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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Minha querida Democracia

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1786 – 17 de Maio de 1985

Minha querida Democracia

 

Quando te conheci brilhavas bem intencionada, no rosto de toda a gente, num belo desfile de primeiro de Maio.

Tinhas nascido a 25 do mês anterior e, pelas esperanças que trouxeste todos te receberam de braços abertos e te festejavam.

Pouco tempo depois, já se falava de ti em arruaças, desmandos e roubalheiras!...

Sofreste todos os males de quem nasce bem e, sem preocupações e defesa, caíste nas vielas e em más companhias.

-- Coitadinha!

Falando em teu nome à boca cheia, andavam pelas cidades e campos, gentes meio despidas, mal lavadas, mal cheirosas, “panças” à mostra, chinelo no pé, sem sombra de compostura - o que só te comprometia.

Mesmo quando o M.F.A dizia que saia contigo, era de farda ás três pancadas, em “arranjos” tão desbragados que, se não causassem dó, fariam medo.

Também se gabavam de andar contigo aqueles alarves bebedolas que se exibiam – emborcados de mistura com vinho e cerveja, sobre mesas e cadeiras de estilo, preciosas, (verdadeiras peças de museu) roubadas em casas antigas e palácios – e passeadas pelas ruas dentro de galéras  puxadas por tractores vindos de “montes” espoliados.

Enfim!

- Entre greves, madracices e barafundas tens vindo a crescer comendo fiado e do que havia…

Porém – graças a Deus e à coragem de muitos que te respeitam – ainda não morreste.

No último momento, quando já não parece, por vezes, restar esperança para ti – lá aparece alguém que te reconhece, porque te sonha – te agarra pelos cabelos, te puxa da lama, te lava, penteia e te dá nova oportunidade para mostrares o que vales.

Podemos gostar ou não do Mário, mas olha que se ele não te deita a mão quando o Vasco se meteu contigo “naquelas farras” – tinhas dado o último suspiro nessa altura!...

Mas não é para te falar da “Crónica” que te atribuem (e que tu conheces bem melhor do que eu) que te escrevo.

Faço-o, para comentar contigo o teu comportamento na Assembleia da Republica quando recebemos cá o representante do “Imperialismo”.

Penso que te portaste bem, embora “aquela gente” (que ninguém lá obrigou a ir) tivesse desfilado frente à visita, com as mãos nos bolsos das calças, os casacos desabotoados, como quem sai do futebol – ao sair da Assembleia de todos nós!

Sabendo como sempre tens tido as “costas largas”, vi logo que também te caberia a responsabilidade da descortesia.

Será que lá onde as liberdades são “tão amplas” que são obrigatoriamente vermelhas, isto seria possível?

Penso que não.

Não te roubo mais tempo. Só quero que saibas que achei os verdes, tão verdes, que se lhes não acodem e os livram da gaiola – “o Imperialismo” – que como se sabe, só tem um pensamento – poderia pensar que a história da pomba era alusão “ao milho” que nos falta.

De qualquer modo, acredito na tua boa fé mesmo quando te vejo consentir que encubram com o teu nome atitudes que reprovamos.

Aproveita a experiência do que tens vivido e vai em frente.

Coragem!

Com a esperança e a cumplicidade de quem crê nos outros, porque também se sente gente, afectuosamente “pisco-te o olho”.

 

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