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Amores e Amor

Segunda-feira, 12.10.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.014 – 27 de Outubro de 1989

Amores e Amor

 

Por alguma razão a humanidade é formada por indivíduos. Quero dizer: um, mais um, mais um até à soma dos milhões de milhões, de milhões de seres, que mesmo que morressem todos juntos num só instante, teriam que morrer como também se nasce – a um, mais um, mais um, mais um, cada qual da sua morte.

        

Parece que, se não houvesse outras razões, esta, só por si, já seria bastante indicadora do valor que deverá ter na vida o íntimo, o privado, o secreto, a marca da sensibilidade que faz cada individuo diferente de outro individuo, e torna cada um responsável pelo seu comportamento próprio.

      

Penso, que os maiores erros dos nossos dias, provém da excessiva uniformização, da negligência das pessoas em se assumirem nas suas diferenças, nos seus gostos, nas suas ideias, em lugar de aparentarem uma igualização, uma normalização de comportamentos, que degrada a qualidade de ser.

            

“Decreta-se” que parece bem, é moderno, é símbolo de desinibição e… toca de fumar, beber, jogar, namorar como nas novelas aos beijos a este e a mais aquele, de fazer experiências sexuais com este e, mais aquela, utilizando o corpo como um objecto de que se fosse proprietário, destruindo a alma, inteligência, espírito, ou como se queira chamar-lhe.

         

Com arrogância, provocação, ou apenas falta de senso ou de educação – em nome dum estatuto de progresso e niveladora modernidade ou desembaraço europeu – recusa-se qualquer hierarquização e trata-se todo o mundo por vocês – como quem põe rótulos de preços de saldo em produtos mal acabados.

        

E a recusa de ceder ao fácil, ao vulgar, ao abandonar de valores, que forja a força de vontade, a dignidade, a honra, a deferência ou a veneração para com os mais idosos, são valores relegados para o esquecimento.

       

- E a ligação íntima e, secreta que une em exclusivo duas pessoas que podem sorrir ou tocar-se com uma cumplicidade de conhecimento e afecto de que mais ninguém compartilha e geram, no casamento, a devoção que obriga à lealdade no bem e no mal, à mutua e recíproca protecção que fundamentam os laços de família, caiem em desuso.

E entre tanta facilidade sucedem-se amores e outros amores porque afinal se desconhece o amor.

      

Há pouco tempo acompanhei no desgosto da viuvez um homem de avançada idade que chorava o fim do seu casamento de mais de 60 anos. Sofria com uma dignidade respeitável. Só quando viu partir para sempre a sua velha companheira, mais murmurou do que disse, duas frases simples: - “Santa da minha alma”.

Comoveu-me aquele “pranto” que envolvia no seu contido pudor, uma poética declaração de namorado antigo.

    

Nunca mais o esqueci, e agora, sempre que encontro “meninos” e “meninas” de suas mães, pelos cantos, numa gula irreflectida pela vida que devoram e os devora sem que a tentem saborear – fico a pensar se alguma ou algum deles, algum dia, por aqueles antepassados caminhos, colherá da vida uma plenitude a dois, que lhe faça brotar do coração o sentimento profundo de amor que lhe permita murmurar no fim – “ adeus, amor da minha vida – santa ou santo da minha alma…”

    

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:55


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