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Subtilezas

Sexta-feira, 04.12.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.740 – 19-Dezembro de 2003

Conversas Soltas

SUBTILEZAS

 

Chove.

O céu está cinzento, e as vizinhas casas caiadas da paisagem que me cerca e já de cor conheço, estão lavadas, repassadas da água que já escorre dos beirais, em catadupa.

Não vale alongar o olhar. Não vale a pena.

A dois passos de distância o horizonte está fechado, opressivo, como se a escuridão tivesse engolido o resto do mundo lá por detrás...

Até as nesgas de verde da erva nascente, que por esta época de Natal cobrem o chão, de tão empapuçadas em lama não têm mais o seu ar comovente de relvinha tenra de presépio.

Só palavras pesadas de sentido me ocorrem – preto, negro, negrume...

Preto, negro, negrume, palavras pesadas, tristes, quase aziagas como presságios maus, como a carranca deste dia húmido e escuro.

Onde andará o sol, a luz, que faz a alegria da cor?

Onde andará o sorriso do tempo, onde andarão as nuvens fugazes, esvoaçantes, loucas, que percorrem os céus vaporosas como sonhos fluidos, belos e vagos como tudo o que fascina, embriaga e não se domina jamais...

Para onde se terá mudado o mundo de azuis, essa escala monocromática, que faz o esplendor do azul na paleta do céu?

Porque terá a luz tanto que ver com a alegria, e porque se ligará tanto à tristeza, a sombra, o escuro, o negrume.

Como se tristeza e dor não fossem possíveis em dias jubilosos...

Que diferença haverá entre negro e negrume, fico a pensar, e dou comigo a achar que negrume é mais do que negro. Senão no tom pelo menos no significado de volume e vastidão que transmitem.

Negro, parece ser só ali, num ponto, talvez... mas, se for: negrume, já é, ou parece ser imenso, incontrolável...

E, branco? – Branco, não tem cor. Mas, se for alvo já é branco com luz, ou não será?

Porém, se se disser: branco de jaspe, já é frio, cortante como gelo, embora seja ainda branco.

É que jaspe é pedra. Já pode sugerir o túmulo. A morte.

Pensa-lo, já arrepia.

Prefiro o branco da cal.

Esse, tem o cheiro da limpeza. Esse, põe as casas a alvejar, tem o calor do sangue que no trabalho, alimenta a vida da gente, que por intuição ou instinto, até, procura a beleza na simplicidade castiça dos costumes herdados.

Porém é também com uma pá de cal que os corpos descem à terra.

Como tudo pode ser contraditório.

Perco-me por entre as subtilezas da nossa língua. Perco-me , mas delicio-me.

Em dias soalheiros, minha Mãe ao acordar-nos, sempre dizia: está um dia de rosas!

Levantem-se!

E, já se sabia que era um dia radioso, era o verdadeiro dia novo em que os instantes se sucediam como se em cada um deles o dia estivesse a renascer belo, luminoso, por estrear, em folha!

Já se o dia era de chuva, lhe chamavam copiosa... Também as palavras têm destinos distintos. Pois se copioso é farto, é abundante, porque é a chuva copiosa – sendo muita – mas é esplendoroso o sol, se nos inunda!

As palavras são um inesgotável manancial de assunto e de mistério, com elas me distrai, e entretanto a chuva parou.

Engraçado é que eu queria contar, e por pouco, já me esquecia a história do menino francês que andando a aprender português resolveu certo dia anunciar que ele e a família iam “ quebrar” para Lisboa, e perante o riso dos circunstantes fez questão de provar que partir e quebrar eram sinónimos...e, até tinha razão... só que ainda lhe escapavam as subtilezas – em que é pródiga – a nossa língua.

 

 Maria José Rijo 

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publicado por Maria José Rijo às 23:12


6 comentários

De Gustavo Frederich a 04.12.2009 às 23:32

Este artigo é especial.
Sabe que muito me tocam os seus artigos quando
fala da senhora sua Mãe.
Toca-me o coração a forma sábia e carinhosa como
a tia dela fala.

Muitos Parabens minha tia
Beijinhos

Gus

De Eva Mateus a 04.12.2009 às 23:34

Gosto.
Gosto imenso de tudo o que a Senhora escreve.
Sou uma apaixonada por este blog.
Os meus Parabens

Eva mateus

De Maria José a 09.12.2009 às 21:25

Eva Mateus
Que poderia eu dizer de mais verdadeiro senão que fico feliz sempre que descubro que alguém gosta de"estar na minha companhia?"
Um abraço grato
Maria José

De Aristeu a 05.12.2009 às 00:18

Que sorte que temos nós os seus leitores.
Artigos sempre lindos - lindos - como este.
Ultimamente tem sido assim - Só textos de grande
beleza - textos lindos escritos promorosamente
como estes e tantos, tantos outros já publicados
nesta maravilha de blog.

Quando leio os seus artigos, aqueles em que
divaga por esses caminhos da sua bela alma
fico sempre encantado, admirado com o seu
belo espolio literario.
Gostei imenso, tia. Gosto imenso tia.
Muitos Parabens .
Sempre muitos Parabens.

Tia o nosso ilustre Julião foi passear , em lua de
mel, para o pantanal. Ele e a sua florzinha.
É só rir.
A tia não imagina a quantidade de pessoas , amigos,
que vêm ver as fotos do Gilinho. Um sussessão.
Agora estamos - algo de ferias - por assim dizer
mas penso que para o Natal teremos o casalinho
cá em casa.
Vamos ver se não é.
Breve daremos mais noticias.

Beijinhos Tia

Aristeu

De Ana Maria Lourenço a 05.12.2009 às 00:22

Que artigo Lindo minha Senhora.
Gosto muito deste tipo de artigos, o que me deixa tão
feliz.
Realmente a Senhora escreve tão maravilhosamente.
A sua lucidez é tremenda - como costuma dizer o
meu marido, em conversa com os colegas do banco.
Todos leiem e quando tocam a politica - ficam tão
mais contentes e falm sobre a sua lucidez.
Alguns comentam aqui também.

beijinhos e muitos Parabens

Ana Maria Lourenço

De Helder Sabino a 19.12.2009 às 00:15

Caríssima Sra
Não seria eu se aqui não viesse deste simples modo para lhe desejar um bom Natal.Creia-me seu admirador e amigo.Tenha muita saúde e que Deus a abençoe.
Helder Sabino
Elvas

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