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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Ocupei outra vez!

Jornal Linhas de Elvas

3 – Março – 2005 – Nº 2.803

Conversas Soltas

Reminiscência – 15

 

 

Lá na aldeia, naqueles anos trinta, as mulheres trabalhadoras do campo, carregadas de filhos, de cuidados e de miséria, por vezes, confessavam em lágrimas qualquer nova gravidez dizendo num lamento:”- ocupei outra vez!”

E, choravam.

Choravam frente ao peso dum destino cruel e injusto que as fazia sentir como maldição aquilo que mais amavam: - “ ter os seus filhos, os mocinhos, as criencinhas, os injinhos os enocentes” – que a designação bebé, como a de papá ou de mamã ainda não tinha entrado no seu vocabulário genuíno, onde as palavras pai e mãe eram pronunciadas com a unção de quem dissesse – santo. Era um tempo em que se lhes pedia a benção ao começar e ao findar do dia, não se tratavam os pais por tu, mas sim por senhora ou senhor.

           

Reminiscências...

Não havia retórica na comunicação, as conversas eram autênticas, directas, nascidas dos sentimentos impressos a sangue, a sofrimento nas suas almas como os calos do peso das enxadas nas suas mãos. As palavras não eram pronunciadas com exactidão académica, a sua pronúncia era modelada pela emoção e facilidade de expressão.

Mas uma coisa é a pronúncia certa e a fonética, outra são os sentimentos subjacentes ao que se deseja expressar, e, aí, não havia, nem poderia haver, nem jamais houve, erro.

Aí falava um povo analfabeto mas sábio de vida, formado em raiva (como de si próprio dizia o professor Agostinho) e em privações.

Aprendi a ler – lá – entre crianças com fome de conforto nos olhos – lá – onde esses olhares me marcaram o coração e a consciência com as mesmas cicatrizes que as pedras do chão marcavam os seus pés descalços, chagados de frieiras na dureza dos Invernos que me faziam ter pudor de andar calçada.

Por estas e outras razões, ao ver políticos bem enfarpelados em roupas de marca, neste rescaldo eleitoral a propor à pressa (como com medo que alguém se lhe antecipe e ganhe a maratona)–o aborto -  como panaceia para a negligência social, impõe-se-me o direito e a obrigação da revolta, da raiva que me impele a perguntar:

Como é que uma esquerda que se diz avançada, progressista, pode ter como solução para um problema de ordem social, (já não direi moral, porque isso sendo uma das objecções de consciência dos católicos parece não a tocar) apenas e tão só a solução simplista da pura eliminação do efeito, sem atender às causas?

 Não será esta uma forma, direi terrorista, de tentar resolver um problema tão premente, tão grave que o próprio Papa acaba de mais uma vez o estigmatizar?

Será que a urgência não é lutar para que se cumpram os direitos das crianças?

Será que aqueles que detêm o poder não têm – antes de tudo como obrigação maior - garantir o direito à vida, à saúde, ao trabalho, à educação, ao apoio social, condições de dignidade sem o facilitismo  da eliminação com leis perversas e desumanizantes?

Não será essa, entre outras, uma das funções dum estado de direito?

             

Difícil? – Certamente! - Mas esse é que é o desafio.

Isso é que se pode considerar vanguardismo revolucionário

E, os que sabem “quanto vale um sorriso de criança”, também devem ponderar quanto vale a dor de uma qualquer mulher, quando, mesmo que a coberto da impunidade de uma lei cobarde, tenha tido como única opção eliminar uma Vida dentro de si, transformando o seu ventre fértil num sarcófago.

Antecipar, prever, evitar, são os verdadeiros caminhos do progresso.

Ninguém nasce porque quer, nem é verdade que alguém seja dono do seu corpo, é só pensar:

Vida, beleza, saúde, juventude, quem as retém?

Não há democracia onde nascer não seja um direito de quem foi gerado. Porque a essência da democracia – ao que julgo – é dar voz e protecção aos mais fracos e desprotegidos.      

 

Maria José Rijo

                                                                                                              

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