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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Imperativos de Consciência - como um toque de Aléluias

A Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1870 – 5 de Abril de 1985

Imperativos de Consciência – Como um toque de Aleluias

 

 

Muitas vezes – quando uma tarefa se me impõe como inevitável – e a minha comodidade a rejeita como enfadonha ou difícil – penso na Maria João!

A Maria João Cabral aí pelos seus 9-10 anitos como um botão em flor.

Espigadota, magrita e com a palidez das crianças alouradas que não são muito robustas fisicamente – a Maria João frequentava a escola – como toda a gente da sua idade – mas, não era toda a gente!

 Então, um dia – por um Março Gonçalvista – um professor começou a gastar o tempo que lhe pagavam para leccionar matéria determinada – fazendo propaganda politica, violenta e virulenta contra a igreja etc, etc, etc…

As crianças mais ou menos resignadas, conforme o ambiente de que provinham, ouviam pacientes.

Foi então que Maria João se levantou da sua carteira e, de pé, com a delicadeza e correcção, que aprendera em sua casa, disse qualquer coisa como isto:

--“ O Senhor Doutor dá-me licença que interrompa” – E, quando o professor lhe deu assentimento para que falasse, na sua vozinha musical, a Maria João continuou:

--“Os meus pais são católicos praticantes e eu ando a preparar-me para fazer a minha Comunhão Solene e se o Senhor Doutor não pode deixar de falar da religião dos meus Pais e minha, faz favor de me dar licença para sair porque não me sinto bem com a minha consciência ficando aqui! ”

Seguiu-se um silêncio expectante. A menina tinha corado até à raiz dos cabelos, tinha lágrimas nos olhos, mas continuava de pé, de cabeça levantada, com dignidade e sem provocação – antes com humildade.

Então o professor decidiu:

--“Podes sentar-te!” E, sem comentários, mudando de assunto recomeçou a ensinar a disciplina da sua especialidade.

A Maria João como fizera o que achava imperativo de consciência – coisa justa e natural – nem contou aos Pais.

Porém, as colegas e os telefonemas começaram a surgir porque os Pais dos outros meninos queriam felicitar, quer a criança, quer a família que alimentara numa menina tão frágil, tamanha força de alma.

Depois, despoletada a coragem, com este exemplo, os Pais das crianças reuniram-se, elegeram uma comissão, foram falar com o conselho directivo da escola e conseguiram que a “politiquisse” fosse excluída das aulas.

 

Nesta altura da vida do nosso país em que os politiqueiros, a politiquice e a parlapatice -  tudo infesta – era bom, que cada um que tem “voz” para puder ser escutado parasse e visse (como aconselha RILKE em “Cartas a um Poeta”), se o que diz e o que faz “Tem raízes no mais profundo coração”.

 

Se assim for – que o diga, ou o faça com: “uma sinceridade íntima, calma e humilde” – porque então, até os que mais gritam hão-de reconhecer – como no caso da Maria João Cabral - que a sua coragem é filha da força e da pureza que têm os imperativos de consciência.

 

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