Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Lembranças de Natal
Revista – Norte Alentejo
Nº 7 – Dezembro/Natal de 2000
Crónica
Li, algures, uma frase que fixei e dizia assim: “não se deve voltar aos lugares que a infância mitificou.”
Logo, logo, por vezes, nem sabemos o porquê de fixar coisas que até parecem desligadas de toda e qualquer preocupação ou pensamento que tivesse aflorado alguma vez ao nosso espírito. Porém, o tempo passa, e um dia, sem mais nem menos, a frase volta à nossa consciência e apreende-se-lhe o sentido e a ligação que afinal tem com dúvidas e apreensões em que o nosso pensamento já se detivera, embora um pouco à margem da nossa vontade determinada de o fazer.
Mais uma vez assim aconteceu.

O Natal aproxima-se. Quer queiramos, quer não, essa vizinhança, mais ou menos intensamente assoma a todos os espíritos. Ocupa e preocupa, alegra ou ensombra ou ilumina todos os corações.
Todos os dias são dias. Têm as mesmas horas, minutos e segundos. Amanhecem e anoitecem dentro dos tempos previstos, mas...
Mas...basta que a um deles, um apenas, se designe por: - NATAL – para o tornar diferente.

É como que um toque de alarme, uma veemente chamada de atenção, um alerta, um grito de alvorada que acorda em todos os corações o sentido do Bem, da Fraternidade, da Paz, da percepção intima de como seria a Vida se fossemos capazes de ser Irmãos do nosso próximo...e, ao mesmo tempo, da esperança de que isso ainda possa acontecer – sempre possa acontecer...
Então afluem-nos à lembrança memórias antigas, de Natais passados, de Natais de infância quando a inocência traçava os horizontes do nosso pequeno mundo de crianças e o pai Natal era um personagem de verdade e, todos os meninos tinham sapatos para por à chaminé, e, a nenhum deles era recusado o brinquedo dos seus sonhos...

Natais de ilusão, Natais como se sonham, Natais como se desejam, Natais em que se crê e, que, quem sabe! Talvez ainda possam vir a acontecer...porque, todos sabemos que é da massa dos Homens que se fazem os Santos...
Mas o que me prendeu a atenção, o que me deteve e fez pensar foi a recordação daquela frase: “não se deve voltar aos locais que a infância mitificou”
A grandeza das casas, as dimensões gigantescas que tudo parecia ter, tudo isso tem muito mais a ver com o nosso próprio tamanho de então do que com a realidade existente.
Ainda agora me apareceu com uma nitidez impressionante a cena repetida em cada ano do cantar das janeiras. Era sempre na véspera de Ano Novo e na véspera do dia de Reis.

Era sacramental ir verificar à dispensa o ponto de “desgaste” estavam dos alguidares das filhós e dos “borrachos” Sobre bancos de madeira, lá estavam, como nos dias da amassadura, enormes, vermelhos e brilhantes na belezura singela do barro vidrado... Levantava-se o” panal” avaliava-se se a quantidade existente chegaria para as “molhaduras” aviava-se melhor o prato do açúcar com canela para a farta polvilhadela, que perfumava e adocicava a massa frita. Fazia-se balanço à canastra das laranjas, ao prato dos chouriços, cuidava-se para que tudo estivesse a postos pois era certo e sabido que de tarde viriam os ranchos de crianças, e, à noitinha mulheres e homens embiocadas em xailes elas, em capotes e mantas, eles.
As cantigas eram sempre as mesmas: - viva a menina Fulana – raminho de salsa crua – aos pés da sua cama nasce o sol e põe-se a lua!

A garotada depois de cantar repetia em coro: - trago um saco, trago um saco. Não me dê bolotas que caem pelo buraco!
Estou a ver as carinhas, sujas, às vezes, com os narizes vermelhos de frio e um jeito pedinchão no olhar humilde.
Entravam acanhados, contrafeitos, na cozinha. Comiam de pé, enchiam o chão de migalhas. Bebiam café de cevada quentinho e levavam no saco figos secos, laranjas e rebuçados.
Os homens. mais afoitos não deixavam de pedir cantando : daqui d’onde eu estou bem vejo o canivete a bailar - para cortar a chouriça que a senhora me há-de dar. Ou: - a patroa desta casa - está sentada ao rés do lume - para dar esmolas se alevanta - que é esse o seu costume.
Porém, antes, desfiavam um sem número de quadras, mais ou menos de pé quebrado, de que as festividades natalícias eram o tema.

Cantamos os Santos Rezes – que é a nossa tradição - para saudar o Deus Menino - que é a nossa salvação! -. Esta noite é de janeiras – é de grande merecimento – por ser a noite primeira – que Jesus passou tormento! - Juntaram-se os três reis magos, – todos três em romaria, – para adorar o deus Menino, - filho da Virgem Maria
Caminham os três reis magos, – para Belém em silêncio, – a oferecer a Deus menino, – mirra, oiro e incenso!
Terminada a cantoria, sempre impressionante pela qualidade das vozes que em coro espontaneamente afinado, quebravam o silêncio da noite, naquele misto de prece e pranto que é o cantar do Baixo Alentejo, era chegada a vez de darem entrada na cozinha. Traziam nas roupas cheiros da noite, de lume de lenha,
tabaco de onça, vinho... Falavam com vozes grossas. Só o suficiente para agradecerem. Bebiam a aguardente de um trago só. Raspavam as gargantas, cuspinhavam! - Mal petiscavam dos fritos. Partiam para cantar a outras portas, só das casas que de antemão sabiam os iriam receber e lhes dariam uma ou outra peça de fumeiro, ou naco avultado de toucinho das matanças do Natal.

Vão anos que nem quero contar entre estas lembranças e os tempos de agora.
Pela lembrança revejo-os.
Voltar aos mesmos lugares, seria matar, destruir de vez o que o tempo, sempre nos permite conservar: - a recordação.
Sim. Concordo plenamente: - não se deve procurar reviver o que a infância mitificou...
Maria José Rijo


