Arte em conchas |
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Maria Jósé Rijo
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Malubiartes |
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Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
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Á La Minute
Jornal linhas de Elvas
Nº 1.844 – 4 de Julho de 1986![]()
(( escultura de madeira de Maria José Rijo ))
Foi perto do rio Degebe, nem sei há quantos anos!
Na sombra duma árvore, à beira da estrada, um pastor descansava, apoiado ao cajado, olhos afundados na distância, absorto. Sentado a seus pés um Serra de Aires, quase pardo, orelha afilada, atento a tudo, boca entreaberta como de alguém indeciso, entre um sorriso de acolhimento ou a pergunta curiosa que se adivinha no olhar e se cala a custo.

Imagem de paz e solidão. “Solidão, ai dão, ai dão – solidão do Alentejo”.
Assomam à memória reminiscências, repetições, aprendidas em dias quentes.
Imagens presentes, fora e dentro da gente que sente e percorre a sua terra.
Paramos a olhar, saboreando o dia, a hora, o instante fugaz, a voz do sangue.
Relembram-se dias, tardes, tempo, visões antigas iguais ao presente, antevendo futuro num clima imutável que institui hábitos com a força de dogmas.

O carro, nós, o pastor, o cão, num instante quedo no tempo, quieto duma espera de contemplação…
Então, surge outro carro, veloz, louco, incontrolado, ruidoso como um besouro a voar ao sol na tarde quente. Guina, ultrapassa e pára mais à frente na valeta baixa.
Gente nova, perturbada, atónita, desculpa-se insegura…
Na sombra redonda da azinheira, bordão caído ao lado, joelhos no pasto seco, o pastor em silêncio afaga o cão, de corpo lasso, mole, deitado agora, com um fiozinho vermelho a escorrer-lhe da boca.
-- “Do mal, o menos, ainda foi sorte, foi o cão! – comenta o causador do dano que tenta violar o silêncio obstinado do pastor.
-- “Quanto quer pelo cão? – Diga homem! – Responda!”
O pastor não fala.
O rapaz insiste: - “ quanto quer, eu pago!”
-- “Não basta o que basta” – Diz enfim o pastor.
“Pago! Pago! Pago! – “Pagas o raio que te parta!”
-- “E à noite os mocinhos!?” – Sim – à noite os mocinhos?!” - interroga enquanto agarra o bordão e se ergue repetindo na voz do seu pasmo inconformado:
-- “Ali, ós mê’s péis! - Ali, ós mê’s péis!
Afasta-se e as ovelhas seguem-no – os carros partem e o silêncio retoma o seu espaço.
Solidão ai dão, ai dão.
Solidão do Alentejo!

Maria José Travelho Rijo



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...com as papoilas que são tão genuínas em abril no nosso alentejo,
brindemos à Liberdade...
(Romana Romão - Presidente da Assembleia Municipal)
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Jornal Linhas de Elvas
Conversas Soltas
Nº 2.356 – 21 /Junho/ 1996
Conto chegar a Elvas antes que esta carta atinja o mesmo destino.
Porém, uma vez resolvi continuar, mesmo de longe, as nossas “ Conversas Soltas”, cada uma de nós e eu – faremos separadas os nossos percursos comuns.
Pois, aqui estou, sem qualquer outra preocupação além de estar convosco, desfiando as minhas recentes lembranças. Aliás, isto de recordações é mesmo assim: - sem cronologia possível.
Tenho em mãos um monte de fotografias. Revendo-as, mesmo agora se me deparou o “Baiano” de quem já falei.
Ai vo-lo mando com seu balaio e um monte de flores, que varreu, juntas a seus pés.
Outro dia, avistei-o numa azáfama a cortar cana. Fui ver. Era cana-de-açúcar.
-“Seu Aguiar mandou”.
-É p´ra cortá e limpá este negócio”.
Cortou, limpou de folhas, raspou e fez “uns troços aí, n´e?” – que “Seu Aguiar mandou".
Mais tarde, “Seu Aguiar”, foi surpreendido em estranhas funções (com bata própria para a função) a preparar a bebida “mais gostosa qui você, já viu, n´é?” – suco ou caldo de cana, que geladinho é realmente uma verdadeira delícia.
Também queria não me esquecer de contar que (na sua grande maioria) aqui na cidade vizinha – Resende – as lojas não têm portas e montras. Toda a frontaria abre como um largo portal e, da rua, vê-se tudo quanto têm lá dentro. Aliás, até dá a impressão de que estamos em contacto com pioneiros, colonizadores. Gente que ainda está desbravando e descobrindo rumos.
Já devo ter referido que nascem por aqui os rios Stº. António, Pirapitinga e o Alambari o que proporciona uma imensidade de veios de água a esta região.
Todas as propriedades, mais ou menos fruem essa benção das águas correntes que escorrem da montanha.

Para chegar a Resende que dista uns escassos 20Km do local onde estou instalada transpõem-se 5 pinguelas (pontes de madeira) – tantos são os braços de rio que refrescam encostas e vales saltando muitas vezes em belas cachoeiras.
Resende, por sua vez, é atravessada pelo rio. “Paraíba do Sul”. Água, é realmente o que por aqui não falta.

Beleza, pujança de verde e pitoresco – moram por cá também.
O “Bate-chapas” é aqui o “lanterneiro”. A razão é óbvia. O automóvel sucedeu aos trens.
Quem sabia mexer em latão era quem fazia as lanternas. Os transportes evoluíram.
O engenho e a necessidade proporcionaram a adaptação... o nome manteve-se.
Os pneus compram-se no... Borracheiro.
É, por aí fora um sem número de curiosidades.
O mal destas viagens, como esta minha é que se vê muita coisa em pouco tempo. Um mês para ver qualquer coisa do Brasil, é – Nada!
Vou procurando resistir à tentação de falar das cidades grandes. Há milhares de postais que delas contam tudo por imagens.
Julgo que o único interesse que estas cartas poderão ter é o relato de apontamentos de acaso que faz a experiência pessoal de cada um.
Aqui há dias, no “Nipo” (mercado das frutas japonesas) com olhos húmidos de comoção uma simpática senhora perguntou-me: é portuguesa ?

Perante o meu assentimento quis saber de que parte do nosso país eu era, se estava para ficar, se não, e mais isto e mais aquilo e lá veio de seguida a sua própria história (de êxito financeiro, por sinal) e muito especialmente da sua pungente saudade.
Tem casa em Coimbra. Deu-me a direcção, telefones e sei lá que mais e insistiram ela e o marido para nos oferecerem de almoçar.
“Sabe? - confidenciava: nós somos mais sentimentais, mais dedicados... – aqui ninguém olha para trás”.
Nós vamos a Portugal todos os anos. Mas... o dinheiro enlouquece as pessoas... já há muitos anos que poderíamos ter regressado! 30 Anos é muito tempo...
De quantas saudades assim estará amassado o progresso do Brasil! – Nem posso calcular.
Estes são donos de uma rede de estações de gasolina e restaurantes – mas ela só sonha com o regresso.
Uma viagem que fiz muito “gostósa” foi a Nossa senhora da Aparecida. (lembram-se da canção da Elis Regina’)

Aparecida é a Fátima de cá. Rezei por Elvas.
Visitei as termas de S. Lourenço e de Caxambu no Estado de Minas.
Agora ficaria aqui horas a falar de orquídeas, parques, fontes, auditórios entre canas de bambú, lagos, teleféricos e mais nem sei quê...
Mas... nem vos quero maçar mais e tenho que fazer as malas para voltar a casa.
Sei que vou recordar com agrado estes dias diferentes. Sei que a amizade que se recebe e retribui ajuda a viver.
Se ainda que ninguém substitui ninguém e nada substitui o nosso canto.
De qualquer modo é bom aprender a viver com o mundo de perdas e ganhos que cada qual transporta dentro de si.
Só com essa paz interior se consegue olhar cada flor, cada pássaro, cada dia que nasce sentindo que “isso” também acontece para nós e esse deslumbramento está ao alcance de todas as pessoas a quem nos irmana o amor à vida.
Maria Jose Travelho Rijo
.Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.355 – 14- Junho 1996
Muitas outras pessoas têm vindo e virão ao Brasil.
Por negócios, por lazer, por motivos diversos.
Quase todas, ou muitas delas visitam em pormenor as grandes cidades, as belas praias, o pantanal e, tudo quanto se visite sempre ficará como recordação indelével.
A mim coube-me a sorte de ficar instalada numa região protegida ecologicamente.
Aqui, quem tiver que arrancar uma árvore nativa tem que plantar cinco da mesma espécie!

Neste fim de mundo, por estradas de pioneiros, passa periodicamente o carro de recolha de lixo e, ainda não vi, nas matas, nos riachos, em parte alguma, uma lata de cerveja vazia, um papel, um saco de plástico!... E tenho palmilhado extensões enormes.
A região ao contrário do que me pareceu à primeira vista, é povoadíssima. Acontece que a vegetação encobre as casas e a área por que se disseminam é muito extensa. Com surpresa para mim constituem-se assim em povoados.
Curiosa e muito interessante é a maneira como se anunciam e “previnem”, quem passa, da sua existência.
Fazem-no por cartazes e tabuletas, às vezes simples, quase sempre belas e artísticas.
Fica-se por vezes com a sensação de que o Município – a Perfeitura – como cá se designa – paternalmente dá a mão a quem por aqui se aventure ou habite.
Numa curva duma estrada, no meio da vegetação pode aparecer uma advertência absolutamente impensável em qualquer outra parte, por ex: “use a primeira marcha”.

Muito interessante também é a acentuada influência de outros países na formação das cidades. Algumas que já vi são nitidamente micro-países implantados neste Brasil de dimensões sem medida. Penedo – por exemplo: fundado em 1929 por Finlandeses – começou numa antiga fazenda de café, já improdutiva, porque exausta a terra pela monocultura. Oitenta a cem pessoas lideradas por Toivo Uuskallio, naturalista finlandês, repovoaram o espaço com árvores de fruto e espécies nativas, dedicaram-se ao artesanato, compotas, cultivo de plantas medicinais e enriqueceram a cultura brasileira introduzindo aqui os seus costumes. Foi graças a essa gente que Penedo se tornou berço da flora no Brasil e as pessoas entenderam e aceitaram o lema que os guiava:
“Viver de acordo com a natureza”.
Outra zona particularmente bela e diferente é Campos de Jordão nos vales e encostas do Itapeva (cá está outra vez ITA = a grande em Tupiguarani). O Pico do Itapeva tem 2030 metros de altitude.

Campos de Jordão reúne três cidades Abernéssia, Jaguaribe e Capivari. Aqui a influência escocessa e alemã – são evidentes bem como a suiça – até nos nomes dos hotéis, pousadas, restaurantes, cujo número excede os setente, fora cantinas, pizzarias, etc, etc.
É na verdade uma impressionante e linda estância de turismo.
É lá que gira “a tal” Maria Fumaça – a maquininhq a vapor de 1893 – que recuperada lá vai puxndo o “trenzinho” e eternamente foi apelidada de “Vóvó Hortência”.
A propósito de apelidar tudo a torto e a direito, um apontamento engraçado. Procurava eu, numa das lojas aqui de Resende, um creme para me defender do sol da montanha, quando uma crioulinha muito graciosa entra e diz:

---- Oi! – Mi dá aí P.H?
---- Qui cô você qué? – Perguntou o dono da loja
---- Marélinho.
E, frente ao meu divertido espanto lá saiu a garota com uma embalagem de papel higiénico na cor requerida.
Também na semana passada quando estive no Rio instalada em casa de familiares na Barra da Tijuca, vivi momentos de beleza que nem vou tentar descrever.

Via das nossas janelas nascer o sol por detrás do Pão de Açúcar e, à direita, tinha o calçadão e o oceano imenso logo ali a meus pés, a falar-me dos laços indeléveis que unem os nossos povos.

Á noite, a praia imensa e iluminada como se fora dia.
O proprietário do apartamento (advogado muito conhecido aqui) quando se apercebeu que um Ministro tinha mandado retirar, em Brasília, aquela célebre bandeira de dimensões imensas – pôs uma acção contra a decisão governamental e – ganhou!
Aqui está uma verdadeira “coraçonada “ á portuguesa. Aliás, ele é casado com uma patrícia nossa.
Aproveito para confessar que jamais pensei que o Rio pudesse ser o que é e, como é.
Não tenho sequer, definições.
Emudece-me a beleza natural – mas também – a visão indisfarçável da “Rocinha” a maior “favela” da América Latina – com 300.000 habitantes.

Comove-me o rasto indelével dos portugueses.
Perante a minha confissão de ter achado o Rio feio visto de avião – foi-me explicado que entrando por aquele voo que eu fiz, toda a gente é levada a dizer o mesmo. O que não acontece a quem vier por S. Paulo.
Vou andar por aqui, se Deus quiser, até Junho. Talvez volte a escrever, talvez não.
O serviço de distribuição postal aqui é caótico. O Brasil é um país de contrastes clamorosos.
Tinha que ser assim, dadas as suas dimensões e a disparidade de desenvolvimento de umas zonas para as outras.
Só este Estado tem mais população do que Portugal inteiro. Falam-me em 12,13 milhões...
Há extensões maiores do que o Alentejo inteiro, só cobertas por de capim.

Conta-se que um político japonês (de quem rezam o nome) visitando o País por convite governamental, com aquela subtil ironia, própria dos orientais, perguntou ao parceiro ministro que o acolitava: “No Brasil é proibido cultivar a terra? “.
A minha visita ao Rio foi – por sorte minha – feita de contrastes.
Hóspede de gente abastada, fidalga no trato, foi-me mostrado o melhor de cada coisa deslocando-me em bons carros com companheiros conhecedores do meio. Depois, quis, por minha decisão mergulhar no “povão” – usando transportes públicos e mudando de “ônibus” sempre a entrar pela porta da frente usando o benefício expresso em letras bem visíveis na carroçaria:

“Gratis a maiores de 65 anos ,Estudantes uniformizados, Crianças e deficientes”.
Aí, aprende-se vivendo circunstância, que as pessoas são generosos (dão o lugar aos mais velhos...) afáveis colaborantes e, até cheios de humor.

Os vendedores de rua, que surgem como formigas, de tudo quanto é lado, entram frequentemente também pela porta da frente – por condescendência dos condutores (colher de chá, como aqui dizem que só dão os que não têm espirito de porco!) – e percorrem o corredor central das viaturas anunciando os seus produtos e saindo pela porta de trás.
Fazem-no quase em surdina numa melopeia engraçada, por exemplo:
“Olha p´rá distráir a fôme até chegá o chocólatchi, dá
Alimento, aquéci.
Um vale um réau
Dois vale réau e meio
Si você próvá qui tem salário minimo é di graça.
Também nâ chêga p´rá nada mêmo! “
Ninguém comprou, saiu dizendo:
“Ó minha Nossa! – Vida gosada! – Não é qu´é mêmo só diabético!”.
Assim por aí fora – Um baráto – como eles próprios diriam.
A Avenida onde os idosos se passeiam e sentam ao sol é o – “aposentadromo”, O quiosque das goludices é a “chicléteria”.
Mas a definição da zona onde assentei arraiais é, no guia turístico referida assim por Helena Reis:
"Falar de uma região santuário ecológico é:
murmurar com as águas, cantar com os pássaros,
ser doce como o mel das abelhas e sair beijando flores.
É sobretudo, agradecer a dádiva da natureza e preservá-la”.
E... é verdade! É verdadgi Mêmo!
Maria José Travelho Rijo
Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.354 – 7-Junho -1996
A serra a que se encosta a “roça” onde estamos chama-se Itatiaia – o que quer dizer: - ita – pedra – e, neste caso pedra com muitos bicos.

Três desses cumes – gorila, gorilinha e mata-cavalos – são o fundo do nosso cenário de cada dia.
Mata-cavalos porque, animal que quebrasse as pernas passando o estreito entre as serras, o que era frequente, morria por lá. A altura da serra é de 1.800 metros.
Por detrás destes montes esconde-se o sol aí pelas 17 horas mais ou menos. O crepúsculo é breve. O mesmo é dizer que às 18 e 30 é noite fechada e os serões são intermináveis. Para nós, portugueses, que raciocinamos em termos de outro fuso horário, confunde um pouco.
O dia começa-se muito cedo. Às seis da manhã, hoje já o Baiano de” balaio” ao ombro (Balaio é um cesto. Já ouvi este termo no Algarve, na região de Estombar) e forquilha na mão se preparava para limpar a relva das folhas caídas.

Esta “roça” é atravessada por um rio o “Piripitanga”. Como ele vem da montanha aqui junto, onde nasce, o seu caudal não é aqui ainda muito volumoso. Daí que tenha sido domesticado em função da beleza do local. Com imaginação e aproveitando os enormes rochedos de granito fazem-no serpentear por todo o lado e passar por sucessivas albufeiras que escorrem de umas para outras.
Sendo a propriedade de um português a “roça” virou “Quinta das albufeiras” em vez da designação local. O espaço é grande. Embora tenha a horta bem disfarçada entre a cultura de abacaxis e outras próprias da região “taioba” por exemplo (cujas folhas se comem em esparregado e sopa e o rizoma frito como batatas) – a propriedade, dizia, está mais vocacionada para lazer. Além da casa dos donos tem dois pequenos “ranchinhos” para receber com independência familiares e amigos.

Instalaram-nos quase escondidos entre a vegetação exuberantíssima e de tal modo que o sol ao nascer lhes bate nas janelas e a passarada começa logo no corre-corre aos comedouros que lhes estão destinados e estão sempre bem providos de fruta e sementes.
Assim, a gente, quando acorda quase julga que durante o sono se mudou para o paraíso.
O “ranchinho” que escolhi para mim está erecto sobre uma ponte de cimento que atravessa o rio. Rente á janela, a sul, tem uma albufeira onde às seis da manhã já andam os “Jacus” – parecem pequenos perus e uma outra ave com patas vermelhas e pernas altas, parecida com uma grande perdiz que se chama “Saracura”. O rio, alimenta a piscina frente á minha porta e corre, corre sem parar como é destino dos rios.

Toda a noite o som da água embala a minha saudade pelas pessoas que queria ter junto de mim.
Logo ao amanhecer quando escuto o som que lhes é próprio, fico quieta por detrás dos vidros da janela a ver esta passarada entrar e sair do mato e banhar-se na lagoínha de águas tão límpidas e transparentes como se Deus a tivesse acabado de criar.
Á noite, de luz apagada venho para a porta olhar o céu. Parece mais baixo e mais estrelado do que aí. Não fora o “cruzeiro do sul ” lá no alto e quase pensaria que tudo isto era um cenário imaginado.
Ao lado da “minha” porta é a sauna e a seguir o alpendre dos churrascos.
Há cinco anos instalou-se na região uma colónia de finlandeses que trouxeram para cá este costume.(Noutras zonas que já visitei e de que gostaria ainda de falar há marcadas influências alemãs e suíças a ponto de pensarmos que mudamos de país tão acentuado é o cunho que lhes imprimiram.)
Aqui fazem sauna á noite e de imediato vão ao banho na piscina.
Até agora não ousei a experiência!...
Regalo-me na piscina, sim! – Mas de dia com um sol luminoso e quente a confortar-me.
Ontem, houve churrasco – era dia de aniversário do dono da casa – razão que cá me trouxe Festejar 80 anos com estas condições físicas e intelectuais é mais do que razão para festejar.
O Churrasco, aqui, é uma tradição engraçada. Veio o “churrasqueiro” e a mulher para as tarefas domésticas.

Assaram boi, frango, linguiça e lombo de porco. Beberam cerveja, vinhos, caipirinhas e caipiroskas.
Tal como nas novelas o churrasqueiro e a mulher discretamente, confraternizam com as visitas e os donos da casa.
Mesmo para as carnes, os acompanhamentos metem sempre: “feijãozinho”, “arroiz” e salada de batatinha.

As pessoas são afáveis e comunicativas. Conversam de tudo e de nada, de política e de assuntos de interesse local.
Fazem-no sem o nosso ar de tragédia.
Comentam a “porcaria da estrada”. Riem porque as “pêssoas” sacolejam como pipocas na panela dentro dos carros e contam seus “récores” de tempo para cobrir os “malvados” 20 quilómetros de buracos que unem Resende à Serrinha.
Aqui tudo se baptiza. A máquina a vapor do comboio que faz turismo em Campos do Jordão é a “Maria Fumaça” que puxa o “trenzinho”.
As cuecas que quisemos comprar para os garotos são “samba-canção” e, é tudo, tudo assim.
É indiscutivelmente gente bem disposta e com sentido de humor.
Aqui em casa há 3 carros. O “Belo António” que já referi, o “Quebra Galho” para carregar compras e mandados no dia-a-dia e o “Fusquinha” para as saídas rotineiras do casal.
Por todo o lado, até nas rochas – incrivelmente – floresce em rosa, salmão, e vermelho, uma planta linda que aí se compra na florista e se chama “alegria da casa”.
Pois aqui, tal como cóleos e crotones ela borda estradas e caminhos em abundância. Como não a conseguem controlar foi também rebaptizada de “Maria sem vergonha” – porque reaparece por mais perseguida que seja.
Há por cá uma imensidão de pássaros lindos. Sempre que avisto algum diferente pergunto o nome e anoto.

Outra vez que calhe, falarei deles.
Por hoje, deixo-vos.
Tenho que preparar as bagagens pois, tal como na novela da Tieta – amanhã se Deus quiser conto ir para “Sum Paulo”.
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Oxalá Dona Ninete queira fazer de cicerone!...
Maria José Rijo
Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.353 – 31 de Maio 1996
Chegamos aqui num voou da TAP, que inesperadamente nos levou até ao Porto
como primeira escla.

Com essa variante arranjamos 10 horas de viagem quando poderiam ter sido apenas nove.
Meia hora de Lisboa ao Porto e mais outra meia fechados no avião para retomarmos o nosso rumo aumentaram a chateza da viagem que, graças a Deus não teve percalços.
A comida era péssima – que a TAP – está cá com uma descontracção!...

Para matar o tempo – televisão – que nem olhei. Optei pela música, que escolhi ao meu agrado e me regalou. Dormir em viagem?! Nada. Não é comigo.

Vista de cima a cidade do Rio de Janeiro perturba pela imensidade das suas dimensões. Parecem oito ou dez cidades das nossas todas juntas, mas, não se compara – para mim – com a beleza de Lisboa vista do alto.
Eram sete horas e vinte locais, quando o avião aterrou. Onze e vinte aí na nossa terra.
No aeroporto a Família em festa, aguardava-nos de máquina de filmar para registar o evento.
Depois dos abraços e das formalidades os primeiros telefonemas para “casa” a dar conta da viagem.
A primeira impressão que se colhe em terra é de largueza, de espaço e do verde vivo da vegetação exuberante.

O ambiente humano é como o das cidades portuguesas e espanholas de fronteira. Isto é: -- muita gente nas ruas, afabilidade no trato, desconcentração e à-vontade de quem estivesse a gozar férias.
Os nossos anfitriões estavam de carro. Olhei as bagagens com alguma preocupação. Não havia razão para tal. Era um V.Wagem “Quantum” que as engoliu sem custo e mais que fosse.
Por aqui tudo se baptiza com bom humor. Assim o nosso transporte é o “belo António” para “injuriar” o dono que trata os carros com excesso de zelo. (Fofoca de amigos!)
Chegamos ao Rio cansados, pés inchados... Mas... tudo bem.

O nosso primeiro contacto com o “povão” foi no mercado de frutas. Sentíamo-nos como que a viver um capítulo de novela. Por todos os lados verdadeiras montanhas de mangas, carambolas, abacaxis, fruta do conde, mamões, papaias, uvas, melões, bananas...Sei lá que mais!

E, todas mais baratas por kilo do que as cenouras que, aqui, são caras.
Logo que abastecidos, acomodamo-nos no carro e começamos a viagem rumo à região sul do Estado do Rio de Janeiro (antigo Estado da Guanabara). Lá fomos estrada fora entre as imensas filas de trânsito de camiões como é comum em todas as rodovias.
Sempre presente a sensação de imensidão de espaço. Quando se começa a subir para a montanha é que tudo muda.

Começam a surgir por todos os cantos “botecos”.
Parámos num deles “Belvedere” para tomar água de coco e comer pastéis fritos de banana e queijo.
Reabasteceu-se o carro no posto de gasolina anexo e reparei que também têm bomba de álcool.
Há por aqui muita viatura que usa esse combustível que dizem ser menos poluente.
Tínhamos o propósito de almoçar em Resende – que é a cidade mais perto do nosso destino.
A cidade é pequena. Lembrou-me “Ayamonte”.
No centro – o calçadão – onde as esplanadas se sucedem. Deixam apenas uma faixa de rodagem para os carros. As outras duas estão transformadas em avenida. Tem imensas lojas de atacado. Percebe-se perfeitamente que por aqui se fornecem os fazendeiros da região. Tem também outro tipo de comércio. Aliás as lojas pegam umas nas outras, mas, sem grandeza. Tudo muito provinciano.

Outro indício da pequenez do meio é que toda a gente se conhece.
Escolhemos para almoçar “Casa Blanca”. Lá estavam no tecto as grandes ventoinhas do célebre filme.
Fabulosa a comida tipo caseiro.

Saladas variadissimas e iguarias típicas. Desde o feijão com arroz e farofa – obrigatórios – aos ovos de codorniz, passando por toda a espécie de grelhados – há de tudo, todos os dias. Só não serve jantares e o café ou chá no fim das refeições – á escolha – está incluído no preço da refeição que custa entre 4 a 6 reais – vinhos, à parte.
Tivemos sorte com o tempo. Sempre soalheiro. O Outono aqui é a melhor estação. No Verão chove imenso.
Excluindo as estradas principais – os caminhos são péssimos.
A subida de Resende para a montanha faz-se por um verdadeiro trilho de cabras. Só covas e pedras. Parece um leito de um rio seco. Mas é o que há e quer os carros particulares quer o autocarro da carreira passam todos pelos mesmos percalços.
Compensa-nos a paisagem. Vegetação intensa e variada. Já anotei os nomes de imensas árvores.
Em flor, agora, estão três.
A Quaresmeira de floração roxa. Angico de floração amarela e a Spatódea florindo em vermelho vibrante.

Ainda se avista um ou outro Ipê roxo em flor. Dizem que é a árvore mais bonita do Brasil (quando referem o amarelo!)

A julgar pelo roxo acredito que sim. Tal como as olaias aí na nossa terra dá flor antes que lhe nasçam as folhas. Só que floresce em cachos redondos como hortênsias que ficam pendurados nos ramos como balões. É realmente muito bonita!
A roça – ou sítio – onde estamos, parece um jardim colocado na base da montanha a que se encosta.
Estamos a 900 metros de altitude. Do outro lado da “picada” frente à “nossa” entrada, é o portão duma Pousada de montanha. Aliás, há-as às dúzias serra acima. Toda a encosta da montanha está coberta de floresta virgem.

Os macacos, em bandos, ao amanhecer e à tardinha vêm numa algazarra doida saquear os bananais nos locais mais isolados. Ninguém lhes dá comida porque por vezes se tornam violentos. Porém ao resto da bicharada toda a gente oferece protecção colocando comedores em sítios certos.
O meu encanto é um esquilo que todas as manhãs desce pelo pé de mamoeiro junto à janela e vem comer à mão nozes e amendoins.

Hoje, no fim da refeição roubou uma banana aos passarinhos e foi come-la à nossa frente numa rocha coberta de antúrios vermelhos em flor.
No alpendre da casa, suspensos, estão frascos com água bem açucarada para os colibris.

Porém, como até no paraíso tem que haver complicações há um – a que chamamos – “a bruxa” – que pousa constantemente na “Samambaiçu” ou na “Quaresmeira” frente a nós e vem atacar todos os colibris pequenos que ousem beber das garrafas que ela considera suas. Ontem à hora do almoço dois “tucanos” calmamente catavam comendo as tâmaras dum palmito.

Chego a pensar que é irreal a beleza que nos cerca.
Qualquer dia digo os nomes dos pássaros e das árvores que alegram aqui a nossa vida. Os nomes dos rios que já atravessamos e das cachoeiras onde já tomamos banho e mais um rol de coisas que nos dão a visão deste mundo diferente.
Até a figura do caseiro – “O Baiano” – é digna dum postal ilustrado. Parece criado a propósito para turista ver.
Qualquer dia escrevo outra vez para o jornal. É a maneira mais fácil para mim de dar notícias aos amigos todos de uma só vez.
Maria José Rijo
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