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O bocejo e o amuo

Sábado, 25.10.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.857 – 16- Março-2006

Conversas Soltas

 

 

Para além do bocejo que a televisão, com os seus prestimosos serviços nos mostrou com insistência, também Portugal inteiro foi brindado com a visão da saída do Dr. Mário Soares, da Assembleia da Republica, sem saudar o novo Chefe de Estado.

Fiquei como muitos outros portugueses a tentar interpretar a inusitada atitude de alguém a quem todos reconhecem a constante bonomia...

Pensei, pensei bastante, e julgo ter achado uma explicação.

Teria sido assim...

Como foi notório, sua Excelência dormiu regalado quase todo o tempo em que a cerimónia transcorreu.

Porventura alguns aplausos mais demorados, ter-lhe-iam interrompido o merecido descanso.

Acordou surpreendido! - Já nem se lembraria onde estava - vindo como vinha do mundo dos sonhos - bocejou bem de frente para a televisão que, muito atenta, lhe vigiava a paz da merecida sesta, e teria verificado, com desencanto a sua reentrada no mundo da realidade.

MarioSoaresCaricatura0.jpg

Quem me teria metido nisto!? – Teria pensado com bastante incómodo.

Teria sido o “partido”, ou partida!?

É muito difícil sair do sonho para a realidade...

Pior, quando se sonha mal!- e era o caso.

Sonhara que - se Sócrates estava tão feliz era porque, provavelmente tinha votado – também ele - no outro que lhe roubara a oportunidade de voltar a fazer belas sonecas em Belém!

Ter-se-ia irritado com tais pensamentos e consequentemente esquecido que tinha prometido a si próprio, fingir que não tinha mau perder, e saiu disparado porta fora, ainda tão mal acordado, que nem reparou que o cumprimentavam e, só por essa razão, não correspondeu a ninguém – fora pura distracção!

Ao regressar a casa, teria verificado que afinal, não sonhara, vivera um evitável e muito desnecessário pesadelo!

Por um pesadelo ninguém amua – é criancice, ou caturrice da idade! - Deveria então ter pensado!

Arrependeu-se! – Mas era tarde! - Estava feito, estava feito! Paciência!

Calçou então as pantufas, que os dias ainda vão frios, e ter-se - ia instalado na sua poltrona preferida...

Pela força do hábito terá pegado nos jornais do dia.

Falavam todos da mesma assombração que o incomodara.

Atirou-os para bem longe.

-Como é que eu caí nisto? Ficou a pensar com obsessão...

-Como?

-Não costumava dizer palavrões, sempre fora um homem bem-educado, mas impunha-se, pelo menos, um forte desabafo:

-Que se lixem!!! – Saiu-lhe como uma explosão.

As emoções haviam-no cansado. Fechou os olhos para se enfronhar melhor nas suas lucubrações.

- que se lixem...que se lixem... suspirava, quase num murmúrio, e, daí a nada, estava outra vez a dormir.

         

Aqui termina o meu exercício de pretensa romancista, que, saindo do real, parte para a ficção.

Porém, como a idade a ninguém perdoa, fico-me por este episódio apenas. Não tenho folgo para romances!

E, este vai ser longo, muito longo...

Mas, confesso: - tenho pena!

È tão humano desejarem todos ir sempre mais além...

 

 

 Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:25


10 comentários

De Xavier Martins a 26.10.2008 às 01:53

Excelente texto.
Sem duvida um olhar excelente sobre a nossa
politica nacional ou local.
A sua Lucidez está sempre ao nivel da verdade, da
exactidão , do rigor que a sua forma de escrever
consegue transmitir.
Mais uma vez Parabens

Xavier Martins

De Maria José a 26.10.2008 às 20:18

Xavier Martins - esta mudança da hora deprime-me.
Felizmente que tenho a presença dos meus fieis amigos para ajudar a passar estes serões sem fim...
Um abraço e obrigada pela sua companhia - Maria José

De Adalgisa Alexandra a 26.10.2008 às 01:55

Promessa é divida...
Antes de ir para a minha caminha - nesta noite tão
fria, vim ler e apreciar o post de hoje e como sempre
gostei.
Mais um bello texto para juntar aos muitos que já tem
aqui publicado.

Um grande beijinho e que tenha um Feliz domingo.
Gosto mesmo muito de si Tiazinha

Gisa

De maria josé a 26.10.2008 às 21:08

Gisa - lembrei-me de lhe dizer que se for à barra lateral - por onde deambulo - pode ver a Assunção - e a Concha -duas das minhas lindas sobrinhas bisnetas.
A pequenina, numa foto está de lingua de fora e a mana, numa, veste de branco e tem asas de anjo
beijinhos - tia Zé

De Aristeu a 26.10.2008 às 01:07

Bom texto até o nome é bem sujestivo - pelo
momento politico que descreve.
Também gosto deste tipo de texto.
Na verdade acho que gosto de tudo que a tia
faz.
Os seus níveis em diversos temas, olhares e toques
em diversos materiais (exemplo da exposição)
as suas mãos conseguem transformar tudo em
trabalhos lindos.

Recordo certa vez que vi os seus bonecos - ali bem
defronte do meu nariz... já nem sei em que
exposição, nem onde foi, mas adoreiiii e não esqueço.
Realmente conhecer Maria José Rijo é um dia
que se não esquece nunca.
Eu não esqueci.

Obrigado Tia
Beijinhos e bom domingo

Aristeu

De Maria José a 26.10.2008 às 22:02

Aristeu !- penso ter sentido alguma preocupação pela notícia que me deu da vida do Gilinho.
Muitas vezes me detenho a pensar no ritmo das vidas de agora. Sempre concluo que de época para época há uma aceleração que ultrapassa a antecedente e torna difícil o acompanhamento para quem vem de trás.
Resta-nos respeitar a coragem com que , neste mundo louco de guerras e genocídios "eles" ainda acreditem na felicidade e, lutem por ela - depois, agradecer a Deus o amor que nos dão -e nos enche a vida - e, embora sem moralismos lembrar que todos temos de tentar ir ao fundo dos nossos sentimentos, se queremos saber quem somos e do que somos capazes.Se calhar, viver é bom, porque não é tarefa fácil...
Beijinhos meus queridos - obrigada por estarem comigo - tia Zé


De António Piedade a 26.10.2008 às 10:23

MAis um dos seus bons textos. Estes com certo
picadinho politico, são os que mais aprecio.
A Senhora tem um talento nato para a escrita e a
sua lucidez é aguçada.

Gosto realmente dos seus artigos de opinião.
Parabens

Antonio Piedade

De Maria José a 26.10.2008 às 22:11

António Piedade - obrigada pelo seu comentário que compreendo bem, porque também me "diverte" ironizar um pouco com esta representação de herois da politica, pagos a preço de ouro num pais como o nosso...
Um abraço grato Maria José

De Luis carlos Presti a 26.10.2008 às 12:26

Olá tiazinha
Vim ve-la - agora a minha condição já é outra, como
sabe, mas não é por isso que vou deixar de caminhar
a seu lado, aliás eu de um lado e do outro a Carla...
que já lhe mostrei o seu blog e ficou encantada com
a maravilha que é a sua escrita.

Um grande beijinho tia
Destes seus sobrinhos

Luis Carlos e Carla

De maria josé a 26.10.2008 às 22:20

Meus sobrinhas
Lá no Baixo - Alentejo, a que pertenço, há uma cantiga que os solteiros cantam aos noivos no dia do casamento que é assim:
ser casado e ser feliz, deve ser um lindo estado
também eu queria, também queria, também queria ser casado
Quem conhecer o cante alentejano pode imaginar como é lindo.
Felicidades e um beijo - tia Zé

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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