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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Em nome desse filho....

À  Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.813 –  29 Novembro  1985

Em nome desse filho

 

Costumava sentar a menina no meu colo, e ajuda-la a descobrir o que víamos da janela. Em frente era a mata, e eu procurava contagia-la da minha paixão pelas árvores.

Um dia, morreu-lhe o Avô, e a criança, com os seus inteligentes cinco aninhos, ficou perturbada, por descobrir a morte, e logo assim, tão de perto!

Preocupada, a Mãe, pediu-me: - “Veja lá se é capaz de a fazer perceber”…

Sentamo-nos no lugar do costume e tentei…

-- Estás a ver o “nosso” plátano grande?

Vês que está quase sem folhas?

Lembras-te, na Primavera, quando ficávamos aqui a espreitar as folhinhas que apareciam?

Lembras-te que quase as víamos crescer?

Lembras-te como ficaram grandes e fortes depois?

--- A menina fixava-me calada, abanando a cabecinha a concordar.

-- Olha! – Continuei eu - na vida é assim como no Plátano. As pessoas aparecem e passam como a folhagem nos ramos:

Primeiro – frágeis, são como as crianças, depois fortes e vigorosas, como os teus pais – e por fim, amarelecidas e fracas como os teus Avós.

Mas, a Vida, está aí – grande e bela – com as pessoas a chegar, a ficar e a partir como folhas numa árvore.

É um pouco triste, às vezes – mas tem muita beleza; também, porque a seguir a cada Inverno vem outra Primavera. Agora, partiu o teu Avô – soltou-se a Vida como as folhas que o vento leva.

Os teus Pais são folhas verdes, grandes e fortes e tu – és a folhinha fresca e tenra, que vai crescer.

Quando tu fores folha grande serão os teus Pais folhas de Outono, como agora o teu Avô. Será a vez de eles partirem no tempo e tu crescida e linda, ficarás para teres folhinhas novas que hão-de ser os teus filhos.

--- A menina escutava-me em silêncio, e a pouco e pouco a expressão do seu olhar mudava e interessava-se e começou a sorrir. Porém, inesperadamente rodeou o meu pescoço num abracinho de ternura e disse-me aflita:

-- “Vá já a correr ter o seu filho!” – e, tinha lágrimas avolumando ainda mais os seus belos olhos cor de tabaco e mel.

 

Neste fim de tarde de Outono, com as árvores e os montes recortados em silhuetas no contra-luz dum rápido poente cheio de carmins, laranjas e amarelos quase irreais, como as cores das folhagens que se desprendem dos ramos - sinto no meu olhar o peso da consciência de saber que um vulcão, a que neves “eternas” davam o ar de profundo sono ou serena morte – acordou - terrível e magnifico e soterrou uma cidade viva.

Perdida a ordem das coisas a tristeza parece ter o tamanho da vida. Mas, em nome desse filho – que é a fé – com que cada ser humano terá que fecundar cada dia – fico como árvore quieta, que oculta raízes fixam à terra, de onde bebe a seiva que a percorre e alimenta – seja ela só tronco ou copa em flor – e acolho-me na noite que me envolve e me fala e me promete:

 

Todos os dias amanhecem

Crianças

Pássaros

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-- Sobre a noite

Das crianças

Pássaros

E flores

Que já não amanhecem

Amanhecerá!

 

 

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