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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Saramago

Jornal Linhas de Elvas
Conversas Soltas
Nº 3079    8 de Julho de 2010
SARAMAGO
.

 

 

Dei comigo a pensar em Saramago; no que vi e ouvi sobre ele, no Senhor Presidente da Republica, em tantas e tão diversas gentes que Portugal inteiro pode ver e, também, se me apeteceria falar de tudo isto agora que a vida de Saramago ganhou a dimensão imensa “daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando.”

Pensei bastante. Depois fui reler o que sobre ele escrevera em 95,e em 98 aqui no Linhas.

A tantos anos de distância, muitas vezes a nossa opinião pode alterar-se ou até mudar radicalmente.

A minha de então, manteve-se.

Naquela altura teria eu lido o “Memorial do Convento”e pouco mais. Agora, é diferente. Li quase tudo. Nem sempre com grande prazer, mas sempre com muita curiosidade e, até por vezes contagiada pela inquietação expressa no que lia. Algumas vezes, até, como no “Ensaio sobre a Cegueira” com tanto interesse, que li e reli o livro, de um fôlego duas vezes seguidas.

Para mim foi perturbador.

Deliberadamente, não li nada, nada, além dos títulos, dos livros, que pelas críticas (e, até quase escândalos), sabia porem em cheque as minhas profundas convicções religiosas. Recusei-me a isso porque, na minha idade, afasto-me deliberadamente de tudo quanto possa pretender fazer balançar os princípios a que me atenho para viver e morrer.

Falta de convicção? – Pode entender-se como tal. Eu responderei:  

Também não questiono os meus pais.

Mas vale a pena contar: - foi Saramago quem despediu do Diário de Notícias, e deixou sem trabalho o marido de uma sobrinha minha (que ainda não havia completado o seu curso de direito) e ao tempo, já era pai de duas crianças. Uma de quatro e outra de dois anos - e, isto foi feito em nome de que  justiça? – de que ideais?

Não atinjo. Só se, a crermos na voz do povo, em nome do qual se cometeram tantos atropelos – se quis comprovar, que, para se reconhecer o vilão basta pôr-lhe um pau na mão!

Aqui, neste ponto das minhas memórias, entendo e louvo o Senhor Presidente da Republica que reconheceu ao País e a ele próprio o dever de cultuar a obra e a memória do escritor, mas reconheceu a si próprio a dignidade, de, como cidadão não ter esquecido as descortesias de que foi alvo por parte da pessoa de Saramago.

A democracia que permitia a um, dizer do outro, que ocupa a posição de presidente do seu pais que era “catedrático da vulgaridade”, permite ao visado, mostrar a verticalidade e a grandeza do seu carácter, cumprindo o protocolo, não sendo mesquinho, mas sendo coerente com os seus sentimentos pessoais sem descurar os seus deveres constitucionais.

Assim como se reconhece a Sousa Lara “o direito à indignação”que lhe permitiu afrontar tudo e todos em nome do  critério das suas convicções. Não podem apenas considerar-se democratas os que estão na crista da onda. Às vezes, quem aparentemente perde, fica de pé frente à sua consciência, o que podendo não ser o mais fácil é, com certeza dignificante.

Depois, afora alguns sorrisos de piedade que não se podem conter quando aparecem as pirosas manifestações dos “íntimos”, “tão íntimos” de todos quantos forem ou pareçam ser “importantes”as cerimónias tiveram para além da dignidade devida, uma adesão de gente anónima muito considerável, atendendo, até a que aconteceram em pleno campeonato de futebol.

Goste-se ou não da obra, admire-se ou não a forma de estar na vida do homem que Saramago foi. Pense-se ou não que outros escritores da língua portuguesa teriam merecido o Nobel antes  dele.

( Falou-se em Virgílio Ferreira, em Torga…)

Tenhamos ou não mágoas por não entender alguns comportamentos seus, reconheçamos que, nunca, nem como pessoa, nem como escritor, Saramago se apresentou como santo.

Daí que lhe caibam, por condição humana, seus pecados, se os teve. Talvez, enquanto tal, tivesse sido apenas alguém fremente de interrogações que procurou, quase com desespero, fazer as pazes consigo próprio e, só tarde, encontrou alguma serenidade no amor de Pilar.

 

Não sei. Todas as conjecturas estarão para sempre em aberto e não sou eu quem desvendará seus mistérios.

Quis apenas – também - pensar “alto”nas contradições dos sentimentos de ser gente.

O que não permite dúvidas é a projecção que através da sua obra ganharam a língua e a literatura portuguesas.

E, isso torna-o credor de gratidão. Esse é o reconhecimento que lhe devemos e, o único julgamento colectivo que – penso - nos cabe fazer.

Mesmo quem não o entendeu, nem amou, como pessoa, se, se exprime e comunica na língua portuguesa, penso que pode reverenciar o escritor com gratidão e respeito.

Ninguém me pediu opinião, mas, são as pessoas comuns que consomem as edições das obras e, se as lêem, pensam, julgam, emitem pareceres – é o caso.

                                                                    

 

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