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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Reminiscencias - 6

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.491 – 12 - Fevereiro -1999

Conversas Soltas

 Reminiscencias - 6

      Illumination_morgan_estill

Convivi e estimei profundamente, com respeitosa admiração, um homem bom que discretamente ajudava e protegia todos quantos à sua porta batessem. Viúvo, muito novo ainda, criou sem madrasta uma ninhada de seis crianças, das oito, que do seu casamento lhe nasceram.

Pois esse Homem que foi meu sogro, com coragem se dirigia a qualquer individualidade quando estava em causa a justiça.

                       File:Braga Banco Portugal.jpg

Assim o fez ao Administrador do Banco de Portugal ao perceber que por razões políticas obstruía a carreira de um filho seu dizendo-lhe frontalmente que chegara à velhice com a consolação de nunca ter prejudicado qualquer soldado que sob as suas ordens tivesse servido, e que lhe oferecia esse exemplo, que considerava o maior orgulho da sua vida, atitude que a sua provecta idade lhe permitia. Como resposta recebeu do Senhor Administrador com um cortês pedido de desculpas a promessa de que a justiça seria reposta, o que veio a acontecer de imediato e que ele comentou, dizendo apenas: - quando as pessoas têm carácter, não há grandes nem pequenos, – há pessoas de bem.

Pois esse homem por ter uma alma pura, tinha um humor de criança e divertia-se com historietas brejeiras que muitas vezes encontrava impressas, me mostrava e fui guardando.

Assim, hoje, aproveitando a maré destes carnavais tão modernistas cá vai uma graça de outros tempos.

           

Acordão da relação do Porto de 11 de Novembro de1793 sobre o conflito de uma das Freiras d’Amarante com os frades da mesma Vila

Acordão em relação, vistos estes autos, etc. etc.

As autoras, D Abadessa, Discretas e mais religiozas do real convento de Santa Clara de Amarante, mostram ter um cano seu próprio por onde despejam as suas imundices e enchurradas, o qual atravessa de meio a meio a Fasenda dos Frades dominicos da mesma vila.

Provam elas autoras a posse em que estão de o limpar quando precisam.Os reus Prior e mais religiozos do Convento de S. Gonçalo, assim o confessam e se defendem disendo : que lhes parece muito mal que lhes bulam e mecham na sua fazenda sem sêr à sua satisfação: que conhecendo a sua necessidade da limpeza do cano das Madres tinham feito unir o seu cano ao delas para mais facilmente se providenciarem as couzas, por cujo modo vinham a receber proveito.

         

Portanto e o mais dos autos; vendo-se claramente que aquela posse só podia nascer do abuzo: vendo-se a mais boa vontade com que os reus se prestam e obrigam a limpar o cano das Madres autoras e que outrosim da união resulta conhecido benefício , conclue-se visivelmente que tais duvidas e questões da pare das autoras só podem nascer de capricho sublime e temperamento ardente que precisa mitigar-se para bem d’ambas as partes.

Pelo que mandam que o cano das Freiras autoras seja sempre conservado corrente e desembaraçado, unido ou não unido ao cano dos réus, segundo o gosto destes e inteiramente à sua disposição, sem que as freiras, autoras possam intrometer-se no dia e na hora nem nos modos ou maneiras da limpeza a qual desde já fica entregue à vontade dos réus que a hão de fazer com prudência e bem por terem bons instrumentos seus próprios o que é bem conhecido das outras que o não negam nem contestam.

              

E quando aconteça, o que não é presumível, que os réus, de propósito ou omissão, deixem entupir o cano das autoras, em tal caso lhes deixam o direito salvo contra os réus, podendo desde logo governar na limpeza do dito seu cano, mesmo por meios indirectos e usando de suspiros, ainda usando do cano dos réus, precedendo primeiro uma vistoria feita pelo Juiz de Fora com assistência de pritos louvados sobre os canos das autoras e réus e pagar as custas de premeio etc. etc

                         

É esta a cópia fiel do Acordam da Relação do Porto de 11 de Novembro de 1793, não deixando dúvidas a ninguém que houve freiras em Amarante e que os doces regionais d’Amarante, da Confeitaria Amarantina de Alcino dos Reis são provenientes de receitas do Antigo Real Convento das Freiras de Santa Clara de Amarante.

 

Era assim, aproveitando circunstâncias por vezes pícaras ou pitorescas, que se fazia noutros tempos a propaganda das particularidades de cada terra. Neste caso focavam-se os doces conventuais de Amarante.

Confessemos que não calha mal juntar à doçura o riso mesmo sendo à custa do desnaturado “pretuguês” com que foi redigido o hilariante acordão...

 

 

 

 

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