Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Santa Luzia
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.999 – 18 de Dezembro de 2008
Conversas Soltas
13 de Dezembro de 2008.
- Chove copiosamente! – Que, Inverno, que se preze, não deixa os seus créditos em mãos alheias.
E, isto de chuvas e ventos em dias de santo, é uma forma que o tempo sabe para gravar as datas nas nossas recordações.
É dia de Santa Luzia.
Assim sendo, não se poderia exigir um dia vulgar.

De duas, uma: - ou teria que estar iluminado por um sol resplandecente, ou, então assim – um dia de ventania, cinzento, chuvoso e frio como o que temos hoje.
Os mais antigos, dirão: - bem desejei ir à igreja rezar a Santa Luzia! - Bem desejei! – Mas a chuva... o frio... o vento...
– Será sempre assim. Cada qual, conforme a distância a que estiver do seu próprio Inverno – fará a sua história. Contará os seus passos com disposição diferente, com entusiasmo, com saudade, com graça, num lamento, consoante a idade, a maneira de estar na vida e, dessas formas distintas se gravam as recordações, as memórias.
Ainda que o quisesse, tenho consciência que me seria difícil controlar o mundo de reminiscências que estes dias de santo fazem emergir do meu arquivo de lembranças.
Então Santa Luzia, tal como o dia de Nossa Senhora da Conceição, que sendo a oito, o antecede, são como as primícias do Natal.
E o Natal è um marco em qualquer vida, por boas ou más razões.
Pela Senhora da Conceição se faziam as searinhas que se punham a germinar no escuro, debaixo dos armários, nas despensas, debaixo das cómodas nos quartos das Avós e das Tias, e que iam crescendo durante as semanas do advento para embelezar, depois, o presépio que como um fruto de amor eclodia do conteúdo, sempre precioso, das caixas onde gerações sucessivas iam juntando as figurinhas que contavam a história do Deus Menino. Isto, antes das renas e dos pinheiros aparecerem como moda perturbadora da lição que São Francisco de Assis nos deixou.

Mas...falemos hoje de Santa Luzia que foi virgem mártir a quem segundo uma oração “ Vu e approuvé par Mgr. l’Évêque de Metz le 17 de juin 1872 se rezava assim:
“Ó Deus vós que sois o nosso Salvador, dignai-vos atender-nos, e fazei que venerando a memória da bem- Aventurada virgem e mártir Luzia, o nosso coração seja fortificado por sentimentos duma santa alegria e duma terna devoção. Nós vo-lo pedimos por Jesus Cristo Nosso Senhor.
Assim seja .”
As idas à missa – o pagar de promessas que a luz dos olhos é uma graça do céu. Um bem sem preço.
Preservá-la – será sempre – um milagre a agradecer em cada ano a Santa Luzia. A linda tradição de Elvas na igreja da Misericórdia.
A esmola, que as freirinhas recebiam na penumbra das igrejas, com seu jeito manso e beato e, a que davam retorno com bolachinhas escuras, como cartões de visita feitos de papel pardo, mas finas como massa de hóstia e bem apaladadas a canela.

O tilintar das grossas contas e dos Cristos pendurados ao peito ou à cintura a cada gesto.
O vaivém incessante de velhos e novos, de netos pela mão de avós aprendendo a tradição de manter a fé como chama acesa.
E, no seu cancioneiro popular, nos cantes das romarias, nas falas de amor, as vozes que se alevantam cantando:
Para que quero eu os olhos
Senhora Santa Luzia?
Se não vejo o meu amor
Nem de noite, nem de dia!
Ainda aí, estão rezando...
Maria José Rijo







