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… 2 Anos depois…

Quarta-feira, 13.01.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.851 – 22 Agosto de 1986

… 2 Anos depois…

           

Procurou-me um casal, vestido de luto carregado, que chora, sem fim, uma menina – sua filha – que partiu sem ter cumprido a vida que os seus 16 aninhos lhe prometiam.

Deram-me jornais para ler e falaram-me com aquele resignado espanto que guardam em si os sobreviventes das tragédias.

Vou-os escutando, lendo os jornais, e sem dar por isso recordando…

     

Revejo um carro fúnebre, parado, frente á igreja da Misericórdia, numa manhã bonita, há quase 2 anos.

Relembro comentários, então apercebidos, entre os circunstantes.

Relembro o estupor que me invadiu cobrindo o sol da manhã bonita e não me deixando encontrar rumo para aquele dia.

Relembro ter respondido a um amigo que me aconselhou a que escrevesse sobre o assunto: - não posso! – Nem sei quando lhe poderei tocar…

      

Naquele momento só me ocorriam ideias como: - castigo, castigo, e essa formulação insistente parecia-se com vingança. No entanto, qualquer coisa no segredo da minha consciência me alertava para o perigo de critério tão sumário, em ocasião tão grave e envolvente de valores tão nobres – vida e morte.

Qualquer secreto instinto me advertia que acusar seria um álibi – não – uma solução – uma resposta.

Vão dois anos. Dou-me conta agora, talvez, já então sentisse ou pressentisse que, destas coisas, todos somos culpados, e com isso sofresse.

       

Culpados de não as prever!

Culpados de não as evitar!

Culpados até, de as facilitar com toda a permissividade dos nossos frouxos costumes.

Tudo quanto acontece depende e dependerá, fatalmente, da nossa maneira de saber estar na vida. Dos valores que defendemos e respeitamos – da cultura que representamos e, se em casas destes é urgente apurar responsabilidades, não é porque punir seja a nossa mais imediata obrigação.

Não é por certo…

O nosso mais premente dever é fazer tudo para evitar novas tragédias. É fazer loucuras para recuperar os recuperáveis, porque a nossa vocação de gente é: - ser irmão da outra gente e estar ao lado daqueles por mais fracos e mais carentes querem tão avidamente tudo da vida que, na pressa a degradam, a aviltam e se aviltam sem nunca encontrar o gosto bom e a alegria que se colhe do equilíbrio interior – da paz de alma e da esperança.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:45


3 comentários

De Xavier Martins a 14.01.2010 às 00:53

Excelente este seu texto.
Sao Magnificos.
Por vezes nem tenho palavras para expressar
o muito que me dizem os seus artigos.
Parabens

Xavier Martins

De Aristeu a 14.01.2010 às 00:55

Minha querida Tia
em vesperas do 14 de Janeiro
deixo aqui (em meu nome e em nome de todos)
Um grande e especial beijinho.

Gostamos muito deste artigo.
Como sempre são especiais.

Um grande, grande beijinho

Aristeu

De J Cruz a 16.01.2010 às 15:53

Não podemos evitar todas as tragédias,mas podemos dar consolo...Teu cantinho é perfeito!

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