Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Povo, Povo, eu te pertenço…

Sexta-feira, 27.03.09

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.310 – 8 de Julho de 1995

 

 

 

Seu Pai fizera uma carreira brilhante.

Foi um militar notável e veio a falecer com o posto de general.

Era filha única.

Família com tradições e haveres, aparentada com a nobreza.

Sua mãe contara-lhe histórias de seus antepassados. Coisas cruéis, mas verdadeiras – que mais pareciam fantasias de contos de fadas.

… Era a vida de fausto e de martírio de sua lindíssima bisavó – que o retrato pintado a óleo, e pendurado na parede do salão – dava testemunho.

… Haviam-se casado aos quinze anos, por decisões de família. Às escondidas, nas malas do enxoval aconchegou as duas bonecas preferidas.

                  ilustração do anúncio

… Era o violento ciúme do velho Senhor que a desposou mercadeando beleza e juventude por vultosos interesses…

… Era a sua vida de martírio, com as longas tranças entaladas com a tampa dum arca, onde as duas açafatas lhe traziam mimos e gulodices e se revezavam a contar histórias para a distrair e lhe secar as lágrimas.

Ali a serviam até com o peniquinho de prata, naquela humilhante circunstância, engendrada pelos caprichos doentios de seu marido e senhor…

                    

Quando o seu algoz voltava das caçadas e outros afazeres de rico ocioso, mandava que a libertassem cedendo a chave que carregava no bolso; que a levassem e perfumassem; que a enfeitassem com roupas, laços e jóias e lha trouxessem à presença com vénia.

Então, olhava-a deliciado e despia-a com requintes de vagar para satisfazer a sua gula incestuosa de velho sádico que, sem pudor, enxovalhava um corpinho de criança como quem desfaz uma flor com o tacão da bota. Por mórbido prazer.

                             

Porém, como a natureza é capaz de funcionar indiferente aos sentimentos, nasceram-lhe filhos, prisão que amou.

Mas, tantos foram que lhe esgotaram a vida.

Desta tragédia que era contada – apesar de tal, com certo orgulho pela grandeza desse passado – veio a decisão de liberdade para casar a gosto – de que fruíram as gerações seguintes.

Ela casara por amor.

Seu marido fora dono de armazéns e armazéns e lojas e lojas de vendas por grosso e por retalho.

Morreu cedo. Estupidamente – que as gerações, mesmo os mais apaixonados – cedem ás mazelas e pararam.

Impreparada, para gerir aquele império, vendeu tudo.

Pôs o dinheiro a render e dispôs-se a viver dos rendimentos.

A guerra – a grande guerra – gorou-lhe o projecto.

Desvalorizou a moeda e ela viu-se na casa cheia de coisas belas, apenas com a criada que desde mocinha a servia.

Começou a vender coisas… a vender…

Ficou pobre.

Aceitava com dignidade “ofertas” das pessoas que lhe queriam bem.

Morreu velhinha, bem cuidada pela criada, que trabalhava para a sustentar.

Se tivesse tido filhos, talvez, algum deles contasse esta história de uma família em que todos os elementos estavam identificados um a um, de geração em geração, como quem narra um romance medieval.

               

Talvez…

E, por certo, daria lugar de destaque à criada, sem estirpe, mas, com nobreza e coragem bastantes para transformar, apagada e humilde, uma tragédia num poema de amor e dedicação.

 

Maria José Rijo

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 22:34


2 comentários

De Gustavo Frederich a 27.03.2009 às 23:32

Uma história deveras especial e contada por si,
por esta sua forma especial de contar, chega a
enternecer o coração.
Realmente a Tia tem um Dom, um dom de escrever
maravilhas, como esta.
Aprecio realmente todo este tipo de textos - como
sabe, e já aqui lhe tenho dito, tudo o que toque ao
som de politica, apenas não leio. Lamento dizer...
mas o meu mundo é o da poesia.
"Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;

Caminhante, não há caminho,
se faz o caminho ao andar
Ao andar se faz o caminho
e ao voltar a vista atrás

se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante, não há caminho
somente marcas no mar"
(Antonio Machado)
-----------------
Lua Adversa - Cecilia Meireles

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
--------------------------

Beijinhos tia
Gosto muito de si

Gus

De Dolores e Avelino a 27.03.2009 às 23:46

Oh Tia querida
Que história triste e linda.
Concordo com o Gus, realmente a Tia tem uma
forma brilhante de escrever, de contar, e ao
contar faz-nos rever cada um dos instantes dessa
vida que conta.
Parabens minha tia uma história muito interessante.
O Avelino leu-nos em voz alta, a mim e aos primos.
Gostamos todos e a Magé sorria sempre que ouvia
- a Tia Zé ... - ela já conhece o seu nome e ri ao
ouvi-lo.
Ficamos todos contentes.
Recordo como a minha filha, ao falar com a sua
barriga dizia - "filha é a nossa Tia querida e tu
também vais gostar muito dela, vais sim..."
Conto-lhe isto e parece que a estou a ver a passar a
mão pela barriguinha.
Até estou emocionada ao recordar este pedacinho.

E a sua mana está melhorzinha?
Espero e desejamos que sim.
Que tenha um Feliz Fim de semana.
Muitos beijinhos tia

Dolores e Avelino
e Magé

Comentar post





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Março 2009

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031


comentários recentes

  • Anónimo

    Querida Tia Maria JoséQue alegria chegar mais um d...

  • Anónimo

    Minha querida e Boa amigaque alegria chegar aos 93...

  • Anónimo

    Minha querida tiaEu sabia que era hoje o dia do se...

  • Anónimo

    Titia queridaQue alugria nesse seu aniversário.Des...

  • Anónimo

    Minha querida Amiga93 anos - uma data muito import...


Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


links

Um pouco de mim...

EFEMERIDES

Blogs- quem nos cita

Deambulo por

Culinaria

K I K A

Paginas de Diário

2010

2011

2012

2013

2014

2015

2016

2017

2018

2019

Cá estou ...

Mais alguns...

Alguns...

Alentejo

Eurico Gama

Artigos sobre...

Escola Musica / Coral

Elvas Cidade...

Escritores e...

A Familia

Sebastião da GAma

Minhas sobrinhas Bisnetas

Meus sobrinhos Netos

Meus sobrinhos

Diversos...

Páscoa

São Mateus

Cartas especiais

noticias em Jornais

Dia da Criança

Cartas do Brasil- 1996

AÇORES

Juromenha

Col. de Gastronomia

O Natal

Exp. MuseuTomaz Pires-1984

Exposição PERCURSO-2008

HistóriasCmezinhasEreceitas

Revista Sénior

JOSÉ RIJO

Hospital e Maternidade

Livro de Reminiscências

Livros- de HistóriasInfantis

  • A história da Cotovia
  • A história de uma Flor
  • A historia do Castelo
  • AlendaMisterioso vale florido
  • O sonho da Joca
  • A menina de Trapo
  • A avó conta 1 historia
  • Conto - Margarida - 1
  • Conto-Margaridavaicontente
  • ... então sonhei!
  • O Cavalinho encantado
  • A princesa Jasmim
  • Aurinha está doente
  • Arnaldo o terrivel
  • A Cabrinha
  • Era uma vez ...
  • O pequeno castanheiro

Dias festivos

Programa de Poesia (radio)

Crónicas na Revista

Livro de Poemas - I

Livro de Poemas - II

Livro de Poemas - III

Livro de Poemas - IV

Aniversários Linhas

Livro Rezas e Benzeduras

Livro das Flores

LivroJoaoCarpinteiro

A Visita - Despertador

Programas se SãoMateus

Entrevistas

Entrevista - TV-Videos,etc

Visitantes no Blog

Aniversarios Blog



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

arquivos