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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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As empadas para presentes - 7

Jornal Linhas de Elvas

Nº  3.110   -  17 de Fevereiro de  2011

Histórias com mezinhas e receitas

As empadas para presentes -  7

 

 

Os tempos eram diferentes. Quero dizer: - diferentes eram os hábitos, que os tempos, esses, sucedem-se como sempre, estação após estação sem alterações na ordem de sequência.

Saber fazer toda e qualquer tarefa dentro de uma casa era compromisso de honra de toda a mulher, até porque, valia como dogma que, quem não sabia fazer, não saberia mandar

 

Assim o conhecimento passava de gerações em gerações e, algumas especialidades eram tão características de certas famílias, quase como traços de feição.

Aquelas duas Senhoras que moravam mesmo em frente no outro lado da nossa rua, haviam sido modistas de chapéus.

A sua casa fora frequentada pela elite da época na cidade. O seu trato fino, a sua ascendência distinta, faziam que fossem elas a escolher de quais das suas freguesas aceitavam amizade e, não, o contrário.

Eu tinha acabado de casar. Tinha vinte e um anos. Estava habituada a tratar com toda a deferência as minhas velhas Tias e Avós e a sermos chamadas por elas, minha irmã e eu, por “as garotas” e, de repente ouvir aquelas duas Senhoras com idades como as delas a tratarem-me por senhora dona causava-me uma imparável vontade de rir.

Disfarçava o melhor que podia até que me fui adaptando num convívio que as enternecia pela diferença de idades entre nós, mas que me era grato e fácil pelos hábitos familiares.

Eu vinha à janela dizer adeus ao meu marido quando ele saía para trabalhar e elas assomavam à sua para quebrarem a sua solidão distraindo-se a falar comigo.

Foi assim, pelo coração, que entraram na minha vida e, eu, na delas.

Foi com elas que aprendi que a Rainha Senhora Dona Amélia quando vinha de visita a Elvas ia rezar à capela de Nossa Senhora da Conceição e mandava comprar ameixas na casa Guerra.

Foi assim que aprendi como era a cerimónia do fechar das Portas de Olivença (na nossa rua) a que na juventude ainda tinham assistido e contavam com uma riqueza de pormenores que para alem de ouvir, eu, julgava ver…

Foi assim que entrei no secreto encanto de Elvas com o conhecimento das pequenas minúcias, desse supérfluo que, como um perfume, ou uma flor embelezam a vida.  

Foi também assim que aprendi a confeccionar “as melhores empadas do mundo”feitas com requintes de paciência, por elas, para em festas e aniversários presentearem os amigos especiais.

 

Empadas de perua de campo

Depois de morta, limpa e arranjada leva-se a perua ao lume a cozer numa tigela de fogo (já curtida), coberta de água e com os seguintes temperos: - uns fartos ramos de salsa, salva e mangerona, uma xícara de café cheia de vinagre, bastante cebola cortada em rodelas, abundantes dentes de alho, um pouco de pimenta em grão, sal quanto baste e um bom naco de toucinho.

Deixa-se cozer bem. Tira-se então do lume e descansa no próprio molho até ao dia seguinte.

Volta então ao lume para descoalhar, sacodem-se os temperos retira-se a carne, côa-se o molho que se reserva e picam-se as carnes por cores, em montinhos. Isto é: peito para um lado, carne escura para outro, fígado e moela para outro e metade do toucinho para outro.

 Com banha de porco e uma parte do caldo e farinha de trigo, faz-se uma massa tenra.

 

Com ela se forram as formas, de preferência de copo.

Com a metade restante do toucinho pisado com salsa fresca, picada faz-se um creme com o qual se unta por dentro a massa que forra cada uma das forminhas que só então se enchem com um pouco de cada uma das qualidades do picado – peito, carne escura, fígado, pele e um quadradinho de toucinho, para que todas tenham de tudo no recheio.

 

 Levam então uma colherinha do caldo da cozedura e são tapadas com rodelas de massa tendo no centro uma abertura feita com um dedal que permite fazer a adição de um pouco mais de molho aquecido quando as empadas vão à mesa.

Cozem em forno esperto, com as tampinhas pinceladas com gema de ovo.

 

Permito-me publicar, com esta receita e história verdadeiras, numa sentida homenagem de saudade uma fotografia das duas queridas senhoras cuja terna lembrança me tem acompanhado ao longo destes 64 anos.

 

       Maria José Rijo

 

Nota – tigela de fogo é uma espécie de alguidar em barro, próprio para cozinhar em lume de lenha. Considera-se curtido depois de ter ido ao lume, barrado com uma gordura e uma mistura de água e leite para ferver e curtir, para não deixar, posteriormente, gosto de barro nos alimentos.

 

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