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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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O Mondeguinho

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1811 – 15 Novembro de 1985

O Mondeguinho

        

Por certo nem só a mim acontece, estar ás vezes, desprevenidamente, frente ao televisor, pronta para entreter de forma ligeira um bocado de serão, e nele, surgirem imagens que nos atingem como assaltos à mão armada.

     

Foi assim, agora, com esta série que relembra como a televisão, ao contar com imagens – em directo, por vezes – alterou o impacto da narração falada ou escrita, e põe como participantes na vivencia de guerras, crimes, fomes e misérias, na terrível posição de poder julgar – tudo e todos – fora do “clima” em que as situações foram vividas e “resolvidas” de formas tão cruéis que – ainda a olha-las – da sua veracidade se duvida.

        

Tenho a certeza de que ninguém volta a ser como era, depois de saber possíveis, atrocidades tais. Como tenho a certeza de que ninguém esquecerá tais coisas, se as viu.

     

Parte-se sempre de onde se está. Tudo quanto se vê ou sente, se soma ao que já se viu ou sentiu.

          

Estou a pensar numa pequena lápide incrustada na rocha, à beira de um rio nascente na Serra da Estrela.

    

Recordo que a primeira vez que a li, tive uma comoção, como se tem ao ver alguém que se julga perdido ou morto, e de repente – como uma aparição – nos surge vivo e são.

          

 Uma daquelas alegrias inesperadas, que nos entontecem e põem a rir e chorar ao mesmo tempo – porque nos inundam de paz e nos renovam a fé na vida.

          

Lá no alto, na Serra da Estrela – à beira duma pequena fonte de onde jorra água muito fria e transparente – alguém gravou:

                   

“Mondeguinho – nascente do Rio Mondego”

Só isto!

Só isto e basta para pensar e sentir, que são os mesmos homens que matam e odeiam – que se enternecem à vista de um veiozinho de água, que brota da terra, e o minam desta maneira!

          

O Mondego, é sabido – é o nosso maior rio nascido em Portugal – mas lá na Estrela, ao vê-lo pequenino, foi olhado com a alma de joelhos, como se olha um presépio, e como se lhe pegasse ao colo, porque o via nascer – carinhosamente o Homem baptizou-o: - Mondeguinho!

         

Olho estes programas que a televisão nos mostra as vezes – numa angústia que me dá até sofrimento físico – mas sei que a água é pura na nascente, e só se suja no caminho – e acho licito conservar a minha esperança.

 

Maria José Rijo

 

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