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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Por uma ninharia

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.931 – 23-Agosto-2007

Conversas Soltas 

Cada um de nós – ou se debruça sobre o seu próprio umbigo, e, necessariamente anda à roda, à roda, e entontece o que sempre ameaça a verticalidade de qualquer posição – ou - olha em redor, observa, escuta,  explora lembranças, faz comparações, colhe ensinamentos e procura ajuizar de tudo quanto vive, com serenidade.

 Depois, modela os seus actos, não por impulsos, mas pela ponderação das lições que da vida vai recebendo e das quais, então, quase instintivamente recolhe ilações e consequências.

                 [MªJosé-6anos.jpg]

Quando eu era criança, fazia sempre o trajecto da nossa casa para a escola pela mão de alguém capaz de dar protecção. Não sei de que perigos! Mas, nesse tempo, criança, não saia à rua sem companhia respeitável.

 Havia até umas senhoras, já de certa idade, da chamada pobreza envergonhada, que tiravam desse serviço os seus parcos recursos.

           76el-alegre-rostro-de-la-pobreza.jpg

 Lembro-me, que com a desculpa de encurtar caminho, sempre conseguíamos ir por uma rua chamada “Do Ulmo”, que embocava num larguinho, para onde convergiam portões de quintais de grandes casas senhoriais.

Era rua mal afamada. Era suja e pobre. Só tinha casas de um lado. Do outro era um paredão alto. Era escura. Tinha dois largos pontões por cima, formando uma espécie de túnel, que, faziam num nível superior, pontes de entrada para duas casas amarelas, grandes, situadas, mesmo em frente à Praça do Mercado Diário. 

Nesses tempos em Beja não havia esgotos.

As carroças da limpeza, como eram designadas, percorriam de madrugada as ruas da cidade recolhendo para despejar os latões que junto das portas se perfilavam impregnando o ar da noite de um odor pestilento

Na Rua do Ulmo as valetas imundas pareciam vazadouros.

A coberto do escuro faziam delas o pior uso. Só no Inverno as chuvadas que a transformavam quase em açude mostravam o brilho das pedras da calçada.

Mas, dizia-se que ali apareciam “avejões”

Por isso, e pelo contraste que aquele ambiente representava nas nossas vidas sempre um apetecido arrepiozinho de curiosidade e medo nos impelia a escolher tal trajecto. Porém, embora, receosas, apressássemos o passo, nunca deixávamos de ir por ali.

Aquela circunstância de ser mal afamada, de aparecerem avejões na zona, despertava a nossa imaginação.

Então, quando o mulherio se injuriava e se batia agarrando-se pelos cabelos, a ordem que recebíamos era de apressar o passo, arrumar á parede e olhar para o chão!

Mas, de pouco valiam os raspanetes ou as ameaças de sermos acusadas de desobediência, porque, nada, nos afastava da tentação daquela bisbilhotice de roçar um mundo escuro que desconhecíamos e que tanto nos intrigava como assustava.

É que toda a nossa esperança consistia na possibilidade de avistarmos um “avejão”.

              

 Nos serões, pelas cozinhas enquanto o pessoal, esfregava a louça nos farelos, para aproveitar a gordura para “os bicos,” nas conversas, fervilhavam referências a esses tais fantasmas que cobertos de mantos brancos soltavam gemidos lúgubres e arrastavam correntes pelo chão como almas penadas.

Os anos correram, os tempos seguiram-se a outros tempos, e uma vez, por uma qualquer ninharia, veio à tona, no meu espírito, esta reminiscência de infância.

Foi então que percebi que os avejões como tudo que se faz e não se assume, nada têm de poético ou romântico.

Aqueles romances de adultério que a cobardia encapotava, criavam os fantasmas que afugentando dos seus trajectos, possíveis curiosos importunos, deixavam libertas de desagradáveis encontros as entradas de serviço por onde se esgueiravam os comparsas das tristes aventuras.

Já não há avejões. São outros os costumes. A moral do nosso tempo, cresceu em condescendência, ou decadência, aqui, a questão – até – se pode considerar pelo critério de cada qual.

             

Mas os “valentes” anónimos que insultam, espalham atoardas, denúncias, mentiras que inventam, emporcalhando mais a sua própria Vida, que, não dignificam, do que os alvos que perseguem, como os avejões fantasmas, sem sombra de dúvida continuam a desprezível senda dos infames.

Escutem-se os “apitos”, os “papéis timbrados”... E tudo o mais que se vê e ouve, por perto ou longe...

  

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