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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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A senhorinha

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.996 – 27 de Novembro de 2008

Conversas Soltas

  

Senhorinha – de acordo com os dicionários é diminutivo de senhora, isto é: - uma jovem senhora.

Assim sendo não descortino porque se apelidam de senhorinhas, as pequenas poltronas que era uso fazerem parte do mobiliário dos quartos de dormir.

Nos quartos de casal havia por regra uma otomana ou chaise longue, quase sempre encostada aos pés da cama.

                      

 Nos filmes e peças de teatro de então, nas cenas emocionantes de desmaios e traições, lá estão, nelas – estiradas - as damas, com seus fatos  de estilo  ou sua bela lingerie de tules e rendas, cabelos com ornamentos de fitas e pérolas, decotes generosos e, inevitavelmente os olhos  em alvo, uma das mão na testa, a outra pendente, em ar de abandono, segurando pela ponta um lencinho  de ricos bordados, enquanto as aias, os apaixonados ou os circunstantes lhes providenciavam os “sais” para fungar.

          

À senhorinha, já não se ajusta – de forma alguma - uma imagem tão teatral, nem tão pesada de emoções por vezes eróticas.

A senhorinha alindava os quartos de donzelas mais ou menos românticas e suspirosas ou, enunciava o recanto confortável de qualquer casa onde um corpo gasto, ou cansado do dia a dia, encontrava o repouso merecido para cochilar, ler o jornal, um livro, rezar, ou, simplesmente fechar os olhos  deixando fluir e correr  lembranças, ou meditar.

Eu tenho uma senhorinha, veio-me de herança, era eu muito nova.

Havia uma senhora de idade, que olhava a rua sem a fixar, parada como se fosse uma estátua, alheia a tudo em redor.

Era uma presença pungente, a qualquer hora, por detrás daquela vidraça da janela, num prédio antigo, de rés-do-chão.

Eu passava. Passava e fingia não ver, mas a cada dia mais me pesava esse fingimento.

Uma vez decidi: vou-lhe acenar e sorrir.

A um breve momento, suspenso de surpresa, seguiu-se como reflexo num espelho, um sorriso igualmente tímido mas franco.

Daí em diante essa era a nossa senha.

Ela esperava – me atenta para devolver o meu cumprimento. Um dia ousei aproximar-me e disse-lhe a rir: se eu tivesse uma poltrona como essa também me sentaria assim a sorrir para quem passa. Não havia de querer outra vida! A velha Senhora riu com gosto e abanando a cabeça repetia: criança! Ficamos amigas. Amigas de acenar uma para a outra ainda que chovesse e eu passasse a correr de guarda-chuva em riste.

Um certo dia, pedi-lhe para entrar em sua casa, já que ela a isso me havia convidado sem que eu ainda tivesse aceitado.

Tomámos chá, numas xícaras preciosas. Apreciei as suas travessas (sem cabelo) da Companhia das Índias e as diversas relíquias que alindavam a pequena sala museu de lembranças que a envolvia como um estojo.

Disse-lhe então que ia mudar de cidade e aquela era a minha despedida.

Guardei o abraço que me deu, na minha memória de afectos, até hoje. Anos depois, não muitos, fui contactada, por um vago parente para vir buscar a “senhorinha” que me foi entregue com um pequeno cartão – “por um sorriso” – Berta.

Hoje, neste vício de escutar “Amigos”, que é como quem diz – reler trechos de livros que me acompanham, em – Elogio da Velhice de Hermann Hesse - reli assim:

                               Detalhes do Livro

 

 

“ os que já foram permanecem naquilo que de essencial teve efeito em nós, vivos e na nossa companhia, enquanto nós próprios vivermos. Por vezes conseguimos até conversar melhor com eles, consultá-los e escutar o seu conselho, do que poderíamos junto daqueles que ainda vivem”

              

“O que seria de nós, os velhos, se não tivéssemos esse livro ilustrado que é a memória, toda essa riqueza de experiências vividas! Seria uma situação lamentável, seríamos uns miseráveis. Deste modo, porém, somos imensamente ricos e não nos limitamos a arrastar uma carcaça cansada, de encontro ao fim e ao esquecimento; somos guardiães de um tesouro que viverá e resplandecerá enquanto nós próprios respirarmos.”

Dei comigo a sorrir sem mágoa e sem tristeza. Apenas com um doce sentimento de gratidão pela Vida, pelos que ainda temos entre nós e pelos que em nós permanecem vivos na lembrança e por aqueles a quem Deus permite a maneira de nos falar ao coração.

 

Maria José Rijo

 

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