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Lembranças de Messines

Segunda-feira, 12.01.09

Jornal linhas de Elvas

Nº 2.877 – 3-Agosto-2006

Conversas Soltas

Reminiscência -- 26

 

  

Quase cinquenta anos depois, reencontrei, uma amiga de infância, ainda parente de João de Deus, com quem brincava nas minhas férias, quase sempre passadas no Algarve.

 

Habitava, ela por direito de herança familiar a bela e grande casa – que fora residência do Poeta -  situada, como a de minha família  materna no largo da Igreja em São Bartolomeu de Messines que, como se sabe, foi a terra natal do autor da “Cartilha Maternal.

Para além de velhas amizades que era hábito conservar vidas inteiras, a vizinhança criava o clima ideal para a criançada das duas famílias sonharem com Natais, Páscoas, Entrudos e Verões, sempre geradores de reuniões, belos passeios e alegres convívios.

Por aqueles anos – os componentes do nosso grupo tinham todos à volta de sete a dez anos - o mercado semanal era feito na rua e os camponeses chegavam sempre com os carros ou os burricos carregados de frutas, galináceos, hortaliças, e tudo o mais que criavam nas suas hortas, para venda e gastos de casa.

Chegavam, escolhiam um local a gosto, espalhavam as cestas com os produtos pelo chão e iam “pousar” os animais nas cavalariças, onde ficavam a descansar, mediante um pequeno pagamento, comendo a ração em sacos atados ao pescoço.

A casa da minha amiga, para além de um enorme quintal dispunha dessas acomodações, o que nos proporcionava um sem número de aventuras pois, soltávamos os jumentos e vá de dar voltas e mais voltas pelo quintal, fazendo corridas, escarranchadas em cima das albardas, bem afiveladas ao dorso dos animais. Outra prova de coragem, consistia em ver quem era capaz de apanhar mais “cavalos de aranha”, como designávamos aqueles aracnídeos de pernas altas e finas que nos enchiam de repugnância, e que moravam tranquilos nos aranhóis de teias empoeiradas nas traves dos tectos da estrebaria, escuros de sujidade.

As pernas quebravam-se-lhes com facilidade e, por vezes escapavam-se balouçando nas que lhes restavam, e nós ficávamos a olhá-las e largávamos a brincadeira com uma sensação nebulosa de culpa, embora pensássemos que as aranhas eram peçonhentas e deveriam morrer.

Porque morávamos, frente à Igreja, também não nos escapavam os casamentos, dos “ serrenhos”.

Não havendo estradas, nem transportes como agora, os noivos chegavam montados em burros, machos ou mulas, e, as noivas também. Só que elas vinham sentadas em cadeirinhas de fundo de bunho, muito bem atadas às selas. Traziam véu e grinaldas de laranjeira, embora, por vezes, os sinais de gravidez fossem por demais evidentes.

Solícitos os padrinhos apeavam-nas ao colo e pousavam-nas no chão com tanto cuidado que parecia terem medo que elas se quebrassem. Logo eram rodeadas pelas mulheres velhas – sempre em pequeno número - que vinham de carroça acompanhando os nubentes e lhes alisavam as vestes com as mãos, como se lhes estivessem a sacudir o pó.

        

Entravam então na Igreja e, após a cerimónia, noivo, pais, e padrinhos iam à taberna mais próxima beber uns copos levando por deferência o Padre celebrante, que cumprido o ritual, voltava à sua vida deixando-os embrenhados em fartas libações...

Às vezes, muitas vezes, demoram-se, e voltavam já com pouco equilíbrio... entretanto o mulherio, especado no adro da Igreja, como seres caídos de outros planetas, aguardava num espanto aparvalhado os mirones que se juntavam olhando a cena...

Finalmente, lá se organizava o retorno.

A noiva, agora, à garupa da montada do noivo, fechava o cortejo dos convivas que , meio dormentes pelo vinho, iam acabar de se embebedar em casa, senão adormecessem pelo caminho. E, lá partiam com a complacência das mulheres já habituadas a estes trâmites.

Eram tempos em que – também - não faltava nos mercados a cadeira do barbeiro, tendo ao lado uma mesa com um pano que “pretendia” ser branco, a fazer de toalha e, sobre ele alicates, para a extracção de dentes e as garrafas de aguardente para os bochechos desinfectantes...

Os pacientes indefesos, de boca escancarada, babando sangue, com os olhos a sair das orbitas, agarravam-se aos braços da cadeira e davam verdadeiros urros de dor.

        Nós, então, fugíamos tapando os ouvidos com os dedos, mas voltávamos a espreitar, balançados entre o medo, a piedade e, a curiosidade de ver, e saber como era, tal e qual, como fazíamos na matança do porco, que, sendo festejada, como qualquer colheita da terra que anunciasse fartura, não deixava também de ser um cruel espectáculo de rua.

Tempos de outros tempos.

 

“Porque só há tempo quando se pensa”, como dizia o Professor Agostinho

 

  

  Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:25


6 comentários

De Adalgisa Alexandra a 13.01.2009 às 01:31

Muistos beijinhos Tia
Parabens por esta reminiscência tão querida.

Gostei imenso.
Sóa tia consegue "falar" assim tão lindo.

Beijinhos

Gisa

De maria josé a 13.01.2009 às 17:18

Querida Gisa - sei que "sente"que mesmo quando não "apareço" dia a dia a tenho no meu coração e que a sua presença já faz parte da minha vida...
É com essa certeza que "curto em paz" as minhas enxaquecas, as minhas preguiças e os meus desânimos. Afinal a nossa Paulinha, vai-me levando até vós com velhos escritos em que ainda me reconheço
Beijinhos - tia Zé.

De Aristeu a 13.01.2009 às 01:35

Lindas as suas reminiscências.
Todas e cada uma é uma surpresa e alegria
para mim.
Gosto das suas reminiscências porque me trazem
um pouco da criança que foi.
Parabens por nos mostrar estas lindas
recordações.

Um grande grande beijinho Tia

Aristeu

De maria josé a 13.01.2009 às 17:47

Querido Aristeu- são já tantas as notícias que deixei passar sem comentar que nem sei se ainda serei capaz de dar conta do recado.
Muitas, muitas, vezes me detenho a pensar em vós e no que me conta, na forma terna como o faz e no eco que isso tem dentro de mim . Preocupo-me quando seu Pai "desaparece" e alegro-me quando retorna com ânimo. Isso, são situações que entendo bem porque também me assaltam com mais frequência do que desejaria. Ás vezes, uma simples data, traz uma carga de recordações e emoções tamanha que nos distancía da realidade a que não apetece regressar.
Mas, já chega de "mim".
Se quiser, poderei mandar-vos os jornais. Basta que me enviem o vosso endereço .
Delirei com a cavalgada que me descreveu.
Só achei provocatório o incentivo do Gilinho.No entanto é bom saber que alguém gosta de mim ao ponto de fazer ciumes. Que delícia!
Das aventuras e consequentes desventuras do meu amigo Luciano, só posso contar que conheço "uma velhota" que outro dia estava subida num escadote a mudar a lâmpada de um candeeiro no tecto...!- daí se infere que: - bem prega frei Tomaz...
Beijinhos e obrigada por estarem presentes na minha vida.
tia Zé

De Dolores Maria a 13.01.2009 às 01:41

Senhora minha Tia
Adoro as suas lembraças são tão bonitas e a
Tia conta-as tão maravilhosamente.
Parabens por mais esta.

Lembrei-me que nunca mais a Tia falou da sua Mana.
E como está ela?
Se falar com ela dei-lhe um beijinho meu. Pode ser?

E muitos para si.
Até amanhã tia querida

Dolores

De maria José a 13.01.2009 às 18:18

Meus muito queridos
Já não saberia estar sem saber notícias vossas, no entanto cada vez estou mais preguiçosa para escrever.
parece que o tempo já não tem as mesmas horas. Cada vez tenho mais aptência para nada fazer e ficar parada a pensar sabe Deus em quê.
Ámanhã é o feriado municipal de Elvas. Celebra-se a Batalha das Linhas e Elvas, talvez a mais importante batalha da independência de Portugal que, desde sempre se festeja com cerimóneas várias, paradas militares e, no final do dia, bailes de gala. Pois faz àmanhã 65 anos que, num baile, comecei a namorar o meu marido.
É o somatório de todas as efemérides que se acumulam em vidas já longas como a minha que por vezes, como que nos suspendem no tempo e nos param a acção. Fica-se parado a viver do que se guarda na lembrança.Parece que se hiberna e só o tempo não para.
Minha irmã deve chegar na próxima semana, se Deus quiser.
Beijinhos - tia Zé

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