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A visita de Maio

Sexta-feira, 23.01.09

Jornal O Despertador

Nº 233 – 28 de Maio de 2008

 A visita de Maio

 

A Mulher, tinha nascido na aldeia de Santa Clara do Lorêto, a que toda a gente, não sei porquê, chamava de aldeia da Boa- Vista.

                                

Pensando agora nisso fico surpreendida por, enquanto vivi em Beja, nunca me ter dado à curiosidade de investigar o porquê destas duas designações para a mesma localidade, estando ali tão perto…

               p104.JPG (19905 bytes)

Eu tinha feito o Liceu em Beja. Na minha vez de o frequentar já se chamava de Diogo de Gouveia – pedagogo e teólogo que nascera em Beja em 1467 – (reza a história que foi ele quem fez vir para Portugal os Jesuitas, aí por 1540, e entre eles S. Francisco Xavier, que se havia de tornar o apóstolo do Oriente.)

 Dois anos antes de mim, minha irmã entrara, para o velho Liceu Fialho de Almeida, situado, então, na ampla e bela Praça da República, que pelo novo foi substituído quer no nome, quer na localização.

 

Fialho vivera em Cuba, a vila onde me casei, na casa que havia de vir a ser habitada pela minha família. É evidente que, criança que era, não me importou, na altura, a mudança do nome que mais tarde viria a deplorar, pois morar na casa que fora de Fialho dava um certo frisson e, fazia ainda mais desejar para ele todas as homenagens possíveis, principalmente depois de conhecer a sua obra e, pormenores da sua personalidade narrados a cada passo por pessoas que, com ele, ainda, haviam convivido.

 

A casa era antiga e bela, com um amplo quintal, cheio de violetas nascidas ao acaso pelo chão e, em tufos, rente ás paredes. Tinha uma acácia de copa majestosa, de flores brancas como a da casa de Camilo em Seide, por onde o meu gato se aventurava intrépido perseguindo, em vão, a passarada.

 Dela, também se poderia dizer como Régio da sua própria:

                     

“Cheia dos maus e bons cheiros –

Das casas que têm história,

- Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória –

De antigas gentes e traças,

- Cheia de sol nas vidraças –

E de escuro nos recantos,

Cheia de medo e sossego,

de silêncios e de espantos, _

Quis-lhe bem como se fora –

Tão feita ao gosto de outrora –

Como ao do meu aconchego.”

 

Era assim – também -  que eu a sentia e, em viver nela me deliciava.

Ora esta conversa encadeou-se, sem que disso, quase, me desse conta, porque a postura absolutamente vertical daquela – tal mulher -  a que dei trabalho e depois se tornaria uma grande amiga que ainda conservo, volta e meia, retorna à minha memória como me ficou registada no coração especialmente quando vejo gente, sem reagir, acomodada ao infortúnio.

E, isso aconteceu, quando regressei a esses locais onde havia passado infância e juventude para, então com meu marido, voltar a habitar em plena época do vinte e cinco de Abril.

A mulher que se postou na minha frente para contratar trabalho, era ainda nova. Trinta anos, talvez.

Deixara o campo, porque sofria do estômago e já não conseguia suportar a dureza dessa vida.

Todos os habitantes, da aldeia, como ela também, pagavam foro ao dono do povoado para lá terem suas casas, porque todo o chão lhe pertencia.

                 

Era tudo gente nascida e criada nesses tempos de submissão e dependência dos grandes proprietários.

Pois mesmo assim, ou por virtude disso, ao outro dia quando se apresentou para trabalhar, olhou-me de frente, bem nos olhos e perguntou, numa voz segura e fria: - para onde é que a senhora manda o meu corpo?

 

É desta fibra a minha gente alentejana.

 

  Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:26


6 comentários

De Adalgisa Alexandra a 24.01.2009 às 00:15

Mais um bello texto tia
Realmente este seu blog é um Mar de beleza, de
grandes maravilhas.
A cada dia gosto mais e mais de si e deste LINDO
blog.

Muitos e muitos Parabens
Tia querida

Gisa

De Aristeu a 24.01.2009 às 01:06

Mais outro texto excelente.
Tia querida.

mais um dos muitos, dos imensos textos que tem
a tia nos seus artigos excelentes.
Nós temos todos eles e os que faltavam - poucos
muito poucos - aqui - neste blog excelente temos tido
o prazer de os encontrar - copiar e juntar ...

Parabens Tiazinha
Gostei imenso

Aristeu

De Dolores a 24.01.2009 às 01:34

Olá Tia
Muito boa noite
Está tudo bem consigo? Espero que sim.
Nós por aqui cá vamos indo, na luta pela nossa
sobrevivência.
Queria contar-lhe que os nossos leitõeszinhos já
cresceram o suficiente e hoje assamos um deles
mas um que pertencia aos nossos primos - que
veio depois dos nossos - esta era a Celina e agora
trouxeram o MArcus .
Ficou uma delicia.

Tinha-me dito que a sua Mana viria ve-la. Se por
acaso já está consigo dei-lhe um beijinho meu, caso
contrario quando chegar - o meu beijinhos já aí
esta aguardando por ela.

A Magé zinha está uma beleza, muito esperta.
Sabe que no outro dia até fiquei - nem sei como -
mas quando ia a entrar no quatinho ouvi o Avelino
a falar com a menina. Falava-lhe da Luizinha e
depois de si - ela dizia "tens uma TiaMadrinha que
vive em elvas, é muito querida, sabias? é escritora
e tem lindas poesias, amanhã o avó lê algumas
para ti, está bem meu amor."
... eu dei meia volta e nem entrei... só passado um
bom bocado, quando ele saiu - la fui ver da menina.

Como vê é uma presença muito querida entre nós.
Gostamos muito de si.

Muitos beijinhos Tia
Bom fim de semana.

Dolores

De Maria José a 25.01.2009 às 16:02

Meus queridos Sobrinhos
A minha Irmã já chegou e, comonós estavamos na praia na casa dela quando o blog arrancou ela ficou sempre muito interessada pelos primeiros apointes.Assim, que logo que chega pergunta pela Dolores, pelo Gus e pela minha família do Brasil, que são os afectos que viu nascer. Já lhes juntou alguns mais, mas põe em primeiro lugar "o" que nasceu na casa dela.
Também já lhe disse dos beijinhos da Gisa , que também a enterneceram e agradece, como a todos vós.
Ela vem passar uns dias e festejar comigo os seus lindos 85 anos. Vamos ver se a consigo surpreeder com a presença de "algumas sobreviventes" do nosso tempo que por ventura ainda andem pelo seu pé!
Mesmo pelo telefone, quando está em Lisboa nunca esquece a Magé.
Que o muito amor que ela nos merece a envolva e que a vida a encha de graças é o que todos pedimos a Deus.
Obrigada também por todo o amor que dividem comigo.
Deduzo que vive numa quinta! - Senão como poderia ter galinhas e outros animais. Deve ser bom.
As árvores e a bicharada, encantam-me.
Talvez durante algum tempo não me seja fácil vir aqui responder a comentários porque vou estar mais aterefada do que o costume. O blog segue porque é a nossa Paulinha a sua criadora...
Eu voltarei sempre que puder e, é por isso que estou a aproveitar esta oportunidade para pôr a escrita em dia.
muitos beijinhos para os tres com muito muito carinho da tia Zé

De António Piedade a 24.01.2009 às 01:47

São sempre
muito interessantes os seus artigos
sejam eles de ontem como os de 20 anos.

Muitos Parabens minha Senhora
merece e muito
este LINDO blog
cheio de sensibilidade, criatividade e tanta
beleza.

Adoro a sua escrita, a sua poesia...


Parabens

António Piedade

De Maria José a 25.01.2009 às 16:25

António Piedade
Ter alguém que caminhe ao nosso lado, porque nos entende - é ter um amigo.
Obrigada pela sua presença e amizade
Um abraço
Maria José

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