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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Reminiscencia - 24

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.838 – 3 – Novembro - 2005

Conversas Soltas

Reminiscência Evocação

Reminiscência - 24

.

Uma das coisas que a Vida me ensinou, é que, de certo modo, nunca se está só.

Há sempre dentro de nós, qualquer lembrança, qualquer recordação que inesperadamente nos aflora ao espírito e que nos assegura que somos ou já fomos parte de um núcleo que mesmo depois de extinto, e permanecendo apenas como memória, nos identifica como indivíduos.

Nenhum de nós, é apenas e simplesmente isto ou aquilo. Cada um de nós, é, em cada dia um ser em evolução ao qual cada hora, cada minuto, cada instante torna diferentes, mas que conserva latente dentro de si, como um fermento, memórias da sua infância que sempre serão condicionantes e motor, dessa evolução.

           

Aqui há dois ou três dias atravessando o jardim, parei a observar a passarada nas gaiolas e dei comigo a pensar como desde muito criança sou pela liberdade.

Meu pai, adorava música e canto, aliás cantava muito bem, de tal forma que era solista no Seminário Patriarcal onde, em menino, estudou.

Nesse culto incluía também o seu apreço pelo canto das aves.

Cuidava com zelo das suas gaiolas de canários e, muitas vezes parava de ler qualquer jornal ou livro que tivesse em mãos, para, desvanecido ficar a escutar os seus trinados

Ora, em certa altura decidiu adquirir, também pintassilgos.

Vivíamos no campo, a tarefa afigurou-se-lhe fácil.

E, vá de comprar gaiolas e povoa-las. Acontece que o desconforto de estarem presos era tal, que os pintassilgos passavam o tempo a tentar alargar os arames, com as cabecitas, tentando a fuga.

Eu, olhava sofria e ia crescendo tanto a minha aflição, que à socapa ajudava-os e, eles fugiam.

As crianças são matreiras, mas os adultos não são tontos...

Meu Pai, calou-se, mas desconfiado da “fartura” porque o fenómeno se repetiu várias vezes – averiguou – e foi-lhe fácil apanhar-me em flagrante.

Estática, mais envergonhada e humilhada por ser descoberta a traí-lo, do que receosa, comecei a chorar.

E, quando eu pensava que meu Pai, ao erguer a mão para mim me iria puxar uma orelha (único castigo, e raro, que mais fingia do que exercia) ele segurou na minha, pegou-me ao colo, limpou-me as lágrimas e disse comovido: - tens razão filha! Até um pobre passarinho luta pelo direito à liberdade.

Vamos respeitar isso!

E, acabaram os pintassilgos engaiolados.

Revivi a cena e pensei: - meu Pai morreu já velhote!

Foi em 71, há 34 anos, tinha ele então 81!

Foi neste exacto momento que me lembrei da minha própria idade.

E, confesso que dei comigo a rir, a rir com gosto.

Velhote! Velhote!

E, velhota, porque não?!

~     

Fantástico como o tempo altera alguns dos nossos conceitos mais “definitivos”...

E, esta hein? – Diria, sem hesitações, Fernando Pessa.

 

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