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Em nome de quem se cala...

Terça-feira, 16.03.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1757 – 26 de Outubro de 1984

Em nome de quem se cala!

 

Quando vinha a sair da enfermaria das mulheres reparei na única cama à esquerda, que não tinha ninguém por perto, estando ocupada.

Instintivamente aproximei-me e perguntei com simpatia: Então?! – Sozinha?

- Com um sorriso de agrado veio o esclarecimento:

- “A camioneta é cara. A minha gente esteve cá ontem, só poderão, talvez voltar amanhã se Deus quiser.”

Falámos um pouquinho, como se fôramos amigas de longa data, embora acabássemos de nos encontrar.

Ao despedir-me, num tom de afectuosa brincadeira, fui dizendo: este beijo é em nome das pessoas que lhe querem bem, não podem estar aqui, e por certo a estarão lembrando agora, como a Senhora a eles.

Trocamos votos de bons desejos e separou-nos a vida que por uns instantes cruzara os nossos caminhos.

Agora, volta e meia, retorna à minha lembrança a insistente recordação da voz dessa minha irmã mulher…

“A camioneta é cara… mas amanhã…”

Um anseio modesto. Um anseio justo e, mesmo assim, um sonho…

A resignada consciência de que tem uma economia débil.

Um utente ao acaso, do nosso hospital.

Alguém que sabe, por herdado atavismo, talvez, que entre o ideal e o possível a distância, por vezes, é insuperável.

Alguém, de entre os milhares de pessoas que vivem reforçando em cada dia a certeza de que se o ideal é inatingível – é, no mínimo recomendável, que se conserve – se melhor não pudermos – o bem que temos.

Acredito que esta evidencia se furte aos olhares ministeriais (não por miopia ou deformação de lentes) mas, voando alto, como voam constantemente, deverão ter da terra onde a clientela desses hospitais labuta, a noção um tanto idílica de um “planeta azul”. Porém, quem palmilha com as solas dos sapatos, gastos e cambados, os caminhos esburacados dum quotidiano assas difícil…

Quem tem das camionetas roceiras, que param de lugarejo em lugarejo – a ideia de conforto que outros só conseguem colher, como “V.I.P.es” na classe de luxo de aviões reluzentes – é que sabe quanto vale, do meio duma enfermaria, ver sorrir-lhe, logo da porta na escassa hora de visitas – a presença acanhada do marido, da mãe… dos filhos – ainda que nos olhos a angustia espreite e a camioneta tenha “comido” o dinheiro da ceia.

É urgente que aqueles a quem a vida deu a vantagem de posições de comando, não pensem que pobreza é figura de retórica, ou que dela tenham a imagem da célebre redacção do menino rico:

“Pobres são: os que têm pobres vivendas, criados pobres, jardineiros pobres e carros antigos…”

É urgente fazer sentir que pobres são os que: “Não têm” para viver durante “um, mês”, tanto, quanto qualquer Senhor ministro tem de ajudas de custo “por dia” – por exemplo!

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:11


11 comentários

De Xavier Martins a 16.03.2010 às 21:23

Excelente D. maria José
Mais uma bela visão de lucidez sobre um assunto
que muitos descuram.
É um privilégio meu e de todos estarem aqui, on line
os seus textos.
~Muitos Parabens por mais esta maravilha.
Com muita amizade

Xavier Martins

De Aristeu a 17.03.2010 às 00:26

Tia
quem bom que voltou. É sempre uma maravilha
ter texto novo, também se não tiver é bom na
mesma porque sempre se pode ler algo que se
perdeu para tras. Há sempre muito que ler.
O seu blog está grande e repleto de maravilhas.
Como sempre.
O meu pai como conhece todos quando lê algum
que se não lembre lá muito, sorri e diz:
"Este continua mesmo bom. A maria José continua
de parabens - então como agora"

Muitos beijinhos minha tia
Gostamos muito de si

Aristeu

De Cilene a 17.03.2010 às 00:29

Formidavel!
Os seus artigos continuam muito lindos.
Uma maravilha , pode acreditar.
Não tenho vindo, sabe, tenho estado
adoentada na casa de uma tia longe destas
maravilhas.
E a senhora como está?
Espero que esteja Feliz. Sorrir faz bem.
Beijinhos
em seu coração
Cilene

De Augusta Silva Torres a 17.03.2010 às 00:37

Minha boa amiga
Desculpe esta minha longa ausencia mas tenho
estado longe de Portugal.
O meu filho levou-me para a Alemanha, Suiça e
terminamos na França.
Um passeio de saudades, como eu costumo dizer.
levou-me a ver locais onde estivera na minha lua
de mel.
Tudo tão diferente, tão diferente que quase me
arrependi de olhar aqueles lugares que ainda
conseguia olhar dentro de mim.
Mas então... o pasado é passado e a ele não se
volta... infelizmente...
Foi bom mas as saudades aumentaram, coisas
de quem já tem muitos anos e muitas memórias
esquecidas... ou quase...

E a minha amiga como tem passado?
Espero que este tempo, tão mau... não a tenha
prejudicado.
Por favor cuide-se, conviva o maximo e como
diz o meu médico sorria, sorria D. Maria Augusta,
sorria para a vida. Diz ele entre sorrisos.
Mas não é muito fácil... percebe do que falo, não é.

Como sempre mais um magnifico artigo.
São brilhantes os seus artigos onde a lucidez
é uma constante.
Que bom.
Da-me muito prazer ler os seus belos textos
repletos de verdades - que a maioria não quer
ver.
Sempre actiuais, SEMpre actuais.

Um grande grande abraço e com muita
amizade

Augusta Silva Torres

De Maria José a 25.03.2010 às 23:11

Minha boa Amiga
É sempre agradável reencontra-la até para lhe dizer que a entendo de uma maneira muito especial. Só que eu náo tenho a sua coragem.Várias Amigas insistem comigo para as visitar voltando assim a cidades onde vivi e, das quais guardo excelentes lembranças. Recuso-me linearmente. Não sou capaz de destruir esse mundo que guardo na minha lembrança e que sei ser impossível reencontrar. Bem sei que se pode sempre admitir que nos enriquece qualquer nova descoberta - mas - falta-me sempre a capacidade de enfrentar as diferenças sem o meu companheiro de jornada.
Reconheço que me isolei excessivamente depois que faleceu minha Mãe mas a presença de alguns amigos certos e a facilidade com que me encantam as pequenas coisas da Vida vão ajudando a completar o percurso com gosto e até alegria.
Um abraço grande e grato da Maria josé Rijo

De KikoKIKO a 17.03.2010 às 00:40

E o Kiko voltou...
Desculpe não ter andado por aqui mas...
estive sem pc... um pequeno castigo... uma má
nota... e zás... net fora...
mas como já está tudo fixe outra vez - net devolta
... e cá estou...

E a tia está boazinha?
Espero e quero que sim.
Parabens pelos artigos todos e pelos poemas
é claro.

Beijinhos
aqui do seu
KIKO

De M.Luísa Adães a 18.03.2010 às 11:06

Sempre a esperei comentar,
mas passei despercebida, no meu caminhar.

Hoje estou a voltar e lhe digo, mesmo sem me responder, seu texto é de um Humanismo incomum!

Felicidades,

Mª. Luísa

De Maria José a 25.03.2010 às 23:23

Maria Luisa - perdoe se a desiludi.
Não foi intencional!
Acontece que a minha presença no blog , não é muito regular.
É até bastante esporática. porque depende muito do tempo de que disponho e do meu cansaço.
Deixo-lhe com desculpas um abraço amigo e grato
Maria José

De M.Luísa Adães a 26.03.2010 às 08:59

Mª. José

Grata por me responder. Não tem de pedir desculpa e
não me desiludiu, mas eu gostava tanto, de a ter como amiga.
Que lesse meus poemas, os analizasse e os sentisse.
Foi sempre uma esperança que me acompanhou...
E hoje, pela vez primeira me respondeu.
Quanto lhe agradeço. Não me conhece, mas sente o que digo - eu sei - é o suficiente para mim!

Com ternura,

Maria Luísa

De Maria José a 26.03.2010 às 21:20

Maria Luisa
é evidente que me preocupo em não parecer indiferente ( porque o não sou) a quem tem a deferência de prestar atenção ao que escrevo lendo e comentando. O que acontece é que o tempo já não me "rende" como eu desejaria e foge-me sem que o preencha como era meu desejo.
Agradeço a sua amizade que gostarei de retribuir de todo o coração - mas, devo-lhe assegurar que não me reconheço com talento e saber para avaliar a qualidade do que escreve embora isso não exclua o meu interesse pela leitura das suas obras e, até o gosto de falarmos sobre elas.
Estou contente por te-la encontrado e grata pela sua compreensão
um abraço amigo - maria José

De M.Luísa Adães a 27.03.2010 às 09:16

Não sei se os tais senhores que planeiam lá no cimo de suas tarefas, o destino dos outros, olham mais abaixo e vêm uma
espécie de Planeta Azul onde volteiam os ignorados.

Não sei! Mas me parece que só um planeta existe,
"O deles" (não sei a cor).

E existe sim, a ilusão sem idealismos, do seu estar comodo, leve, no mundo deles.
Apenas há um mundo,
O Mundo deles!

São os trapezistas que chegam a qualquer lugar,
magoando e ignorando, esse magoar dos outros.

Eles vivem? Sim, eles vivem e os Outros morrem
sem viver.
Não contraem compromissos, apenas pulam de lugar em lugar.
A vida é só deles e para eles!

Assim os defino de forma breve, em resposta ao seu belo texto poético, mas cheio de verdade!

Com amizade, agradeço,

Maria Luísa Adães

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