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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Histórias com mezinhas e receitas – 2

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3098 -  25 de Novembro de 2010

Histórias com mezinhas e receitas – 2

O xarope milagroso

 

A Rosaria passou mal a ter a criança, mas a Ti Ermelinda, que lhe assistiu, até na “venda” da Ti Carapinha, disse “ que nã na julgassem pela cara sardenta e queimada do sol, porque o corpo dela era branco como o “lête”.

Parece que o marido da rapariga soube da conversa e não gostou.

“Há coisas que se sabem nas horas do íntimo que nã se querem faladas nem nas tabernas, nem no lavar das roupas nas rubêras, nem em parte nenhuma! São do íntimo! São do íntimo! - e acabou-se.” Comentou agastado.

 

 Dizia-se até que não pediu contas do dito à Comadre porque a Rosaria já não tinha Mãe, e a irmã, a Bia Anica, morava longe, lá p´rós lados das Minas de Aljustrel e não lhe poderia acudir em tais horas, porque também tinha “uma porrada de mocinhos pequenos.”

Pesadas as circunstâncias, calou-se, e aceitou os cuidados da Comadre que, valha a verdade, por muito entendida, era sempre chamada a “aparar” bezerros, crianças e qualquer criatura que precisasse de ajuda para entrar no mundo.

Era pessoa respeitada e com muito préstimo também para amortalhar defuntos, que era outra circunstância para que era muito requisitada. Indispensável, até!

Sabia atar-lhes os “quexos” com força na hora certa e quem ela “proparasse” ia bem composto para o outro mundo, sem levar a boca aberta, habilidade que fazia também parte do seu prestigioso currículo.

Era viúva havia muitos anos, mas com todos estes préstimos, nunca lhe faltavam “molhaduras” e, delas tirava, sem miséria o seu sustento. Depois, juntava a tudo isto a sabedoria da prática e conhecimento de colher ervas milagrosas, e, com elas fazer afamados mezinhas.

 

Ora, a Mãe da Rosaria morrera com “aquela moléstia nos polmões”que matava mais gente do que a pneumónica, e, como desde que “emprenhou gomitava” dia e noite, estava numa fraqueza que só visto e tinha que se lhe acudir com urgência.

 Não havia dúvidas que para dar mama à criança precisava de um bom tratamento. Então, mais uma vez, solícita a velha comadre resolveu o problema ensinando a receita do xarope milagroso.

 

Apanha-se numa grande molhada de espinafres, põem-se ao lume sem água porque quando aquecem os espinafres “choram tanto ou tampouco” que dá para cozer juntamente com eles, também, uma grande molhada de agriões e outra de urtigas. Depois de cozidas as ervas, espremem-se muito bem e côa-se esse “chorume”que volta ao lume com mel e casca de limão para fazer um ponto fraco.

Se quiser também pode fazer com açúcar mascavado, ou com a mistura das duas coisas.

Toma-se às colheres, três ou quatro vezes ao dia e não há fraqueza nem tosse que lhe resista.

E, assim se tratou e curou a Rosaria.

 

 

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