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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Com a prata da casa - 8

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3.112   de  3 de Março de 2011       

Histórias com mezinhas e receitas - 8

Com a prata da casa

 

 

 

Na primeira metade do século XX (reporto-me aos anos trinta) no Baixo Alentejo, até os lavradores mais abonados, ainda, não possuíam automóveis. Quando o primeiro deles, quebrou a pasmaceira da aldeia com essa novidade a garotada de pé descalço corria perseguindo-o e vaiando: “ olha o gato mole! O gato mole! Expressão que mais tarde trocariam por “artenóve”!

As deslocações, faziam-se então, a cavalo nas visitas às herdades, por caminhos e veredas traçadas pelo vaivém de quem tinha que percorrer essas distâncias. Havia depois as estradas rurais por onde os trens, os carros de canudo, as carrinhas e as charretes, mais ou menos aos solavancos, faziam o transporte de pessoas. Para as tarefas das lavouras como carregar sacas de cereais, ou as escultóricas carradas de molhos de trigo, erguidas com precisão geométrica e “fechadas a um molho” dispunham das carroças puxadas pelas fieis bestas de carga – machos e mulas…

As carreiras de camionetas para transporte de passageiros, pela sua raridade, eram, como que, motivo de festa e ajuntamento de pessoal, pela curiosidade e pelo movimento que provocavam.

Até os poetas populares celebravam em versos, que depois eram cantados nos “balhos” esses grandes acontecimentos:

“Já temos mercado novo

Estrada nova, alcatroada

“Caminete da carrêra”

Falta a “engreja” amanhada!”

As distâncias maiores, não obstante, eram percorridas em comboios ronceiros, que queimavam hulha e carvão de coque e, que, de estação para estação comunicavam entre si, por telégrafo,em morse. Parachegar às estações, utilizavam-se os carros, ou caminhava-se a pé, conforme as posses de cada um…

Os mancebos iam fazer a tropa, nas cidades, capitais de distrito, e as famílias e namoradas, ficavam nas estações a cantar e a acenar com lenços.

 

“Lá vai o “camboio” lá vai-Lá vai ele a “assobiari”

Lá vai o mê belo amôri-Para a vida “mulitari”

Para a vida “mulitari”-Para aquela triste vida

Lá vai o “camboio” lá vai,- Lá vai lá ele na subida.”

E, lá ia, cada qual, levando às costas a sua bela taleiga feita pelas mãos hábeis de mães ou namoradas, em tecidos “enrameados,” de cores vistosas, com suas enormes borlas vermelhas aos cantos, a balouçar, contendo uma ou duas mudas de roupa interior e “alguns mimos para comer enganando a solidão”

Nesses tempos que tornavam as distâncias em lonjuras, sempre havia nos montes e lugares ermos, velhotas, “as comadres”, que faziam partos e mezinhas com que tentavam, quanto possível, suprir a dificuldade de ir a um médico, quanto mais em adquirir remédios de farmácia.

 

Então, com a prata da casa, qualquer “entendida” fabricava um tónico para velhos e crianças, ou para quem dele necessitasse.

 Receita:

Lave seis ovos frescos e coloque-os dentro de uma tigela de louça.

Sobre eles esprema o sumo de seis limões, e deixe ficar de um dia para o outro.

Ao outro dia os ovos não têm casca porque o ácido do limão gastou o cálcio. Abra então os ovos junte-os ao sumo de limão e bata-os muito bem misturando também um bom cálice de vinho do Porto, um naco de marmelada e um pouco de canela.

Toma-se em jejum ou, como reforço das refeições um copinho de cada vez.

Se a “maleita” fosse só fraqueza de ossos ou atraso na dentição, então, quando se tirava o pão do forno, aproveitava-se o resto do calor para torrar, em tabuleiros de folha de lata, as cascas dos ovos que se iam sempre juntado e, num almofariz, eram pisadas e reduzidas a pó fino, que depois de repartido e embrulhado em papelinhos como mortalhas de cigarros, em pequenas doses, se haviam de tomar, dia a dia com um copo de água em jejum ou diluídos numa colher de sopa às refeições.

 

 

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