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Feição de nobreza

Sábado, 20.02.10

À LÀ Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1748 – 17 de Agosto de 1984

Feição de Nobreza

 

Netos de pobres, filhos de pobres, que a pobreza sempre campeou por aí pelas casas dos trabalhadores rurais, tem o Alentejo essa feição de nobreza: não se avilta por ser pobre.

Entre as tarefas anuais de mondas, varejo e apanha de azeitona ou ceifas, ficavam os chefes de família encostados pelas esquinas, no centro dos povoados, velando a ansiedade e o medo de não conseguirem alguma tarefa ou biscate que os livrasse da humilhação de ver a mulher e os filhos a pedir de porta em porta…

Eram ciclos de pão e de fome intercalados. Foi assim anos e anos, gerações e gerações.

Foi assim que esta nossa gente, rica de privações, se tornou conhecedora privilegiada do real valor do pão, porque de pouco mais dispunha (quando dispunha!) inventando as formas de o comer da mais consoladora maneira – quer de Inverno – quer de Verão! – Quer ter pão – já era ser remediado!...

Atrás do gado, em qualquer descampado, o pastor procurava uma amurada, uma abrigadinha, juntava uns gravetos, acendia o isqueiro de torcida, fazia crepitar o lume, fervia uma pouca de água na marmita que tirava do alforge mais a “corna” onde guardava o azeite que vinha de casa já com o gostinho do alho pisado com poejos ou coentros. Migava à mão as sopas do “marrucate” duro que trazia no taleigo e, mal a água fervia escaldava a mistura fazendo nascer a cheirosa açordinha que comia bem quente, sorvendo o caldo e condutando o regalo com um punhado de azeitonas.

       As mãos

- Bendita açorda que consola corpo e alma, matando a fome, aquecendo e incensando o bafo!

- Mudam os tempos. O calor embebeda o ar de cheiros de pastos estorricados; as ervas suam perfumes tão vibrantes como o canto das cigarras. O pastor escolhe então o chaparro mais frondoso, a oliveira mais redonda ou o freixo à beira de água, o gado rendido pela inclemência do sol, estende-se na sombra almejada e o ritual repete-se…

Do meringue que levava a tiracolo sai a água “choca” a que o vinagre emprestará a ilusão de frescura.

Lá vem de novo a “corna” fornecer o azeite com o gostinho picante do alho pisado, e lá vem o taleigo dar o “panito” que ao ser migado estala de seco.

Lá vêm os orégãos para o perfume e aí está a vinagrada ou o gaspacho que como a açorda ele come com o talher de bucho lavrado, esculpido a canivete em longos dias de solidão, e que usa entalado, preso na fita do chapéu!

Volta a “manchinha” de azeitonas para condutar e aí está – frugal, refrescante, pobre mas sadia a refeição inventada com o uso sábio do “ quase nada” que ás vezes havia…

Assim se ressalvava a dignidade, cumprindo o direito ao sustento de cada dia, como cabe à condição humana.

Nestes tristes tempos em que tão pouco nos vão deixando é bom que em nós persista o brio de sermos portugueses com a coragem herdada desta feição de família, deste traço de nobreza ancestral tão a carácter do bom alentejano.

Foi Manuel Castro, trabalhador rural, natural de Cuba, (que só na tropa conseguiu aprender a ler), quem escreveu estas quadras, que em honra da sua memória transcrevo:

 

“Há muito pobre que tem

pena da sua pobreza:

Saber ser pobre, também

É uma grande riqueza

 

Gosto muito da pobreza

Que me cabedou por sorte.

Só basta ter a certeza

Que me é firme até à morte”

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:44


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