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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Lembranças de Messines

Jornal linhas de Elvas

Nº 2.877 – 3-Agosto-2006

Conversas Soltas

Reminiscência -- 26

 

  

Quase cinquenta anos depois, reencontrei, uma amiga de infância, ainda parente de João de Deus, com quem brincava nas minhas férias, quase sempre passadas no Algarve.

 

Habitava, ela por direito de herança familiar a bela e grande casa – que fora residência do Poeta -  situada, como a de minha família  materna no largo da Igreja em São Bartolomeu de Messines que, como se sabe, foi a terra natal do autor da “Cartilha Maternal.

Para além de velhas amizades que era hábito conservar vidas inteiras, a vizinhança criava o clima ideal para a criançada das duas famílias sonharem com Natais, Páscoas, Entrudos e Verões, sempre geradores de reuniões, belos passeios e alegres convívios.

Por aqueles anos – os componentes do nosso grupo tinham todos à volta de sete a dez anos - o mercado semanal era feito na rua e os camponeses chegavam sempre com os carros ou os burricos carregados de frutas, galináceos, hortaliças, e tudo o mais que criavam nas suas hortas, para venda e gastos de casa.

Chegavam, escolhiam um local a gosto, espalhavam as cestas com os produtos pelo chão e iam “pousar” os animais nas cavalariças, onde ficavam a descansar, mediante um pequeno pagamento, comendo a ração em sacos atados ao pescoço.

A casa da minha amiga, para além de um enorme quintal dispunha dessas acomodações, o que nos proporcionava um sem número de aventuras pois, soltávamos os jumentos e vá de dar voltas e mais voltas pelo quintal, fazendo corridas, escarranchadas em cima das albardas, bem afiveladas ao dorso dos animais. Outra prova de coragem, consistia em ver quem era capaz de apanhar mais “cavalos de aranha”, como designávamos aqueles aracnídeos de pernas altas e finas que nos enchiam de repugnância, e que moravam tranquilos nos aranhóis de teias empoeiradas nas traves dos tectos da estrebaria, escuros de sujidade.

As pernas quebravam-se-lhes com facilidade e, por vezes escapavam-se balouçando nas que lhes restavam, e nós ficávamos a olhá-las e largávamos a brincadeira com uma sensação nebulosa de culpa, embora pensássemos que as aranhas eram peçonhentas e deveriam morrer.

Porque morávamos, frente à Igreja, também não nos escapavam os casamentos, dos “ serrenhos”.

Não havendo estradas, nem transportes como agora, os noivos chegavam montados em burros, machos ou mulas, e, as noivas também. Só que elas vinham sentadas em cadeirinhas de fundo de bunho, muito bem atadas às selas. Traziam véu e grinaldas de laranjeira, embora, por vezes, os sinais de gravidez fossem por demais evidentes.

Solícitos os padrinhos apeavam-nas ao colo e pousavam-nas no chão com tanto cuidado que parecia terem medo que elas se quebrassem. Logo eram rodeadas pelas mulheres velhas – sempre em pequeno número - que vinham de carroça acompanhando os nubentes e lhes alisavam as vestes com as mãos, como se lhes estivessem a sacudir o pó.

        

Entravam então na Igreja e, após a cerimónia, noivo, pais, e padrinhos iam à taberna mais próxima beber uns copos levando por deferência o Padre celebrante, que cumprido o ritual, voltava à sua vida deixando-os embrenhados em fartas libações...

Às vezes, muitas vezes, demoram-se, e voltavam já com pouco equilíbrio... entretanto o mulherio, especado no adro da Igreja, como seres caídos de outros planetas, aguardava num espanto aparvalhado os mirones que se juntavam olhando a cena...

Finalmente, lá se organizava o retorno.

A noiva, agora, à garupa da montada do noivo, fechava o cortejo dos convivas que , meio dormentes pelo vinho, iam acabar de se embebedar em casa, senão adormecessem pelo caminho. E, lá partiam com a complacência das mulheres já habituadas a estes trâmites.

Eram tempos em que – também - não faltava nos mercados a cadeira do barbeiro, tendo ao lado uma mesa com um pano que “pretendia” ser branco, a fazer de toalha e, sobre ele alicates, para a extracção de dentes e as garrafas de aguardente para os bochechos desinfectantes...

Os pacientes indefesos, de boca escancarada, babando sangue, com os olhos a sair das orbitas, agarravam-se aos braços da cadeira e davam verdadeiros urros de dor.

        Nós, então, fugíamos tapando os ouvidos com os dedos, mas voltávamos a espreitar, balançados entre o medo, a piedade e, a curiosidade de ver, e saber como era, tal e qual, como fazíamos na matança do porco, que, sendo festejada, como qualquer colheita da terra que anunciasse fartura, não deixava também de ser um cruel espectáculo de rua.

Tempos de outros tempos.

 

“Porque só há tempo quando se pensa”, como dizia o Professor Agostinho

 

  

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