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A “celestial” sopinha da panela - 9

Sexta-feira, 01.04.11

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3.116 de 31 de Março de 2011

Histórias com mezinhas e receitas -- 9

A “celestial” sopinha da panela

 

A luz que a cozinha recebia, provinha do pátio e entrava pela porta que se mantinha aberta o dia inteiro, quer chovesse, quer ventasse ou, lá fora, o calor do sol derretesse até as pedras da calçada!

Para o pátio abriam as portas da casa do forno e de todos os quartos da habitação. O pátio era o centro da casa do senhor Padre que vivia com sua Mana solteira que continuava a fazer e vender pão, como já haviam feito seus pais e seus avós.

Daí que pairasse sempre por ali a incensar o ar, um vago e convidativo cheirinho de pão quente.

    

 A cozinha era enorme e funda. Logo à direita da entrada era a parede lateral de uma enorme chaminé, que fazia uma espécie de pequeno corredor que desembocava no aposento propriamente dito.

Verão e Inverno o lume de chão estava sempre aceso e embora possa parecer improvável, nunca, quer o calor, quer o frio, eram excessivos. O clima ambiente mantinha-se temperado, acolhedor.

Sempre que lá se entrava tinha-se a sensação de o fazer numa enorme e arrumada despensa, até pela semi-obscuridade que nos envolvia.

Ao fundo da casa onde, centrada, estava uma enorme mesa comprida rodeada de cadeiras de fundo de bunho( bem à alentejana), uma cómoda antiga com uma imagem de Nossa Senhora, uma jarra cheia de flores e na parede um Cristo pregado na cruz.

Sobre a mesa de jantar, como decoração, bonitos canjirões antigos, de louça das Caldas, com água e vinho sempre à “descrição” dos da casa ou seus convidados.

 

A toalha de linho grosso, branca como de um altar, tinha em volta uma bonita renda de pontas tecida a duas agulhas. Era peça de enxoval. ( Foi-nos confidenciado)

Dentro da chaminé podia-se andar à vontade, porque era ampla e tinha o “pano da cimalha”bastante alto.

De um lado e de outro do lume arrumavam-se cadeirinhas baixas e “burros” para os mais friorentos.

Ao fundo, encostado “à boneca” um grosso madeiro a que se amparava para arder a lenha miúda que se guardava de reserva no  lado exterior da chaminé e, em redor, uma panóplia de trempes   sustentando utensílios de barro, panelas e cafeteiras. Havia também panelas de ferro e cafeteiras de latão de tamanhos diversos, conforme as necessidades da casa.

Os móveis eram modestos, sem pretensões a ser mais do que eram realmente: suporte para pratos e travessas ou quaisquer outras necessidades de serviço.

Foi neste ambiente que, depois da procissão, como de costume, foi servida a refeição.

Com cuidado a Mana levantou o testo da panela maior sem a retirar do lume, arredando-a apenas, e, com a colher de concha, foi enchendo a terrina que havia de ir à mesa com um caldo suculento e tão perfumado que - disseram os circunstantes –“parecia coisa celestial”.Num dos móveis do lado já estavam duas cestas cheias de tangerinas e laranjas e uma grande travessa de arroz doce para a sobremesa e, sobre a vasta mesa as cestinhas de pão já fatiado para cada qual usar para a sopa, a quantidade a seu gosto e, um prato, com fartos e recendentes ramos de hortelã para o remate perfumado da iguaria.

 

Veio a receita:

“Está sempre pronta a qualquer hora. Temos a panela ao lume com as carnes. É a galinha, (das nossas) o toucinho entremeado da barbela do porco, um ossinho da suã, bom chouriço, uma cebolinha pequena e depois, deixar ferver, ferver, mais nada.”

 Isto era dito enquanto dispunha as carnes numa grande travessa para ir à mesa, indiferente a um pequeno ratinho que passou a correr junto a seus pés e se esgueirou para detrás da lenha…

Com o mesmo tom de voz, alertou:

“Mano! Temos que fechar a gata em casa à noite, já andam aí os musganhitos outra vez!”

Realmente a receita só podia ser celestial porque este cenário, é coisa de outro mundo!...

 

    Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 10:15


6 comentários

De Xavier Martins a 01.04.2011 às 10:34

Muito Bom , muito bom.
Gosto imenso desta sua colecção.
Aliás eu sou um seu leitor compulsivo, pode
acreditar que já li este seu blog de fio a pavio,
e tem aqui coisas deliciosas - torrãozinhos
de açucar para a alma.

Agora e sempre os meus PARABENS

com muita amizade

Xavier MArtins

De Flor do Cardo a 01.04.2011 às 10:47

Realmente a sopa da panela é mesmo celestial.
Eu também adoro uma sopita da panela.
Que saudades das que a minha mãe fazia.
Belos essos tempos...

Também gostei imenso este seu artiguinho.
Gosto muito desta colecção.

E agora me lembrei e as nossas Olaias.
Venham lá as fotos delas para nos deliciarmos
cá de longe - se for possivel - Claro.


A nossas meninas estão um espanto - Sabe que
foram todos ao Vaticano - penso que até irão ver
o Papa - eu não fui - já tou velho para tantas
horas de viagem.
E levaram as 4 princesas.
Imagine esta minha gente.

Um abraço

Luciano

De ´Luis Teixeira a 01.04.2011 às 16:23

Muito boa tarde
venho parabeniza-la por esta maravilha que é o
seu blog.
Um Blog muito visto e com artigos especiais.

Os meus Parabens
Felicidades

Luis Teixeira

De DOLORES a 01.04.2011 às 16:26

OH Tia
Sabe que hoje foi o meu Almoço - sopinha da
Panela.
Uma delicia de almoço.
Por aqui vamos andando, na Graça de Deus.
E a Tia e a sua mana?? Está tudo bem?
E os seus olhos? Está merlhorzinha???
e a sua gatinha tão linda?

Ai, tia vou ter de ir embora - o Muiglito está
acabadinho da assar.
Beijinhos

DOLORES

De GUS a 04.04.2011 às 13:45

Muito Boa tarde tia
Cá estou eu de volta - estive longe - fui passar uma
semana para Australia para quebrar a rotina.
Estive longe de tudo e todos... voltei agora tão mais
sereno para aparoveitar também um pouco da
bella Primavera e claro - quero cá estar na próxima
quarta feira - um dia inesquecivel - para este seu
sobrinho.

Queria pedir a minha prima Paula - que nesse dia
comprasse (se f.favor) um botão de rosa perfeito
para si com muitos beijinhos.
Está combinado prima??

De longe... e tão perto do coração...
Muitos beijinhos


GUS

De ARISTEU a 05.04.2011 às 10:46

Olá
Um grande beijinho desta sua familia em Itália,
estamos em Roma e amanhã vamos ao Vaticano...
Queria pedir tb à Paulinha que uma flor que ela
escolha - para colocar no bouquet de amanhã -
junto das delas e do Gus .
Desculpe a chateação mas era de nós um
beijinho especial. Pode ser???

Beijinhos e até amanhã

Aristeu e Familia

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