- Quando escrevo azul, quereria fazê-lo sem caneta, ou lápis, 
- apenas com o dedo molhado na cor do céu.
- Quando digo mar… já vou na onda.
- Quando me encosto a um tronco de árvore e o abraço 
surpreendo-me por não me transformar em ramos, folhas e flores.
- Quando mergulho o olhar num poente a quietude do fim do dia
ameaça-me como se fora o meu próprio ocaso.
Sempre me sonhei erva do prado, ave, nuvem, folha ao vento.
Sempre. Porém, nunca foi senão o que sou -  apenas eu – empanturrada
de emoções como as crianças gulosas fazem com os chocolates – sem conta,
peso ou medida.

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Impossível com matéria desta natureza fazer obra de estilo 
com rigor de pormenor ou moldes de fresador.

Destas mãos de obreira – que me comovem porque iguais às de minha Mãe – grandes e ossudas, com unhas curtas, sem verniz, com esfoladelas da lareira e do fogão, mãos que até já amortalharam docemente – gente muito amada – destas mãos, meu amigo, só artesanato pode nascer.

Um pouco ao acaso, como as flores do campo. Raízes de mim que sou a terra que o sustenta.

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Não me queira sentada à máquina, de dedo espetado soletrando de tecla em tecla, aos pulinhos, como um pardal a comer migalhas.

Não queira. Deixe-me fora desses preceitos de civilização que me são alheios.

Já que me chamou para voltar a escrever – já que o fez – e tem agora a minha família e amigos – todos juntos – a cantar-lhe hossanas – assuma a auréola e dê-me do alto dessa santidade que lhe foi conferida, por tal feito, o perdão de que careço por tanta insipiência, não me espartilhando com preceitos que me constrangem.

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Tempos houve, em que não se usavam frigoríficos.

Bebia-se então água da bilha de barro que ficava de noite ao relento para refrescar – e a todos consolava.

Parei aí. Creia. E, como eu me lembro disto!...

Não invente actualizações para mim.

Saiba-me capaz de acreditar em mezinhas, fazer rezas de “cobro” e “quebranto”, benzeduras…

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Pense-me tecedeira dessas artes e manhas. Veja-me gastando tintas e pincéis em arroubos de naífe.

Registe que me era mais a feição passear de burro e sombrinha aberta no Chiado – e o mais que no género imaginar – mas – por favor, máquinas não! – a não ser de costura e, à antiga, com pedal.

Já sabe agora em que ponto me encontro… onde quer que me encontre!

E que é frequente encontrar-me sentada no poial, da porta de postigo, da nossa pequena casa de Juromenha, a ver correr o rio e a rezar o terço com as mãos ao sol pousadas no regaço.

Juromenha - Paphotografy.JPG

Posso estar só, ou acompanhada, a ouvir e a contar histórias.

Nada de erudito.

Qualquer coisa como um último abencerragem duma ruralidade que quadra bem à minha condição de artesã confessa e assumida.

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Vale assim?

É que me pareceu ouvi-lo, esquecido do “Poder Local” a resmungar comigo:

“Antes eu fosse sandeu
Ou me embruxassem com ervas
No dia em que me apareceu
Aquela artesã lá de Elvas”

Deixo-lhe um abraço agradecido e amigo.

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Maria José  Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 13:17

REQUIEM POR UM RIO – NOTICIAS DE JUROMENHA - 2008

Sexta-feira, 18.10.19

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Dias 5 e 6 de A gosto – ou seja: sábado e domingo próximos – Juromenha vai reviver a sua tradição de honrar com festejos religiosos e populares a Santa Padroeira da sua Igreja e povoação.

Assim, oferece às pessoas que durante todo o ano, lá habitam e por lá labutam, dois dias de intervalo no rame-rame das suas honradas vidas modestas e pacatas para de forma mais alegre e aberta conviverem.

De todos os lados chegam familiares, forasteiros e amigos, por esta altura do ano.

Vêm matar saudades e abrilhantar as festas.

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Fazem-se touradas, petisqueiras, solta-se fogo de artifício. Dá-se largas à alegria.

Baila-se nas ruas. Conversa-se e ri-se.

Vivem-se revivendo-as, amizades, tradições, recordações comuns.

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Mas… se as festas têm o nome de Nossa Senhora do Loreto – a cujo culto – o nosso rei D. Dinis consagrou a então muito importante Praça de Juromenha – lá por esses longínquos, séc. XIII/XIV – a componente religiosa a tudo o mais se sobrepõe.

No Sábado, dia 5, ás 16 horas, a Missa será celebrada por alma dos filhos da terra que Deus já chamou a si.

No domingo, dia 6, às 16.30 será a Missa solene seguida de procissão.

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A vila é pequena. Aninha-se num alto, à sombra dum castelo, como nos contos de fadas. Vale a pena ir espreitá-la!...

A procissão, segue o percurso dos passeios turísticos de qualquer forasteiro.

Afasta-se um pouco das casas e caminha pela estradinha modesta que se desenha entre os campos e a Fortaleza – separando-os.

Cenário constante do quotidiano dos seus naturais.

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Depois, lá ao fundo, num pequeno largo do Arrabalde de S. Lazaro – dá a volta para mostrar o rio à mãe de Jesus e regressa pacatamente ao povoado para repor a imagem no seu altar – que o seu culto – esse - está  entronizado no coração de toda a população.

A Banda, solenemente toca e o sol acende faíscas, como brasas, nos metais reluzentes dos instrumentos musicais…

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Só que, este ano… Este ano – não há rio! No seu leito vazio – como numa cama de hospital, onde a morte recentemente tivesse passado, restam as marcas de quem a ocupou – então, neste caso, metros sem fim de grossas mangueiras a dar testemunho das tranfusões que o rio suportou até exaurir.

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O rio foi sugado até dele restarem apenas poças, como rastos de chuvadas em terras de lama, ou manchas de sangue em locais de crime. O rio foi morto na pátria onde nasceu vítima do uso desabusado do seu sangue – a sua água.

Nas suas margens, glorificando o crime, vicejam exuberantes pomares cuja sede excede as generosas capacidades de dádiva do rio.

Na geografia da Península – aprendia-se assim:

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Guadiana – nasce na Lagoa da Regedora em Espanha e corre, beneficiando terras, gentes e bichos, até ao Atlântico, que encontra em Vila Real de Santo António, no Algarve – Portugal.

Os seus afluentes principais, no nosso país são, Xévora, Ceia, Degebe, Vascão e Odeleite na margem direita. Na margem esquerda: Ardila e Chanca. Porém …

Em nome de um desenfreado progresso – Será progresso, meu Deus? – O Homem que inventa necessidades que ultrapassam as suas reais necessidades e, até, a generosidade da terra, do mar, dos rios da própria atmosfera – tudo modifica.

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Prende os rios. Sufoca-lhes o destino. E, em lugar de neles se deleitar, pescar e dos rios beber – bebe-os! Inverte tudo. Brinca aos deuses.

Faz pomares em terras de Oliveiras sóbrias e chaparros protectores da humidade dos solos…

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Determina as árvores que são proscritas; como se alguma vez, alguma árvore, não tivesse sentido de existir… e, delirante, glorifica o excesso de outras.

Se em democracia se afirma que as regalias de um indivíduo acabam onde começam os direitos de outro indivíduo…

As regalias de todos os habitantes do planeta acabam, necessariamente, onde começa a perigar o equilíbrio da própria Natureza.

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É tão lógico, tão evidente como: não estender o pé além do lençol – coisa que o Povo ensina, apenas, por intuição.

Requiem por um rio, que morre com seus peixes, seus cágados, seus mil bichos de água…

Requiem por um rio, que Deus criou também para embelezar a vida espelhando, árvores, tufos de loendros, céus, sóis e luar e, do céu, beber as chuvas.

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Requiem por um rio, onde o gado bebia, de onde os pobres sustentavam o verde dos seus hortejos nas margens… e perfumava as noites quentes do Alentejo com cheiros de hortelã, mantrasto e poejos…

Requiem por um caminheiro que sonhava o mar e, a má-fé, cruelmente interrompem o seu destino…

Mas… Requiem, também, pelo Homem que quer aprisionar o sonho de seu Criador para o acomodar à sua precária medida.

Ámen!

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Maria José Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 12:20





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