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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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As palavras e a gente

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3086 de 2 Setembro de 2010  

Conversas Soltas

As palavras e a gente

 

Um grupo de escritores, amigos de Miguel Torga, resolveu certa vez, oferecer-lhe uma palavra. Depois de muito pensarem e discutirem, decidiram por unanimidade que, para Torga, a mais certa, a que melhor lhe quadrava, e, então lhe foi oferecida, foi a palavra – telúrico.

Sempre achei esta história que me foi contada por um elemento do grupo do qual, também fazia parte Virgílio Ferreira, uma delícia.

 Quem leu poesia sua, os seus diários, ou estudou alguma coisa sobre a personalidade de Torga, não tem dúvidas de como a essência da palavra lhe assenta como uma feição. Sóbria, escorreita, sem arrebiques, nem artifícios, promissora como terra generosa e fértil.

Daí que muitas vezes, quando recordo este episódio, me detenha a pensar nas palavras que gostaria, também, de ser eu a oferecer a algumas pessoas em determinados momentos ou circunstâncias ou, naquelas outras com que qualquer de nós ficaria feliz se fosse presenteado.

Porque as palavras, como a música, são uma forma de mostrar como se vê o mundo, como se sente a gente entre a outra gente, com que força de alma, com que olhos, com que amor se abarca a Vida.

 

Quem diz: - meu amor, ou meu querido, ou minha querida, beija com as palavras seja qual for a distância a que se encontre da pessoa a quem se dirige - porque a palavra não é apenas um conjunto de letras. A palavra é um cofre de emoções que se abre especialmente para o coração, para o entendimento de quem a recebe, de quem a escuta, a guarda, a recorda.

Oferecer uma palavra, pode ser como oferecer uma flor, um fruto. Porque a palavra também pode ser olhada com fruto de um sentimento, como flor de um afecto, como a ternura de um sorriso

A palavra tanto pode afagar, mimar, salvar, como também, pode gerar todas as situações opostas.

Com a palavra também se pode brincar, embora a palavra nunca seja um brinquedo.

Então hoje, lembrando o aniversário de o jornal “ Linhas de Elvas”que, como toda a imprensa vive da palavra, ocorreu-me ponderar qual, ou quais seriam aquelas que lhe poderiam ser oferecidas.

Quais as que lhe assentariam, como retrato, quais as que, olhadas fosse por quem fosse, que o conhecesse, dele falassem, como o sorriso a gargalhada, o tom de voz, identifica qualquer pessoa da nossa intimidade.

Como lembrar é um dos privilégios de quem viveu muito…

 

Recordei o dia em que o vi nascer e só me ocorreu -Sonho!

Recordei perseguições políticas e escrevi – Coragem!

Recordei aplausos e vitórias e escrevi – Reconhecimento!

Recordei adversidades suportadas sem soçobrar e escrevi – Dignidade!

Recordei o serviço de amor a Elvas e escrevi – Fidelidade

Recordei a democrática aceitação de diferentes ideais e escrevi – Imparcialidade!

Recordei o culto da Verdade e escrevi – Honra

Quis escolher uma palavra apenas, mas, não sabia qual escolher . Reconheci que somadas contam uma – VIDA – a vida de um jornal que nasceu sob a custódia do nome da – talvez mais importante batalha para a independência de Portugal – LINHAS DE ELVAS – que, como um estigma, marca a sua génese e o seu percurso.

Então, sentindo quanto, e como, todas lhe cabem por justiça, dei-me conta de que, juntas, são apenas por uma:

“ LINHAS”

Assim, e, todo o coração, como quem reza, só fui capaz de pensar

e escrever:

Escorreita e nobre a tua Vida, companheiro!

 

Parabéns!

 

 

  Maria José Rijo

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