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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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A missa das onze!

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.850 – 26-Janeiro-2006

Conversas Soltas

                   Missa Tradicional 02

 Era um dia de semana.

Completavam-se dois anos sobre o falecimento de minha Mãe.

Chamei um táxi. Não tive coragem de enfrentar a subida até “à outra margem do rio “ – é assim que designo a estrada que estabelece os limites às minhas aventuras de deambulação pelas cercanias.

É que “na margem de lá” é tudo a subir até ao viaduto, e não há coração que não se queixe de tão violenta prova de esforço em dias em que o termómetro anuncia como temperatura uma miserável meia dúzia de graus.

Fazer estas considerações, mesmo que intimamente, já me predispunha à melancolia.

Juntar a elas a saudade que me pungia tornava mais pesado ainda o meu estado de espírito.

Foi com este tumulto de emoções que me dirigi à igreja e me dispus a rezar. 

        

Reparei, no entanto, antes de entrar, que a minha respiração fazia uma ténue nuvenzinha de vapor.

Sorri, porque se sobrepôs a tudo, na minha lembrança os meus tempos de criança, com as idas e vindas para a escola, na aldeia, e aquele mesmo desconforto, nas manhãs geladas, das mãos e da ponta do nariz frias como sorvetes.

Entrei e sentei-me num banco ao acaso, na igreja quase vazia.

Olhei em redor. Muito pouca assistência. Dez, doze pessoas! Meia dúzia de velhotas. Apenas um homem ou dois e, também idosos.

Ao meu lado, mais uma, veio tomar assento. Tossia. Tossia muito e querendo-se controlar, mais tossia e mais fungava.

Trago, sempre comigo alguns rebuçados prevendo estes percalços. Ofereci-lhe a mezinha. Aceitou agradecida e voltou a instalar-se o silêncio.

          silencio-j.jpg

Quis embrenhar-me nas minhas orações até o Padre entrar e começar a cerimónia, mas a observação dos circunstantes absorveu-me de forma imperiosa. Cabeças brancas. Quase de neve, algumas. Costas dobradas, xailes gastos, roupas puídas, passos hesitantes, algumas movendo-se com canadianas, rostos desbotados sulcados de fundas rugas, olhares mortiços, e, acima de tudo, expressões patéticas, quase de pasmo e medo por estarem vivas.

Gente solitária que procura na igreja a sua última referência de solidariedade. A sua última esperança de encontrar calor humano.

            

A sua única possibilidade de destino para uma visita onde ninguém torce o nariz com a sua presença triste.

Um pouco de companhia, nem que seja pela curto espaço de tempo de duração de “uma missinha” diária.

Que, quem vive só, não morre. Aparece morto! Dizia com aguda ironia um velho amigo também habitante da solidão.

O Sacerdote, entrou na hora certa. A cerimónia teve a brevidade do costume em dias comuns.

Atrasei-me deliberadamente e saí no fim da fila. À porta parei e olhei para trás genuflectindo antes de transpor o guarda-vento.

Já na rua, vi que o frio abrandara um pouco.

                  chuvinha.bmp

Chuviscara entretanto, mas já escampara. Havia umas pocitas de água no chão, mas a temperatura era mais convidativa.

Voltei para casa a pé.

Andar faz bem. E, sentir o ar lavado da chuva bater-nos no rosto, desanuvia a alma.

De resto, a descer, todos os santos ajudam!

Vim então pensando como são diferentes as cerimónias de Domingo, quando a igreja se enche e os cânticos ressoam pelo interior das naves e o ambiente se torna quente e aconchegante pelo calor humano, com a presença heterogénea da multidão dos fiéis.

               

A multidão!...que cria o ambiente de festa, e que, não é mais do que o somatório de muitos indivíduos, alguns felizes, com seus êxitos, suas alegrias, outros, com suas frustrações, seus medos, sua solidão, suas dúvidas, suas esperanças, sua fé, seu doloroso desamparo, que a multidão dilui e nos facilita a comodidade de ignorá-los.

 

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