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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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As talhadas de Santa Catarina - 3

Histórias com mezinhas e receitas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3.100   - 9 de Dezembro de 2010    

As talhadas de Santa Catarina - 3

.

Fora um casal abastado. A casa, o trem, as criadas vestidas de negro com aventais de renda e crista, o cocheiro impecavelmente fardado, mostravam a olhos vistos o estrato social a que os patrões pertenciam.

Filhos não tiveram e todo o negócio de Bancos e Bolsa que sustentava os seus requintados hábitos era dirigido pelo marido exclusivamente.

Sem sobressaltos tudo corria de acordo com as normas e, já fora assim havia tanto tempo que parecia imutável.

Sem herdeiros directos e já se sentindo um pouco pesado de anos concordou o casal que chegara a altura de viver do rendimento do capital que aplicaram em títulos do tesouro.

Assim fizeram.

Entretanto, terminou a grande guerra e em 1929 só se falava da Crise Económica Mundial. Estava-se perante um mundo cheio de novidades que alteravam as certezas tidas como eternas até então.

Nos primeiros tempos ainda viajaram. Pouco. Mas, cedo se acomodaram ao rame-rame do dia a dia burguês na pequena cidade de província onde viviam a gosto.

Faziam e recebiam visitas, jogavam mahjong e bridge aos serões com os amigos e, algumas vezes, também tocavam piano e dançavam um pouco.

Frequentavam as festas do Clube, porque era de bom-tom comparecer, sem ter coragem para confessar que se aborreciam mortalmente.

Quanto a saídas, optaram apenas pelas temporadas nas Termas da Curía ou no Hotel do Buçaco. Ainda experimentaram o Luso, mas faltava-lhes lá o grupo. Desistiram.

 

 Entretanto uma inesperada e súbita doença desfez o casal. O marido morreu.

O mundo não parou, mas com a guerra, a desvalorização da moeda e uma série de acontecimentos que se precipitaram; o que parecera uma situação económica estável esvaiu-se como fumo quando os “títulos”, se tornaram apenas em “papeis”sem valor.

A breve trecho, discretamente, as jarras de vidro coalhado, as porcelanas, as louças da Companhia das Índias, as imagens de marfim, os quadros, tudo, foi aparecendo nas salas das amigas e, sempre transaccionado a preços de saldo. Dizendo-se beneméritas por adquirirem o que lhes não era necessário, espoliaram-na lentamente, numa tortura a que não soube – ou – não pôde fugir.

Alguns anos decorreram e até a casa de habitação passou a ser de renda e, na sala enorme, agora, quase só decorada com os retratos de família nas paredes, negro, polido, lustroso, restava o piano de cauda. Enorme, mudo, como que de luto por todo o passado era, agora, o “fiador” do aluguer.

 

Num dia a dia penoso em que, só os mais fieis, apareciam com alguns mimos, Senhora e Criada, Rainha e Aia, como Mãe e Filha, unidas como duas metades de uma mesma mágoa, vencendo o reumatismo e as artroses, repartindo, tudo, até as privações, rezavam, cultivavam flores e faziam por encomenda para vender, as “Talhadas de Santa Catarina” que tanto deliciavam as visitas noutros tempos (guardando ciosamente o segredo da receita) que a fiel servidora, só confiou – por carta - aos poucos amigos que nunca as abandonaram depois do falecimento da velha Senhora

 

Talhadas de Santa Catarina:

 

250 g – de açúcar

250g – de amêndoa

5 ovos (só duas claras) uma mão cheia de farinha, uma colher de canela e três tangerinas cristalizadas.

Tira-se a pele à amêndoa e os caroços às tangerinas e passam-se juntas pela máquina.

Põe-se o açúcar ao lume para tomar ponto baixo – após o que se lhe junta a amêndoa passada com as tangerinas. Mexe-se tudo muito bem e juntam-se-lhe os ovos depois a farinha mexendo tudo muito bem. Por último deita-se a canela.

Com a colher de pau e com uma faca experimenta-se se já se conseguem tender as talhadas que vão ao forno a tostar ligeiramente. Retiram-se então do tabuleiro e polvilham-se, ainda bem quentes, com açúcar e canela.

O formato é como de uma grande pétala de rosa com mais ou menos 8 centímetros de comprimento, e 4 na parte mais larga, terminando em bico, nas extremidades. Mais ou menos como se fossem broínhas de Natal.

 

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