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Na mesma tecla…

Sábado, 15.08.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1882 – 3 Abril de 1987

 Na mesma tecla…

Fala-se de poluição, de defesa do ambiente. Fala-se!

Difundem-se opiniões. Fazem-se colóquios, seminários, congressos.

        

Agita-se a opinião publica através de jornais, rádio, televisão e sei lá que mais!

Parece que depois de tudo isto haveria um mínimo de normas a estabelecer, a cumprir e a fazer cumprir.

Parece! … mas não!

            

Porque depois, sem regras diferentes, ou novas directrizes, entregam-se às mesmas pessoas, os meios para que desgracem e reduzam a espantalhos as árvores… quando já em plena Primavera ousavam a ventura de reverdecer, prometendo aos homens que as agridem a sombra amenizante… benesse almejada… para quem calcularia os caminhos no nosso tórrido Verão.

    

Decepadas… tragicamente sinistras… aí estão circundando a cidade como visões de pesadelo… as velhas árvores que tentaram ser frondosas e generosas de sombra e beleza. Ai estão, talvez, vivas ainda, por mais algum tempo, ou… talvez a morrer de pé… como tantas outras que quiseram florir e foram mortas noutras Primaveras já passadas. Aí estão, escuras como silhuetas de fantasmas acusadores da nossa insensatez…

    

Para que então mais congressos, seminários e palestras, publicações coloridas, ilustrações e filmes se depois de tudo isso, ou apesar disso, se mete o serrote, a podoa, a escada, na mão não especializada, e para cúmulo… depois de passada a época própria… se deixa atentar contra a vida de tão doces e indefesas vítimas?

       

Limpar uma árvore é como que afaga-la e protege-la, não é certamente provocar-lhe a morte.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:20


6 comentários

De Adalgisa Alexandra a 16.08.2009 às 16:33

Minha querida Tia
A Tia realmente tem um espolio excelente de
belissimos textos.
Os meus Parabens

Gisa

De Maia José a 20.08.2009 às 20:59

Querida Gisa
Não posso dizer que ando com azar, poque o que me acontece são pequenos contratempos do dia a dia.
Já estive mais uma semana em Juromenha, mas... por factos que me não dizem respeito ainda terei que lá voltar outro tanto tempo para que se terminem os trabalhos começados e suspensos por luto de quem os está executando.
Conclusão: nunca mais páro em ramo verde para reorganizar a minha rotina
Mulher só, sofre....
Beijinhos tia Zé

De Flor do Cardo a 16.08.2009 às 16:43

Minha cara Maria José

Desculpe não ter vindo escrever nestes dias, mas
agora com a Magnolia tem sido uma alegria, quase
como quando a minha mulher estava viva, se é que
consigo expressar, uma mulher numa casa de homens
já sabe como é.

Andamos na linha...
A Magnolia é uma moça muito querida e amiga, se
bem se lembra ela já tinha estado cá em casa.

Ela está aqui a meu lado a dar-me umas massagens
nos meus joelhos que me não deixam quase andar
e devo dizer-lhe que resulta muito bem.

A Mag (como diz o Gilinho) gostaria de saber se
pode escrever comentarios nos seus artigos.?

Aguardamos resposta - e também se lhe pode
chamar tia ?

E a amiga como está?
Como tem passado o tempo?
Em Elvas deve de estar um calor horrivel, se bem
eu conheço o Alentejo e Elvas, claro.
Fique com Deus

Um abraço

Luciano

De Maria José a 20.08.2009 às 22:18

Luciano - então não quer saber que dei comigo a invejá-lo!
È que também eu já vou tendo "as dobradiças enferrujadas" como costumo dizer, e como Nosso Senhor não lhes fez uns buraquinhos para pudermos usar uma almotolia para as olear, bem me calhava uma nova sobrinha para ajudar no conserto.
Porém, a esta distância só dá para sentir a alegria que ter uma Magnólia proporciona.
Fico feliz por se sentirem contentes. Dá para sentir que é uma benção fruir de tal companhia.
Peço-lhes muito que não se preocupem comigo.
Erva ruím não a queima a geada diz-se cá na nossa terra, como bem sabe.
Na nossa casa, arranjamos algumas defesas contra o calor e passa-se bem.
Às vezes até abro a porta da varandinha para sentir o bafo quente da terra abrasada pelo sol como a memória que guardo da minha infância quando ia ver os trilhos a debulhar nas eiras .
Coisas que só os alentejanos desse tempo ainda recordam.
Espero que não façam cerimónea comigo e,
creiam que as vossas presenças são um Bem na minha vida
Beijinhos para todos - tia Zé

De entremares a 17.08.2009 às 14:26

Majestosamente, o astro rei ergueu-se solitário sobre o horizonte.
Nada perturbou a sua caminhada pelo céu azul forte, despido de nuvens. O vento, resumido a uma tímida aragem, mal conseguia despertar as poucas ervas rasteiras que ainda sobreviviam, refugiadas na sombra protectora dos troncos ressequidos. A vida, esse teimoso mistério de contrasensos, persistia em não se deixar extinguir, apesar do ambiente desolado daquele recanto do deserto.
As aves já não procuravam mais ali os seus ninhos da primavera; o calor tórrido, o ar seco e a ausência absoluta de chuva haviam tornado aquele outrora quase paraíso numa antecâmara do inferno, habitado apenas pelos répteis e escorpiões.
O bosque de cedros, em tempos verdejante, vira correr a seu lado um ribeiro de águas frescas, alimentado com o degelo da primavera.
Mas a primavera dera lugar ao verão, as montanhas distantes haviam perdido os seus cumes de neves brancas e o ribeiro secara, sem mais alimento para as areias sedentas que aos pouco e poucos, o engoliram.
Ninguém sabia o porquê.
O verão eternizara-se, a temperatura subira, o chão perdera a cor verde e os animais haviam partido em busca de locais mais frescos. A terra retalhou-se, dolorosamente, abrindo fendas extensas, expondo as entranhas à inclemência do sol.
Algures no meio da planície, um pequeno grupo de troncos retorcidos testemunhava ainda o local do bosque original.

Quando a escuridão desceu de novo sobre a terra, o sol abrasador fizera mais uma vítima; um último ponto verde no tronco moribundo de um dos cedros perecera, rasgado sem piedade pelos raios do deus sol.

- Milius… Milius…
O cedro maior continuou o chamamento, mas a noite devolveu-lhe um imenso silêncio como resposta. Não conseguia suportar a ideia de todos os companheiros estarem agora transformados em meros esqueletos sem vida, uma massa de madeira informe e sem vida, de formas grotescas, destacando-se na planura do deserto.

- Milius… por favor… não me deixes aqui sozinho…
O espírito do cedro não lhe respondeu ao chamamento. Por muito que lhe custasse a aceitar… estava só, completamente só … rodeado dos testemunhos sem vida dos seus amigos, agora resumidos a galhos secos e … memórias, muitas e boas memórias.

O cedro maior emudeceu. Pela primeira vez em toda a sua longa existência, desejou ser algo mais que uma mera árvore, desejou poder mover-se, poder partir para outro local, esquecer aquele recanto de infância… esquecer tudo.
Sentiu saudades da chuva.
Sentiu saudades da fresquidão das gotas sobre as folhas verdes, da passagem dos animais rumo ao ribeiro, das flores silvestres que se acumulavam junto da sua sombra…

Apeteceu-lhe chorar. Mas nem isso podia fazer.
Tentou inclinar-se… deitar… adormecer… mas isso também não lhe era permitido.
Morrer, talvez… mas mesmo a morrer, seria de pé.

De Maria José a 20.08.2009 às 22:37

Que bonita história me ofereceu para ler.
Obrigada.
Também a mim as árvores fascinam e comovem.
Obrigada mais uma vez e muitos parabéns pelo belo texto
Maria José Rijo

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