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Os Lusiadas que somos

Sexta-feira, 16.04.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.781 – 12 de Abril de 1985

OS Lusíadas que somos

 

Repetida, violenta, impertinente soa a campainha!

Irritada, abro a porta de rompante pronta para a agressão verbal.

No patamar, iluminado só pela luz que se escapa do interior da casa, e os apanha em cheio – brilham alguns pares de olhos.

Um momento breve esgueira-se, até que se identifique a situação. Sorrisos rasgados desarmam-me aumentando o branco que reflecte a luz.

-- Quem são? – O que querem? – De onde vêm?

Surge como resposta a ponta da meada.

 

De um bairro, lá na outra ponta da cidade, onde vivem, saiem à noitinha as crianças de pele escura, cabelinho crespo, batendo às portas para pedir comida.

-- Só comida! - - (ou roupas) – comida de preferência!

Uma criança é sempre uma criança – tenha a cor que tiver.

Uma criança de pele clara, que pede, é um dos nossos a quem não demos ainda o lugar e as condições a que tem direito.

-- Mas… e estes meninos e meninas de cor, cabelinhos crespos, bocas carnudas, dentinhos luzindo?! – de quem são?

Não serão (se possível) ainda mais nossos? – “Nossos” por serem crianças, “nossos” porque seus pais vieram lá de longe, lá do outro hemisfério, porque escolheram ser confiadamente portugueses?

 (quadro - ciganos - óleo de Maria José Rijo)

.

“Nossos” porque todos, sem excepção, somos responsáveis pelo cumprimento de cada um dos deveres que nos corresponde – por cada um dos direitos da criança?

Olho estes meninos negros que pedem às nossas portas – encaro-os – e, dentro de mim atropelam-se versos de Camões – Versos de orgulho Lusíada – Versos de “Os Lusíadas” – raiz histórica de: - os Lusíadas que somos…

                                           

 

"Na quarta parte nova os campos ara,

E se mais mundo houvera lá chegara!"

 

Canto de epopeia – epopeia de uma raça – a nossa!

 

“Que da ocidental praia Lusitana

Por mares de nunca antes navegados…”

 

Foi por esses mares – já sabidos agora palmo a palmo

- Sob o céu onde brilham ainda as constelações que guiaram aqueles que :

 

“entre gente remota edificaram

Novo reino que tanto sublimaram”,

 

Que vieram até nós – até:

 

“… O reino Lusitano

Onde a terra se acaba e o mar começa”

 

Dando à costa, como despojos, os restos vivos de um império desmoronado. Vieram – crentes em nós – os donos verdadeiros desse império – que não lhes foi restituído.

 

“Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta”

 

Diz o genial Camões com um frémito de orgulho por ser português.

É de nós que Camões fala – da nossa raça.

-- Onde está esse valor?

-- Onde está que “não se alevanta” e consente que “essa gente remota” viva a mendigar às nossas portas como nós fazemos mundo fora – até já ao Japão…

São também de Camões e de “Os Lusíadas” estes versos que merecem contar os lusíadas que somos,

 

“A pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça e na rudeza

De hua austera, apagada e vil tristeza”

 

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 23:27


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