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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Pagina de diário - 2

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Hoje tenho a percepção nítida de como desde criança me encantavam as palavras. Vejo que as sentia como qualquer coisa de mágico ou misterioso que aliava na minha imaginação aos contos de fadas, porque, tal como eles, elas eram usadas para contar coisas.

As histórias tinham dentro uma mensagem que pouco a pouco se ia abrindo aos nossos olhos com a narrativa dos acontecimentos que se iam sucedendo.

Mas, as palavras arrumadinhas umas às outras é que contavam a história. Era como se cada uma delas já fosse, em si, ela própria, um pequeno conto.

Então ficava calada escutando tudo quanto se dizia, muito principalmente quando alguma das pessoas da família, chamando a atenção, lia em voz alta uma passagem mais interessante de algum livro que tivesse em mãos, ou, até, alguma notícia de jornal mais surpreendente para confrontar opiniões.

Foi assim que tive pesadelos atrás de pesadelos com o rapto do filho de Lindberg, o aviador americano que fez, solitário, a primeira travessia aérea do Atlântico Norte e com o assassinato de Frederico Garcia Lorca, que me comovia e punha em lágrimas só porque era poeta, devia eu ter, talvez, aí uns oito ou nove anos.

Lembro-me perfeitamente de fixar palavras que achava lindas e de lhes atribuir significados que elas não tinham, mas que eu imaginava que lhe ficavam bem.

O dia está de chuva, ouvi agora na rádio que é provável que suspendam o cortejo de Carnaval. Foi isso, que me trouxe estas lembranças. Carnaval queria dizer férias escolares.

Férias significavam liberdade, ausência de obrigações, enfim: uma beleza de vida, daí que, quando naquela história li: em Belas “pelo Natal” a palavra “belas” tenha ganho o sentido de férias e, eu, com os meu delirante amor pelas palavras tenha começado a substituir férias por “belas” e tenha arranjado uma bela confusão para mim afirmando ir para “belas…”

E, quando por essa altura, li um poema em que se dizia: Joana Vaz, passa –

    

é latinista e loura – fala a Luísa Sigea – A Mestra - eu tenha deduzido que – sigea - quereria dizer : cumprimenta, faz vénia e, tenha achado oportuno fazer, para meu uso, a substituição de um termo pelo outro.

Meu Pai ria-se, discretamente para não me envergonhar e corrigia-me, mas incitava-me sempre a que continuasse lendo embora não se cansasse de recomendar: - não uses palavras que não conheças.

Quando recentemente, ouvi o Senhor Professor Hernâni Saraiva a falar sobre a Infanta Dona Maria filha de D. Manuel Iº e de Dona Leonor, sua terceira esposa, a dizer que ela fora educada por Luísa Sigea, e que reunia no Paço um brilhante cenáculo literário que também era frequentado por Paula Vicente, filha de Gil Vicente, dei comigo a sorrir enternecida, como se estivesse a ver um filme em que a personagem principal era uma criança que ainda hoje, muitas vezes, me empresta o seu olhar de esperança…e, muitas vezes, também, me faz rir com estas recordações…

 

 

 Maria José Rijo

 

8-Março de 2011

 

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