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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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“A palavra exacta”

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.904 – 8 Fevereiro – 2007

Reminiscência -- 29

Conversas Soltas

 

 

Tinha estado a prestar atenção a um programa na televisão onde se falava de correntes literárias, e referia com particular ênfase o Romantismo.

Fiquei a pensar na influência que as vivências de cada época têm na arte e, talvez de forma mais evidente no romance e na pintura.

Detive-me a “revisitar” interiormente o pouco que sei do assunto e a “digerir” com o máximo de benevolência possível o confronto com a minha ignorância, saboreando algumas lembranças e referências que persistem em coabitar comigo.    

Recordei a descoberta de alguns autores, um, em particular, porque o li “cedo” e, portanto às escondidas – Emile Zola com a sua Nana e a sua Therese Raquin, livros, retirados à socapa da biblioteca do “Avô” como também eu, entre suas netas, assim tratava o Dr. Aresta Branco – pai– figura quase lendária dos tempos da implantação da Republica, que, tendo sido companheiro de escola e amigo de meu avô paterno, me mimava como neta .

A verdade é que nem os olhares daquelas figuras austeras, de colarinhos engomados , “plastrons” sob as casacas negras, monóculos, bigodes retorcidos , barbas de fino recorte, quietas nos retratos enormes, de tamanhos e molduras iguais que revestiam as paredes da seu  escritório, e que o Avõ referia familiarmente como:  o Manuel de Arriaga, o Teófilo, o Bernardino, o António  José de Almeida  o  Teixeira Gomes  - e pareciam fixar-nos acusadoramente, nem eles, nem a média luz, imposta pelos espessos cortinados, que tornava os moveis escuros de tremidos e torcidos um tanto fantasmagóricos nos detinham a mão atrevida que  surripiava das estantes, os exemplares, que, às escondidas, íamos devorando

(From left, seated at table) Joseph Schildkraut, Paul Muni, and Gale Sondergaard in The Life of &[Credits : Courtesy of Warner Brothers, Inc.]

Mas, isto de Zola, que ouvíramos dizer ao Avô, ser amigo de Paul Cézanne, e estar ligado à defesa do caso Dreyfus,( que não sabíamos o que era) mas, de que o Avô, falava com admiração,  era o máximo!

Podíamos até nem perceber grande coisa do que liamos, nem ter a mínima noção do que era o naturalismo, ou, alguma vez olhado um quadro de Cézanne, quanto mais distinguir – aos doze , treze anos, se era clássico ou  impressionista! - Mas, a emoção de lhes pronunciarmos os nomes dava-nos o conforto íntimo de nos “sentirmos entendidas”, gente adulta, que sabia “das coisas” , o que nos fazia presumir de “importantes.”

Decorávamos poemas, títulos de romances, nomes de autores, e, claro está, das suas heroinas.

Chorávamos, agonizávamos e quase morríamos de emoção com o drama da Dama das Camélias, como nem ao próprio Dumas, teria acontecido. Porque, então, com tal torrente de lágrimas ter-se-ia afogado sem conseguir escrever o romance...

Pasmo do mundo de lembranças que acabo debulhando a propósito de quase nada. E, desta vez, afinal, porquê!

Uma nesga de sol entrando pela vidraça iluminou de forma repentina um bocado de tecido sobre a minha mesa de trabalho. Fiquei a olha-lo seduzida pelo tons vibrantes das cores sob o efeito da luz.

Então, alguns versos que retenho, de um poema que o tempo foi varrendo da minha memória, levaram-me a pensar, em como, até nos desenhos das tapeçarias, as correntes literárias e poéticas das diferentes épocas marcavam a sua presença. O tecido imita as tapeçarias francesas “Gobelin” que primavam pelas delicadas figuras românticas desse universo paradisíaco feito de beleza e felicidade, verdadeiros delírios de elegância em cenas de Watteau próprias dos sec. XVII/XVIII

Julgo lembrar, que o poema se intitulava, “Passo de Minuete”e referia, um raio de luz (com agora) que acendia as cores de uma bela gravura representando uma dança de salão, em cujo verso final se dizia -: “graciosa mesura – e acaba o minuete.”

E, foi essa pequena frase que me fez sentir como às vezes, só uma palavra pode fazer a diferença. E. Na circunstância, evocando o ambiente, o meio e a época, para estar perfeito, tinham que ser aquelas e não outras: -“ graciosa mesura e acaba o minuete”. É que não é preciso dizer qualquer coisa mais para se “ver” que a dança terminara, o cravo emudecera e os pares de cabeleiras empoadas e gestos peralvilhos e artificiais e as damas decotadas e cheias de frufrus a esconder o rubor do falso cansaço por detrás dos preciosos leques, se dispersavam pelos salões...

“Graciosa mesura” – nem demais, nem de menos – a forma exacta – apenas.

Preciosa como uma jóia, nostálgica, como uma reminiscência...

                                                 

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